terça-feira, 27 de dezembro de 2011

QUEDO-ME NESTE SILÊNCIO




QUEDO-ME NESTE SILÊNCIO


Quedo-me neste silêncio
Já não ouço o teu sorrir...
O teu olhar escondeu-se...
O teu sentir disse-me
Cansaço...
E o teu amor gritou-me
Verbos desunidos...
O teu amor...não morreu...
dizes...
O meu também...
Digo...


Quedo-me neste silêncio
Exaurido de saudade
E amorfo de palavras
Peço-te apenas uma gota
Do teu tempo...
Para matar esta sede
D’ hoje!


E a nascente
Deste amar tão nosso
Tem ainda tanto caudal
Tanto correr
Tanta frescura
Que o Éden terá inveja
Deste jardim sem pecado!


Quedo-me neste silêncio
Exaurido de saudade
E amorfo de palavras
Peço-te apenas uma gota
Do teu tempo...
Para matar esta sede
D’ hoje!


Deixa-me hoje cumprimentar
A lua no teu amor...
De mão dada ver nascer o dia
Sequência de vagas
Calendário...
Onde os cálculos assimétricos
Não perfazem fim
Porque somos princípio.


Ferido de saudade
E amorfo de palavras
Peço-te apenas uma gota
Do teu tempo...
Para matar esta sede
D’ hoje!


in "DA JANELA DO MEU (A)MAR - José Luís Outono - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA - MAIO - 2011

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

ESTE NATAL





Este natal - Antes a tua carne perfeita
Não quero a estrela a oriente
mas molhada
em cada uma
das nossas línguas - Cegas de ti
crianças velhas
a esperar em áfrica - Antes o teu silêncio
Que a suas bocas
Em campos
desertas de chuva e o seu grito
que os seus braços
jardins de areia
Antes mãe e pai
de mãos dadas comigo
e ruas que nos trazem de volta
a braços que aleijam de bondade
Este Natal não quero
mais presépio - antes o teu olhar
no cálice dos meus dedos
e o teu rosto dorido na voz
de ave e limbo nas palavras
Ah não quero
a delinquência dos céus
e da terra - antes os teus pés na minha boca
por impróprios labirintos
Só quero a vida
de rio para os teus cabelos
sem pastores com frio nos meus olhos
antes tu connosco
na argila do mundo
Antes o teu fogo!


manuel feliciano

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

domingo, 4 de dezembro de 2011

"MARIA DO MAR DE MIM..."

Foto de José Sottomayor

" Maria do mar de mim..."

repousam os sargaços
na flor da manhã,
na dor da maré vã,
na areia solta
e louca
dos abraços,

onde
fomos e somos
os templos de nós,
as ondas,
a espuma,
a crista dos sonhos,
a voz.

Mas
porque fomos
e somos
assim,

pousados nas areias do tempo,
guardados nas veias de um momento,
escravos de um enfim...

não sei porquê,
Maria do mar de mim...

JOSÉ SOTTOMAYOR

2011/10/27


"LA NUIT DE MA BELLE DAME"


" La nuit de ma belle dame "


O silêncio é cristal na sombra da noite,
os segredos sussuram murmurando as árvores,
as estrelas cintilam as perguntas e as respostas,
os pássaros descansam nos ninhos da incerteza,
e tu,
atravessas,pé ante pé, o quarto do teu quarto,
e és no teu espelho o que vês e o que queres ver,
afagas os cabelos,fechas os olhos e contornas os seios,
e danças na memória dos novos dias que hão-de florir.
e,
na tua cama branca e leve
recordas e inventas
todos os amores
que a tua vida
teve,
e tem.
Faz-se noite e dia,
na noite do meu bem.

JOSÉ SOTTOMAYOR

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

HOJE!!



Hoje!!

Hoje eu percebi!!
Não sou loiraça e nem morenaça!
Não tenho os cabelos presos ao alto
... nem tão pouco os saltos altos.
Hoje eu percebi que não tenho os olhos de serpente
nem tão pouco o sorriso de meretriz,
não sou aquela mulher dos alpes da Suíça
não desfilo na passarela de botas e cachecol.
Hoje eu percebi
não sou o que procuravas.
Sou das letras e dos devaneios
e entre meios
escrevo : o sol, a lua, a saudade e a intensidade!
O olhar, o gesto, a palavra: Sou simples!! Nada Mais!!

Isabel Lemos







.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

QUARTO CRESCENTE

                    

QUARTO CRESCENTE


vou pintar uma parede de cada cor e encostar-me a cada uma para que cada uma seja o que eu quero construir
mas como só tenho quatro quatro não chega por isso vou lá para fora imaginar paredes para que se façam muros que eu quero cair uns altos e até ao tecto que está a fazer de céu
eu quero pintar o ar como quem pinta paredes para sentir os desafios como um ar que se lhe deu
e vou respirar distâncias para as cheirar mais perto
e vou escalar o areado como quem rasga os dedos e ainda assim sorri porque sobe como quem morre
vou pintar o mundo de uma cor única que são todas
e matizar as pessoas com nuances subtis para que sejam coerentes
mas eu vou ficar transparente para que vejam por mim o que eu não quero que dói muito
só que o ar anda racionado e o homem racionalizado
e dizem-me que o não faça que fique quedo como quem respira só para fazer circular o ar como o polícia que diz do acidente que aqui não há nada para ver
e fecharam-me à chave
e fecharam-me a chave dentro duma gaveta que está lá fora e lá longe
e estou a fazer pequeníssimos quadrados nas paredes do meu quarto para simular a imensidão do mundo
mas não me chega falta-me gente e até pus um anúncio no jornal a pedir gente pequenina em part-time para me inundar as paredes vestidas de quadrados que fazem de muros das casas das pessoas lá fora
e dentro do meu quarto corre bem corre muito bem porque as cores começaram a intrometer-se nas almas umas das outras
e agora nem são quadrados
são manchas que eu nem distingo que eu nem percebo que eu nem sei ao certo
manchas que se misturam como quem nada que viajam como quem corre
como quem escorre do tecto
como quem escorre do chão ao tecto
como quem escorre de fora para dentro
como quem se entranha
como quem se une
como quem se mune de aventuras e segredos que quiseram ser contados para deixarem de existir
e a perfeição do mundo interior é ter as barreiras simples feitas para cair
e a sua única tristeza são as arestas que choram no canto porque separam a mãe do filho e a solidão da aventura
e ao meu quarto só lhe falta ser circular para ser o mundo mas lá fora circula
e um dia hei-de sair para dizer a todos que se espalhem ao comprido e debaixo uns dos outros
como quem ama sem saber como
como quem chama sem saber quem
como quem brinca sem saber a quê
e vou-lhes ensinar a verdadeira linguagem dos afectos que é moldável palpável e daltónica
e o mundo vai ser de uma cor melhor o mundo vai ser de duas cores da minha e da tua


in luto lento, de JOÃO NEGREIROS

POR VEZES









Por vezes,
muitas vezes,
nos perguntamos,

onde está o tempo
e o momento,

das mãos,
dos lábios,
e o "ventre"
das vidas
que tocámos.

Onde está
a sabedoria
e a loucura,

que nos fez nascer,
na mente e no corpo
a sede e a aventura.

Por vezes,
muitas vezes,
nos perguntamos,

onde estivemos,
aonde vamos.


JOSÉ SOTTOMAYOR

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

DIA 175 (PENSANDO AMÁLIA)

Amália Rodrigues
DIA 175 (PENSANDO AMÁLIA)



Podia ouvir-te cantar a noite toda.
... Como se fosses um desejo, como se fosses a minha
respiração, o resultado do encantamento que só os
sapos têm pelas estrelas maiores.
Não há pássaros na tua voz. Terrenos, ou celestes.
Despertadas e misteriosas aves de qualquer paraíso.
Nada disso. Apenas laranjas, sombra, solidão, e a pro-
funda tristeza das casas abandonadas.
Ainda que vivos, os que te ouvimos, já morremos, fan-
tasmas a quem emprestaste a tua luz.
A tua presença repousa em mim, os teus olhos ainda
percorrem com um pouco de amargura os caminhos
do rio, as nossas comprometidas margens, afinal o pal-
co da pouca memória, coberto ainda de rosas, de feri-
das e troféus.
Não sei o que aconteceu para que tivesses de morrer.




JOAQUIM PESSOA

DIA 318




DIA 318.




Tenho orgulho em ti, orgulho em quem acredita que sempre
é possível. Em ti, que repartes o que recebes e voltas a rece-
ber o que ofereceste como natural recompensa da tua genero-
sidade. Ser solidário, amante do amor, coração aberto aos ou-
tros e ao mundo.
Tenho orgulho também na tua força, e na tua coragem, e na
tua inspiração. Perdi a conta às vezes que respondeste a ofen-
sas com um sorriso. Vi-te tentar passar com toda a discreção
entre gente que adoraria ser reconhecida a teu lado. Sempre
que perdeste, ganhaste a admiração dos que venceram. Quan-
do ganhaste, sempre procuraste não exibir a condição de ven-
cedor. Porque acreditas, porque sabes que é possível ser me-
lhor, ainda que não se possa ganhar sempre, e que nem sem-
pre acrescentamos alguma coisa à nossa vida quando ganha-
mos.
E tenho orgulho em ti, sobretudo, porque nunca fazes seja o
que for para conseguir esse orgulho, essa admiração genuína
e profunda por parte dos que te conhecem e que nunca preci-
saram de fazer o mínimo esforço para gostar de ti. E porque
é muito o carinho, a ternura, o amor que tens necessidade de
oferecer à vida, sem nada pedir em troca, sem nada esperar
em troca.
É por tudo isto o imenso orgulho que tenho em ti. E nem direi
o teu nome porque sei que não gostarias que o fizesse.






JOAQUIM PESSOA


in ANO COMUM, Litexa, 2011 (Introdução de Robert Simon;
Posfácio de Teresa Sá Couto.







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domingo, 27 de novembro de 2011

AMÁLIA

                     





POEMA AOS AMIGOS

Joge Luís Borges


POEMA AOS AMIGOS




Não posso dar-te soluções para todos os problemas da vida
nem tenho resposta para as tuas duvidas ou medos
mas posso escutar-te e compartilhá-los contigo...


Não posso mudar o teu passado nem futuro
mas quando precisares de mim, estarei junto a ti


Não posso evitar que tropeces
só posso oferecer-te a minha mão para que te apoies e não caias


Tuas alegrias, triunfos e êxitos não são meus
mas desfruto sinceramente quando te vejo feliz


Não julgo as decisões que tomas na vida, limito-me a apoiar-te, a estimular-te e a ajudar-te, se mo pedes
Não posso traçar-te limites dentro dos quais deves agir, mas sim oferecer-te esse espaço, necessário para crescer


Não posso evitar teu sofrimento quando alguma pena te parte o coração
mas posso chorar contigo e recolher os pedaços para amar novamente


Não posso decidir quem és, nem quem deverias ser
só posso amar-te como és e ser teu amigo


Nestes dias pensei nos meus amigos e amigas
não estavas nem acima nem abaixo da média
Não começavas nem acabavas a lista
não eras o primeiro nem o último


E tão pouco tenho a pretensão de ser o primeiro, o segundo ou o terceiro da tua lista


Basta que me queiras como amigo...
Obrigado por o seres






JORGE LUÍS BORGES

sábado, 26 de novembro de 2011

EU



EU




Procuro um sossego por entre os passos instáveis que me conduzem. Procuro um espelho e o reflexo da imagem em que me constroem. Receio. Parece-me que a vida é uma representação para a qual não ensaiei. Olho-me. Tento perceber onde ficam as margens da máscara que me engana, ou com que engano. Involuntariamente. Não. Eu não sou assim. Será tão difícil perceber a minha fragilidade? Inquieta-me este sentir ser fraude, sem que o pretenda ser. Olho-me e não me reconheço no que os outros me vêem. Introspecção: serei tão diferente do que penso ser? Dispo-me. Mas a nudez apenas me mostra a fragilidade com que fui ser. Não me matem vivo, pois sou excessivamente ténue para resistir a qualquer tentativa de derrube. Quero ficar de pé para ter a certeza que sou, aquilo que sei ser: frágil,
demasiado, para duvidar dos passos em que caminho.
 

JOÃO COSTA

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

terça-feira, 22 de novembro de 2011

JOANA

                    

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

VENTRE

Luisa Azevedo
Ventre...



Morreu a saudade no meu ventre.
Perdeu-se da vida,
porque a saudade também se mata
... ou morre abandonada!
Nem novas marés ou novos mares
me devolvem a ilusão,
porque não há abraços, nem desejos.
Não há afectos, afagos ou beijos!
Não há qualquer carícia.
Não há brisa na praia que traga boas novas.
Não há ondas que rebentem os silêncios.
Não há areias que me acariciem os dedos.
Não há sóis que desmaiem em meu corpo
ou falésias para me atirar em voo.
Porque não há barcos, partidas, amaragens.
Não há sonhos, rotas ou viagens!
Não há luas que enfeiticem minhas noites.
Não há nuvens, sombras...
não há luz.
Não mais o mundo me seduz.
E se a saudade morreu,
ficou a morte...
que a venceu!



LUISA AZEVEDO

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

É POSSÍVEL GOSTAR DOS OUTROS SEM GOSTARMOS DE NÓS?

Foto de José Manuel Fernandes
POR MANUEL XARÁ



É POSSÍVEL GOSTAR DOS OUTROS SEM GOSTARMOS DE NÓS?


Às vezes apetece-me estar junto das estrelas, abro os olhos, a lua nova não fere, e com o sussurro das ondas, contemplo-as e brinco com elas .


Às vezes apetece-me voar, cerro os olhos, sonho, e de repente aí está ela, volteando graciosamente numa relação misteriosa e fascinante com o vento, a gaivota paira, como o sonho e segue o mesmo caminho, o depósito de lixo o mesmo onde depositamos os sonhos.


Às vezes apetece-me odiar, mas ainda não cresci o suficiente, vou naquela parte de amar, o que no momento actual não dá jeito nenhum e ainda por cima está fora de moda, aliás, esteve sempre fora de moda, do amor não reza a história. É claro que isso dá um jeito bestial para fazer telenovelas, canções, manifestações, ONGS, movimentos de solidariedade em nome do amor pelos outros etc. E no entanto todos os dias as expressões de ódio nas suas mais diversas formas rodeiam-nos e mais do que isso submergem-nos num sentimento de quase fatalidade de que o mundo é mesmo assim. E não será?


É possível gostar dos outros sem gostarmos de nós ?


Sem narcisismos penso que não, quanta humildade e autenticidade são precisas para gostarmos de nós, quanta sensibilidade e tolerância são necessárias para gostarmos dos outros e quanto do nosso tempo dedicamos a pensar nisso? Nenhum. O que em última análise é bem comprovativo de que os tempos não são de afectos, antes de utilizações. Quer dizer, entre conviver com um idiota que vê as estrelas e um outro que é a estrela (pode ser a do Mercedes), há uma esmagadora tendência poética a favor do primeiro e uma absoluta envolvência com o segundo.


Acredito que o maior sucesso da clonagem vai ser a produção de seres descartáveis, disponíveis em qualquer prateleira de supermercado, poderemos escolher a cada momento quem mais e porquê nos convém amar e depois desfazermo-nos deles quando já não servirem para coisa nenhuma. Acabei de escrever isto e a única coisa estranha é que ainda não estavam disponíveis nas tais prateleiras do supermercado, em tempo de inovação é uma falta imperdoável a ausência de um projecto destes, alguém que lance o alerta a um desses génios que por aí abundam com ou sem diploma.


Cá por mim nunca gostei de entrar em supermercados, sinto-me uma ovelha dentro do redil e depois venho com a lã e sou tosquiado num corredor feito à medida para uma ovelha de cada vez, antes ao ar livre com a lã ao vento, vendo as estrelas, cheirando as flores e partilhar isso com quem amo e depois juntos, escolhermos o momento, o lugar, a forma e por quem queremos ser tosquiados. Talvez ovelhas, mas livres e únicas, jamais deixaremos fazer uma Dolly, é tão bom morrer quando se viveu feliz!


Eu continuo a viver mais feliz, mais livre, mais velho, mais infantil, mas mais triste porque outros, demais, só continuam a viver, com o fato e gravata mais conveniente ou com a camisa fora das calças nos momentos de lazer, um ar de abandono e distância das coisas simplesmente terrenas e preparados para mudarem o mundo todos os dias, obviamente mudando para o mesmo é por isso que são conhecidos pela geração do ângulo raso ou volta inteira (360 graus), essa concepção geométrica da vida que lhes diz que a distância mais curta entre dois pontos é uma recta e no entanto aqui estou eu para provar que isso é mentira e que a geometria é um contributo insignificante para a resolução de um desafio matemático complexamente simples chamado vida, e aí, essa coisa das rectas costuma dar grandes curvas .


Não sei quem disse mas de facto a Arca foi construída por um criador de animais e navegou por entre tempestades nunca vistas, parece ter aterrado no cimo de um monte qualquer. O Titanic foi feito por profissionais e aterrou no fundo do mar.


Conclusão : entre a arca e o Titanic a diferença residiu no conceito, a primeira foi feita para ajudar numa causa, o segundo para servir a vaidade humana. Tenho aqui uma arca em casa com tamanho suficiente para nela caberem quem tem causas, está aberta, entrem e sirvam-se . Aos outros desejo-lhes a viagem possivel no Titanic, tenham cuidado e não se esqueçam dos coletes de salvação.


De qualquer modo não vou chorar por vós, posso sempre corromper-me, ir ao supermercado e comprar por bom preço outros iguais .




CARLOS GUELHIN


Manuel Xará



terça-feira, 15 de novembro de 2011

ABRAÇA-ME


ABRAÇA-ME




Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele, e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos. Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas. Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me com os teus antigos braços de criança, para desamarrar em mim a eternidade, essa soma formidável de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram. Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor. Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos, para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros pequeninos.




Só essa água fará reconhecer o mais profundo, o mais intenso amor do universo, e eu quero que delem fiquem a saber até as estrelas mais antigas e brilhantes.


Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais.


Uma vez que nem sei se tu existes.



Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

TERNURA


Imagem de Alex  Alemany


TERNURA




Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada


Olho a roupa no chão que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio…


Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo


Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!




DAVID MOURÃO FERREIRA
in Infinito Pessoal ou Arte de Amar

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

QUANDO CHEGAR O FIM DO MUNDO

                           



João Negreiros, no Coliseu

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

DUNAS

Foto de Maria Antónia por telemóvel

DUNAS




De Inverno as dunas


Ficam mais frias


Mais carregadas de sal


... E vento agreste.






Amontam-se canas


E detritos vários


Entre eles o meu corpo


Gasto de Verões


Sem os gastar.






Dunas, não vos ides embora


Resisti aos temporais.


Eu tenho esperança


Que no verão


Quando meu corpo


Por vós se derramar,


Faça ninho, como os demais.






Joaquim MONTEIRO

2011-11-08

...E AGORA?!

Luisa Azevedo


...E AGORA?!



mostraste-me que o céu é muito mais que azul
e nele tudo pode sentir-se de forma pura. mostraste-me
que o mar ladeia as nuvens e podemos tocá-lo, sentir-lhe
a humidade como nossa, salgada e prazerosa! agora, que
confundiste em mim as ondas elevando-as connosco a
planaltos celestes e misturando-as na rebentação dos
nossos corpos… vi a aurora perto da tua boca. vi-a dentro
dela quando as estrelas não eram pequenos astros, mas
beijos! beijos cadentes escorrendo-nos pelo canto da boca.
beijos que tentávamos segurar, entre a tua e a minha mão,
e com os dedos levávamos aos lábios, de novo à boca.
agora, que me ofereceste o teu manto, o teu leito, naquele
céu muito mas muito mais que azul, onde me fizeste
nuvem e o teu mar desaguou em alvoroço na minha foz
gemente de ousadia. agora… como dizer a esse céu azul
‘jamais posso voltar’ e às nuvens ’não deveis esperar’?!
… esta foz não te entendeu, meu mar!




LUISA AZEVEDO

PEDIDO

Fotografia com João Costa e Olga Roriz

PEDIDO




Desfaz-me esta alucinação de que me lês tanto quanto te escrevo, apaga-me esta ilusão de que me sonhas tanto quanto te imagino, cessa-me esta embriaguez em que me quero e te vivo, dizendo-me que o teu discernimento se perde sempre que me ausento. ..
 
 
 
JOÃO COSTA

FOI HÁ POUCO




FOI HÁ POUCO


foi há pouco que vislumbrei o silêncio da luz


na nudez complacente do teu rosto.


mas o sonho permanece horizonte


e solto breves gestos para a silhueta das árvores


suspirando pelo rasgar da distância.


foi há pouco que as sombras se elevaram


e que respirei para a solidão dos braços da noite.


mas também foi há pouco que te beijei!




Porto, 5 de Novembro de 2011



VICENTE FERREIRA DA SILVA



Vicente Ferreira da Silva

DÁ-ME



DÁ-ME


Dá-me um abraço...no cansaço de uma vontade...
Grita-me um amor na sede de um palavra “convicta”
Sufoca-me no beijo onde as nossas línguas dancem
No rimar de um entender sólido a dois...maré cheia...
De sentires e paz a dois...caminho fora até ao sol luz


Dá-me esse som, ou palavra no sorrir cúmplice coração
Aperta-me e mordisca-me o prazer, na pergunta ...acreditas?
Mergulha-me no teu seio e obriga-me a ouvir essa certeza
Pergunta-me vezes sem conta se ouvi o teu ver compreensivo ...
E anula-me a preocupação perene...com assinatura lacre real!


in DA JANELA DO MEU (A)MAR - JOSÉ LUÍS OUTONO


Edições Vieira da Silva - Maio 2011




José Luís Outono

Bruce Springsteen - Streets of Philadélphia - Legendado PT

                      

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

QUERO-TE ABRAÇAR COM FORÇA




QUERO-TE ABRAÇAR COM FORÇA


Em silencio


Apertado


Apertadinho


Na concha do meu corpo


- em posição fetal -


No calor do meu desejo


Nem sempre sexual


Te esmagar a boca em mil beijos


Te ouvir dizer, baixinho:


Amo-te!

Te abracar de novo


Como necessidade vital


Que bom...


Ainda tenho esses desejos!


Estou viva!


O amor é minha grande...


Talvez única vocação.



*Helem Mezadre*

domingo, 6 de novembro de 2011

LA MAMMA MORTA

                  

sábado, 5 de novembro de 2011

ISTO NUNCA O TEMPO PODE APAGAR

Na Secretaria do Colégio de S. Gonçalo

             Ontem sonhei que estava no Colégio de S. Gonçalo, em Amarante... O local onde me encontrava estava escuro. Havia secretárias e a janela grande que dava para o jardim estava
com as persianas fechadas. Era domingo e não era permitido abri-la...
             Ouvia os melros a cantarem, como num canto celestial, em conjunto com os outros pássaros e pelas frinchas das persianas, percebia-se que o dia estava cheio de sol e eu imaginava o jardim muito colorido e ao longe umas árvores frondosas que eram a casa grande dos pássaros.
Mas ali, estava escuro, tão escuro! Eu via muitos papéis espalhados pela secretária: mapas para preencher que exigiam muita atenção, formulários com prazos, estatísticas, respostas e mais respostas para dar a ofícios, muitos ofícios. Eram montes de papéis e só havia mesmo papel e estava escuro...
              No cimo das escadas interiores ouviam-se vozes, muitas vozes, de jovens alunas, e entre tantas vozes, escutei um choro de criança que fez com que o meu coração estremecesse: era o meu filho pequenino, indefeso e que chorava por querer o colo da mãe... e queria os meus braços, bem sentidos, no seu corpinho e muito apertados ao seu coração.
             Continuei a trabalhar, com mágoa, ignorando o choro, para não dispersar o meu raciocínio e continuar a trabalhar num domingo com sol e escuro, muito escuro, porque as persianas tinham que continuar cerradas...
              Não sei se foi um sonho ou um pesadelo. Acordei, estava sozinha no meu quarto. Acendi a luz do candeeiro e senti que estava cansada dos meus olhos pela escuridão e ter tanto desejo de ver luz. Pensei como para me tranquilizar que era só um sonho e estremeci pela vida que tive.
              Olhei em redor, vi uma foto do meu filho com os meus netos que sorriam e havia luz, muita luz nos seus sorrisos que me encheram a alma numa vida tão vazia... Apaguei a luz e tudo, mesmo
tudo, dentro de mim, era tão escuro, porque isto é mais do que o tempo pode apagar.


Maria Antónia

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

POEMA XII

Picasso "Blue Nude" período azul


POEMA XII

1

Um pássaro canta sobre as dunas.
Calou-se o mar nos teus cabelos. Eu perdi-te?
Uma chuva de palavras festeja as minhas mãos.
Nenhuma faz sentido. Não há rosas
que me possam pagar esta tristeza.




2


Apenas isto: dizer que tens um nome
que a tua própria boca desconhece.
E amar-te. Assim. Como se a morte
fosse em nós a última carícia.


3


Na tua boca a minha boca canta.
E os potros da alegria vão seguindo
os dedos que os teus seios enlouquecem.


4

Conheço-te. Estás nua no meu leito.
É em ti que a madrugada principia.
Mas quem?, quem virá dizer que a noite
tem o teu rosto e olhos clandestinos?


5


Toca-me. Não fales. Eu invento
as palavras que os deuses não merecem.


JOAQUIM PESSOA

in OS OLHOS DE ISA,

ACORRE-ME

Foto de Luisa Azevedo

ACORRE-ME


aprisionaste-me a noite nos olhos
enquanto a lua ocultava o sorriso.
se pudesses ver-me…
de mãos trémulas e vazias,
a dor a escorrer-me do peito,
sem luta.
se sentisses o frio que me desagasalha as palavras
e preenche o espaço entre os dedos,
onde não estás.
se percebesses o pavor do desconhecido,
invento-o.
queria proteger-me no calor do teu corpo
e demorar-me…
demorar-me,
dentro das tuas mãos!


LUISA AZEVEDO

ANTES QUE OS LÁBIOS SE TOQUEM

[foto © ilConte]

ANTES QUE OS LÁBIOS SE TOQUEM



Antes que os lábios se toquem
escrevo uma maré de linhas
e nas margens do teu olhar
voa um bando de palavras
que nem tu sabes escrever, nem eu ler…
antes que os lábios se toquem
as línguas perdem vocabulário
soletrado em saber ser sabor único
no dialecto celebrado nessa gruta
onde as bocas se calam
depois que os lábios se tocam.
 

JOÃO COSTA

terça-feira, 1 de novembro de 2011

AS ÚLTIMAS VONTADES

David Mourão Ferreira

Por PAULA MARINA COSTA




AS ÚLTIMAS VONTADES


Deixa ficar a flor,
a morte na gaveta,
o tempo no degrau.
Conheces o degrau:
o sétimo degrau
depois do patamar;
o que range ao passares;
o que foi esconderijo
do maço de cigarros
fumado às escondidas...
Deixa ficar a flor.
E nem murmures. Deixa
o tempo no degrau,
a morte na gaveta.
Conheces a gaveta:
a primeira da esquerda,
que se mantém fechada.
Quem atirou a chave
pela janela fora?
Na batalha do ódio,
destruam-se, fechados,
sem tréguas, os retratos!
Deixa ficar a flor.
A flor? Não a conheces.
Bem sei. Nem eu. Ninguém.
Deixa ficar a flor.
Não digas nada. Ouve.
Não ouves o degrau?
Quem sobe agora a escada?
Como vem devagar!
Tão devagar que sobe...
Não digas nada. Ouve:
é com certeza alguém,
alguém que traz a chave.




DAVID MOURÃO FERREIRA in "Os Quatro Cantos do Tempo"




Paula Marina Costa

O RELATO DO LUTO

José Luís Peixoto
MORRESTE-ME



"Dorme, pequenino, que foste tanto. E espeta-se-me no peito nunca mais te poder ouvir ver tocar. Pai, onde estiveres, dorme agora. Menino. Eras um pouco muito de mim. Descansa, pai. Ficou o teu sorriso no que não esqueço, ficaste todo em mim. Pai. Nunca esquecerei."
 


JOSÉ LUÍS PEIXOTO
 


Morreste-me: o relato da morte do pai, o relato do luto, uma homenagem...

FIZ-ME AO MAR

Luisa Azevedo

FIZ-ME AO MAR


Tremem-me os lábios, adejam
velas assopradas por teu fogo.
Em labaredas minhas naus navegam
tua língua, onde a minha vogo!

Náufragas caravelas, tombam
meus braços… No teu ventre afogo!
Baia de águas que mareiam,
tempestuoso o mar que arrogo!

E na tua calma me alimento,
meu dorso velejo no teu curso
para alcançar praia… Tu, nem tentas!

Em ti embalo o meu tormento,
invento o verso mais extenso.
Do nada… tudo me prometas!


LUISA AZEVEDO

ANO COMUM


DIA 36






Desenhei um astro com as tuas últimas palavras para


que, à sua luz, nenhumas outras nos firam e separem.


O fogo desse astro há-de cauterizar as feridas, aque-


cer o corpo e a língua, e o sangue conhecerá outros


caminhos, outros brilhos e outros assombros.


Escrever-te é como fundar uma estrela, fecundar uma


estrela, e é dádiva, dor, respiração unânime.


Dou-te as minhas palavras como te dou a nudez das


minhas mãos ainda jovens. Nelas encontrarás a maté-


ria ruim da inquietação, o secreto território onde se


despem as noites, mas também os dias claros pelo en-


tusiasmo da luz, e o madrigal da liberdade que é o co-


ro dos pássaros, dos felizes, dos que mastigam alegria.


Dou-te as minhas palavras porque mais não tenho pa-


ra dar-te. E delas faço um hino ao que procuro, através


da fala, através da escrita, através do amor: a minha li-


mitada perfeição.


JOAQUIM PESSOA, in "ANO COMUM"

DANÇA DAS HORMONAS

Fo identificada nesta foto por quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen

DANÇA DAS HORMONAS


Diniz: A música deu-me pinceladas de cor nos olhos enquanto a via chupar um rebuçado de menta que lhe refrescava a boca e apaladava a língua. Os seus beijos semearam então frescura pelo meu peito afora, aventuraram-se na subida do meu ventre e descaíram pelo valado até ao meu sexo. Os seus beijos pareciam mais jovens, porque a sua boca apaixonadamente quente, se tornara de repente apaixonadamente fresca. Então ela parou, bebeu da taça de champanhe e mergulhou em mim de novo. E a língua em gelo, mentolada, com o espumante a borbulhar-me no sexo guindado ao céu da sua boca, inflamava-me os sentidos. E sentia-me cada vez mais quente naquele beijo frio, que descia e subia, decalcando com os lábios as minhas veias, densas, em estado de guerra.




Num derradeiro afago de lábios, a sua boca encheu-se de mim e semeei de branco a campina húmida da sua língua. Noite fora, o meu corpo ressurgiu altivo por dentro dela, como se fosse o nascer do sol numa selva, húmida e quente, onde tudo parece selvagem. Assim me pareceu Dora nessa noite.


A sedução começa com um olhar. E num momento altera-se o batimento do peito e até o cheiro que exalamos. Apesar da evolução, temos sempre uma veia animal que nos denuncia. Uma matriz primária que nos leva aos rituais mais básicos como os do acasalamento. Somos machos e fêmeas numa lendária dança de hormonas.


A Dora sempre me aqueceu o sangue. Mas depois de divorciada mudou o seu olhar e o seu cheiro. No meu instinto de animal predador, sabia que tinha chegado a hora…




JOÃO MORGADO, in DIÁRIO DOS INFIÉIS (Oficina do Livro, 2010)

Together in eternity, by Elizabeth Silk

BASTAVA-NOS AMAR

Foto de Joaquim Pessoa
BASTAVA-NOS AMAR


Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.
Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.
Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar
a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.




JOAQUIM PESSOA

URGENTEMENTE

Foto de Rui Videira

URGENTEMENTE


É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.


É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.


É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras


Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.




EUGÉNIO DE ANDRADE

domingo, 30 de outubro de 2011

ONDE TE ENCONTRO?

LUISA AZEVEDO

ONDE TE ENCONTRO?



quisera enviar-te um pássaro,
a última folha vermelha do plátano,
mas o vento
voa outro destino que não o nosso
hoje
e tu esqueceste de deixar-me um bilhete sobre a mesa,
da janela aberta,
da chuva nos meus olhos
e partiste
para tão longe que não regressaste ainda,
tão longe… o olfacto não me guia
tão longe… a lua não poisa no chão a tua sombra.
cega-me a escuridão desta tua ausência,
mais longa que qualquer outra ausência.


LUISA AZEVEDO

sábado, 29 de outubro de 2011

QUERO-TE PARA ALÉM DAS COISAS JUSTAS

Fotografia de Katia Shaucheva

QUERO-TE PARA ALÉM DAS COISAS JUSTAS




Quero-te para além das coisas justas


e dos dias cheios de grandeza.


A dor não tem significado quando me roubam as árvores,


as ágatas, as águas.


O meu sol vem de dentro do teu corpo,


a tua voz respira a minha voz.


De quem são os ídolos, as culpas, as vírgulas


dos beijos? Discuto esta noite


apenas o pudor de preferir-te


entre as coisas vivas.




JOAQUIM PESSOA, in OS DIAS DA SERPENTE ( Moraes Editores, 1981)


 
Joaquim Pessoa

ÉS O POEMA

Miguel  de Carvalho

ÉS O POEMA

és o poema e a aurora
que esboça no corpo um discurso húmido de cânticos nocturnos


és o poema e a fissura dos meus olhos
donde derramo a tinta com que escrevo teu nome


és o poema que perdura cardíaco
entre labaredas e jardins proibidos das geografias internas


és o poema e o consolo duma boca
que beija no ventre uma borboleta em chamas


és o poema e a navegadora sem tempo
no meu peito de pétalas secretas


és o poema e a intimidade de uma lágrima
onde sal nocturno segrega a espuma do sonho


és o poema de todos os poemas até à bruma no horizonte




MIGUEL DE CARVALHO


"movimento embriagado do tempo da flor" - collage sobre fotografia do autor (1995, 2007)
© miguel de carvalho






ALÉM-TÉDIO



ALÉM-TÉDIO


Nada me expira já, nada me vive...
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, enfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...


MÁRIO DE SÁ CARNEIRO
Mário de Sá Carneiro