terça-feira, 31 de maio de 2011

NÃO POSSO ADIAR O AMOR

Antóno Ramos Rosa
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas


Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio


Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação


Não posso adiar o coração.

ANTÓNIO RAMOS ROSA

La Vita è Bella. Nicola Piovani Soundtrack

                        

HISTÓRIA BREVE E CALMA


"HISTÓRIA BREVE E CALMA"



Gosto do teu beijo,
do gosto da tua boca
que me toca,
do rosto tão rosado
que me gosta,


gosto das tuas mãos
deslizando em mim
como duas formas
tão gentis
que a forma dão,


gosto de ser teu
quando tu és minha,
como uma pequena flor
de doce aroma
nos meus dedos
que eu mostro ao Sol
e afago,serenamente.


Gosto de ti
e do teu murmúrio,
d'alma,


gosto
de estar em ti,
ardendo,
morrendo,
relendo,


no teu corpo,


a tua história breve
e calma.


JOSÉ SOTTOMAYOR

BOA NOITE, PRINCIPESSA



"BOA NOITE, PRINCIPESSA"


Sei que não me amas e que me amas.
Sei que o meu amor não tem duas vidas para amar-Te.
Sei que o meu meu autocarro está chegando á última paragem.


Sei que te amo e não te amo.
Sei que ter-Te é o tempo real na hora irreal.
Sei que quando Te sinto eu tenho duas vidas,duas vezes.


A andorinha
corre o imenso céu
até cair
perdida
e exausta.


Enquanto voa,
as asas rebrilham ao Sol,
sulcando o ar do desejo.


Enquanto sonha,
procura ,
em sofreguidão ,
alcançar o seu destino.


Eu não sou uma andorinha.
Eu sou um pássaro pousado nos braços do silêncio.
Eu sou ainda
o que fui
e tudo aquilo
que vou
ou não
ser.


Por isso também Te amo e não Te amo ,
Principessa.


Por isso,
na última paragem,
um dia da tua vida
é uma vida inteira de beleza


em que Te amo e Te amo,
Principessa,
nesta bela viagem.


José Sottomayor

segunda-feira, 30 de maio de 2011

NUNCA PERMITAS

MCLARA PT
Foto de MClara Pt


Nunca permitas que te retirem o teu brilho e cor Maria Antónia, tu és calor, és Paz, és especial, és dádiva na vida dos teus amigos e dos que te cercam. Nunca o esqueças e lembra-te sempre de mim, quando o dia não tem Sol, , estamos aqui

MCLARA PT

domingo, 29 de maio de 2011

PARA O MEU FILHO

Vicente Ferreira da Silva
Meu filho, sou um sonhador!


Sou alguém que acredita em valores, na família, na amizade, alguém que agradece os ensinamentos transmitidos, a começar pela dádiva da existência, recebida dos teus avós e, finalmente, sou alguém que pensa e questiona o que me rodeia.


Nota que o que nos rodeia não é fácil. Ainda bem. Porque a vida não é fácil. Exige esforço e dedicação, no respeito pelo pluralismo das circunstâncias humanas.


Mas viver será muito mais difícil se não sonhares. Por isso, meu filho, sonha e muito! Não deixes que os sonhos se tornem ilusões, nem nunca deixes de viver os sonhos.


E que os teus sonhos te façam generoso, te façam explorar o multiverso que existe para além do horizonte, te acompanhem durante a vida, te iluminem o coração e te permitam questionar o cosmos, para cresceres em comunhão com os teus semelhantes e em concordância com o todo.


Meu filho, hoje, por ti, dei o segundo passo na eternidade. Sou pleno no todo!


Só tenho mais esta esperança:


Que os teus sonhos aconteçam porque tu excedeste todos os meus!


O teu Pai,


25 de Maio de 2011


Por Vicente Ferreira da Silva - Do Inatingível e outros Cosmos

VALEU A PENA A PENA....



Fiquei tão irritado com o céu que escolhi...
que procurei outro céu...


Esta escada
não custa a subir,
...dá para meditar
em cada degrau.


It makes me wonder.


Faz-me pensar
se valeu a pena caminhar,
se valeu a pena tentar ser,ser
se valeu a pena acontecer,fazer acontecer,
se valeu a pena a pena.....


Do eterno e bom FP,
tudo vale a pena
(quando)
se a alma não é pequena.


José Sottomayor

SE TU E EU

José Sottomayor

Se tu e eu
pudessemos ser céu,
guardaria uma nuvem
só para ti,


...se tu e eu
pudessemos ser amor,
guardaria um jardim
para te plantar,
flor.


Se tu e eu
pudessemos ser nós,
haveria um jardim
por baixo do céu,


uma voz,
acordando o sonho
meu e teu.

José Sottomayor

UM SONETO PARA TI


UM SONETO PARA TI


queria uma casa à minha espera
de branca porta, igual janela
e tu meu amor, ai quem me dera
apaixonado vivesses dentro dela


com raios de luar para ti chegara
pois a noite cuidou-me, tal donzela
e calmamente no teu lar entrara
se tu a mim me julgasses bela


perdoa minha forma tão singela
de te dar a mão em tal cautela
nunca me fez a escuridão envaidecer

acolhe-me em teu ninho por momentos
reconhecendo em mim os sentimentos
de uma esperança a querer renascer


Luisa Azevedo

PAI E FILHO


José Luís Peixoto

Pai e filho

Sou o teu pai. Quando te seguro ao colo, entro no teu olhar, passo-te os dedos pelas faces e sinto que também eu tenho duas semanas porque uma parte de mim nasceu contigo há duas semanas. Agora, enquanto dormes, escrevo-te e imagino que, num instante longe deste instante, chegará um dia em que tu serás grande e segurarás uma folha escrita com estas palavras. Estas palavras são uma corda que une este momento presente e passado a esse momento futuro e presente. Daqui, desta ponta da corda, se der um pequeno puxão nas palavras, tu irás senti-lo aí. Se eu disser verdades, tens duas semanas, és pequenino, eu e a tua mãe amamos-te, tenho a certeza que irás sentir estas verdades aí. No entanto, hoje, aqui, eu não posso saber a maneira como irás sentir estas verdades, estes pequenos puxões, porque eu não sei tudo aquilo que irá acontecer entre este momento e o momento em que serás grande e segurarás uma folha escrita com estas palavras. Seguro numa ponta da corda, mas não sei o seu comprimento, a sua forma ou a sua resistência. Ainda assim, sei, imagino, que estás aí nessa ponta das palavras e quase que tenho vergonha de falar contigo. É difícil escolher palavras para falar com essa pessoa em que te tornaste. Ainda não conheço esse rosto que lê cada palavra deste meu embaraço. Além disso, tenho medo que estas palavras envelheçam mal ou que eu próprio envelheça mal. Talvez encontres aqui adjectivos que deixem de se usar. Talvez comeces a ler estas palavras e talvez, na tua ideia, eu seja alguma coisa que deixou de se usar. Irás olhar para aquilo em que me tornarei e tentarás entender aquilo que quis dizer-te hoje pelos significados que, nessa idade, tiver dado às palavras. Filho, eu tenho trinta anos e sou o teu pai. Tu tens duas semanas, és pequenino, és querido, eu e a tua mãe amamos-te. Quando percebemos que estás feliz, ficamos felizes. Quando choras, ficamos inquietos e não paramos, fazemos tudo, fazemos tudo até ficares feliz de novo. Filho, eu tenho trinta anos, mas sinto que também tenho duas semanas porque uma parte de mim nasceu contigo há duas semanas. Estas são as palavras que quero dizer-te. Os seus significados são simples e não tenho medo de dizer que são puros porque são puros mesmo. No dia em que leres estas palavras, saberás muitas coisas. Eu também já soube muitas coisas. Ser pai não é apenas saber, ser pai é compreender. Por isso, espero que possas reler estas palavras num dia em que sejas pai também. Eu, que sou o teu pai, tive um pai e tive um avô. Tão bem como eu sei que o meu pai era uma pessoa, quando fores pai, saberás que eu, aquele que hoje te escreve e aquele que há duas semanas começou a viver paralelo a ti, sou uma pessoa. De mim, espera amor e espera uma pessoa. Como as pessoas, às vezes, engano-me, não sei respostas, tenho medo, tenho frio, minto, faço coisas feias, desisto, escondo-me e fujo. Eu compreendo que tu irás enganar-te muitas vezes, não saberás respostas, terás medo, terás frio, mentirás, farás coisas feias, desistirás, esconder-te-ás e, quando todos te procurarem, terás fugido. Eu compreendo-te. Segurei-te ao colo, entrei no teu olhar. Foi há menos de uma hora. Passei-te os dedos pelas faces, tentando imaginar a forma como o teu rosto vai crescer. Estas palavras serão o espelho do teu rosto. O teu rosto ficará parado sobre elas. Gostava que soubesses que, hoje, quis tanto ver esse teu rosto que lê. Se puderes, passa agora os dedos pelas tuas faces. Talvez no dia em que leres estas linhas tenhamos deixado crescer entre nós o pudor de nos tocarmos com afecto simples e puro. Pai e filho. Por isso, passa os dedos pelas faces para sentires aquilo que sentiste hoje, duas semanas de vida, pequenino e amado. Ou então, chama-me para junto de ti. Na outra ponta destas palavras, serei outro. Terá passado tempo que, agora, não posso imaginar. Mas, nesse dia, quando chegar a estas palavras que me preparo para deixar agora, assim que olhar para elas, lembrar-me-ei daquilo que é estar a escrevê-las, ter trinta anos e estar a escrever enquanto tu, com duas semanas, estás a dormir. Será como se eu, hoje, fosse também filho desse eu que irá ler estas palavras. O rosto que tenho hoje estará dentro desse rosto que terei da mesma maneira que o teu rosto de criança estará também naquele de quando leres estas palavras. Filho, eu tenho trinta anos e sou o teu pai. Tu tens duas semanas, és pequenino, és querido, eu e a tua mãe amamos-te. Quando percebemos que estás feliz, ficamos felizes. Quando choras, ficamos inquietos e não paramos, fazemos tudo, fazemos tudo até ficares feliz de novo. Filho, eu tenho trinta anos, mas sinto que também tenho duas semanas porque uma parte de mim nasceu contigo há duas semanas. Estas são as palavras que quero dizer-te. Os seus significados são simples e não tenho medo de dizer que são puros porque são puros mesmo. Chama-me para junto de ti. Mostra-me estas palavras que escrevi hoje e pede-me para te passar os dedos pelas faces com o mesmo carinho e com a mesma ternura com que hoje toquei os teus contornos de menino. Tenho a certeza que não terei esquecido. Por mais que aconteça entre hoje e esse dia, por mais mortes e terramotos, tenho a certeza que não terei esquecido. E obriga-me a jurar que nunca deixaremos crescer entre nós um pudor que impeça de nos abraçarmos, de nos beijarmos, de passarmos os dedos pelas faces um do outro. Pai e filho. Eu sou o teu pai. Tu és o meu filho.


*Publicado originalmente no Jornal de Letras

José Luís Peixoto

A MULHER MAIS BONITA DO MUNDO

Angelina Jolie

 A MULHER MAIS BONITA DO MUNDO


estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.


entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.


José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

sexta-feira, 27 de maio de 2011

GOSTAVA

Foto do Mural de José Sottomayor
Gostava
que aqui
estivesses
entrelaçada
no meu corpo
...errante,


gostava
de ver
rever
os teus olhos
os meus olhos
gotejando alegria,


gostava
da aragem
da coragem
que permeou
as nossas bocas
as nossas almas,
nesse dia.


Boa noite,
meu querido amor.

José Sottomayor

O TEMPO, SUBITAMENTE SOLTO

José Luís Peixoto


O TEMPO,SUBITAMENTE SOLTO


o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

José Luís Peixoto

quinta-feira, 26 de maio de 2011

ESSÊNCIA



Foto de Sophie Thouvenin
ESSÊNCIA


convidaste-me a partir com a noite,
uma em que a lua não testemunhasse o nosso paradeiro
e nós próprios nos perdêssemos entre os ventos.
disseste que voarias a meu lado
colocando uma asa sobre a minha.
assim aceitei partir,
sob a tua asa que cobriria a minha,
sob o céu,
que cuidaria desta viagem encetada ao fim do mundo.
e ambos voámos, dias e noites a fio,
sem que o cansaço nos vencesse,
sem que a tua asa descobrisse a minha,
sem que o céu te desprotegesse
e o mundo nunca tinha fim!
começaram as dores,
as cãibras,
a fome,
a sede,
o desespero
e o mundo nunca tinha fim!
convidaste-me a partir com a noite!
com medo de perder-te,
esqueci-me de ensinar-te o caminho
para voarmos muito longe…
muito longe em nós!


LUISA AZEVEDO

quarta-feira, 25 de maio de 2011

MÃE

Poema à Mãe em homenagem á Minha Mãe no dia que  nasceu 25/05/1916


Mãe:


Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?


Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.


Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:

Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!


Miguel Torga, in 'Diário IV'

ÉS AQUELA

ÉS AQUELA


És uma deusa e caminhas sobre o sonho
Transmutas-te para além do transmutável.
...Estás em mim como cereja na boca
Com sexo em noite de exaltação
Como a romã que ama o verão
As estrelas que lhe fecundam a flor
O seu orvalhado vinho em noites de Salomão.
Assim te vejo, com violinos nos olhos
com a ternura do véu a descobrir-te.
És a maçã que me foi dada pela irreverência
dos deuses no amor.
És aquela por quem a lua passa e não sossega
Tamanha a claridade do rosto,
Iluminando o quarto dos sentidos deformados.
És cavalo alado sobre as ondas de meu corpo,
teu tropel aflige-me no silêncio das mãos.
Vejo-te em todas as esquinas de mim
Em todos os pontos onde meus lábios não chegam.
Assim te tenho acima de conceitos e preconceitos
E pela terra espero o tempo, em que as oliveiras
e as videiras dêem os seus frutos,
porque pão há em ti, em abundância.
Iluminarás as azinhagas de ternura e de mistério
matarás a sede a viandantes apaixonados
E serás carne e ossos e passos de dança.
Jamais o homem sofrerá de solidão
perguntando às estrelas qual a razão
de tamanha benevolência e inovação.


JOAQUIM MONTEIRO


Ilustração: "Spring Promise", de Edson Campos

AMIGOS


AMIGOS


Amigos cento e dez, e talvez mais,
eu já contei. Vaidades que eu sentia!


Pensei que sobre a terra não havia
mais ditoso mortal entre os mortais.


Amigos cento e dez, tão serviçais,
tão zelosos das leis da cortesia,
que eu, já farto de os ver, me escapulia
às suas curvaturas vertebrais.


Um dia adoeci profundamente. Ceguei.


Dos cento e dez, houve um somente
que não desfez os laços quase rotos.


- Que vamos nós (diziam) lá fazer?


Se ele está cego, não nos pode ver". . .


- Que cento e nove impávidos marotos!


Camilo Castelo Branco

AMAR


AMAR

Amar é cansar-se de estar só: é uma covardia portanto, e uma traição a nós próprios (importa soberanamente que não amemos).


Fernando Pessoa

terça-feira, 24 de maio de 2011

DÁ-ME...A TUA MÃO


José Sottomayor


Dá-me
a tua mão,
o teu corpo,
o teu calor,


...o teu sonho
de amor.


Dança-me,


volteia-me
a serenidade.


Dança-me
na alma,


balança
no meu corpo
saudade
sem saudade.

domingo, 22 de maio de 2011

SIM, AMEI-TE


Foto de Edgardo Xavier, no Paintings of Viktor Shelrg
SIM. AMEI-TE

Não te amei como se ama uma só vez na vida,
porque a vida é uma constante busca do mais.
Amei-te com um amor único,
porque o amor tem muitas faces,
todas diferentes entre si...
Amei-te de verdade
- com a minha verdade –


Mas,
daquele amor profundo e insano
restaram apenas lembranças
que desfilam pela mente
como um filme antigo,
cujas cores o tempo


se encarrega de esmaecer a cada dia
que esta distância nos obriga...


Ecos na memória
cada vez menos audíveis...
Algemas se rompendo
libertando a alma...

O véu que encobre os olhos
caindo aos poucos,
mostrando a realidade bem diversa
da imaginação tão fértil em criar sonhos,
para dar rumo à alma solitária
e alimentar um coração sedento de amor.
Sim, amei-te...
Amei?


(Desconheço o autor)

NAVEGAÇÔES


Azulejos de Edgardo Xavier, 2007
Navegações, por Rogério Edgardo Xavier


Deriva V


Dos homens nus e negros contarei
E de como não havendo já connosco
Quem do seu falar algo entendesse
Juntos dançámos p'ra nos entendermos


Sophia de Mello Bryner Andresen
in" Navegações"

A NOITE

Óleo de Mário Vinte e Um

A NOITE, por Rogério Edgardo Xavier


Vens
obscena
amortalhar o silêncio
em palavras de arremesso


De pedra é a sede
que esmagas
no meu corpo
aceso
e rubra a voz da noite
que sangra
à revelia do amor




Edgardo Xavier


Publicado no Recanto das Letras
Código do texto: T294812

ERA DE SOMBRA E PÓ

"Menina",cerâmica de Almira Medina

ERA DE SOMBRA E PÓ, por Rogério Edgardo Xavier


Noutro tempo
eu era só de sombra
e pó, um pó a condizer
com os trilhos da caruma.


Eu era agora o longe
a prontidão das manhãs.


Rolava mais que o mar
e acendia afoito
as dunas no teu corpo.


João C. Martins
in " Abismo de Palavras"

VAI NO MEU BARCO

nu, estudo a lápis, 2010

VAI NO MEU BARCO. por ROGÉRIO EDGARDO  XAVIER


Vai o meu barco lavrando
na onda morna
o domingo.


O bojo da vela deixa
sobre o teu rosto
passar as nuvens.


Vão no vento
a recolher as vozes
que estão para chegar.


João C. Martins
in " Abismo de Palavras"

E EU AMEI-TE


... e eu amei-te
... e ao amar-te, esqueci-me
... e esquecida me entreguei
no calor dos teus braços...
Na tua boca,
o doce desespero!
Na pele,
o travo amargo da paixão!
O odor...
...um aroma agridoce...
carinhoso...
... e eu, o sabor do medo!
Sem me dar
dei-me inteira ... a medo!
Apavora-me a intensidade,
a ansiedade do desejo...
Amedronta-me a saudade
adiada
esperada
odiada
... e eu amei-te
num misto embriagante
e perigoso
deliciosamente sufocante
impotente e bom.
Como é bom!
Como é injusto querer-te assim!
... e fui amada
possuída
beijada
extasiada
esquecida
... e eu...
eu amei-te
e ao amar-te esqueci-me
entregue ao calor dos teus braços
esquecida que não te posso amar.


cdjsp

sexta-feira, 20 de maio de 2011

AMAR-TE

    Foto de Rui Videira

Eu quero sentir e ouvir sempre a tua voz nos meus sonhos...
Uma voz que se confunde, uma voz que grita,
uma voz que sussurra no meu coração...
E no sentir eu quero os teus lábios nos meus,
as tuas mãos nas minhas e num abraço embalada,
como num sonho...
Eu quero amar-te como ninguém te amou e
amar-te até desconhecer o meu próprio eu...
E neste sentir eu ouvirei sempre a tua voz
nos meus sonhos...

(Verão de 2011)

quinta-feira, 19 de maio de 2011

ÂNSIA DE VER-TE


Foto de Rui Videira
Como anseio ver-te meu amor
Estar junto de ti e beijar-te
Prolongar o nosso abraço
Apertar-te muito contra o meu peito
E nesta ansiedade estarias certo
Da minha necessidade de te amar.
O que me faz viver, correr e este querer
Olhar-te nos olhos?
Tenho sede de ti, dos teus beijos, do teu amor...
Numa vida vazia tu ocupaste-a
E quero-te sempre comigo
Aperta as minhas mãos nas tuas
e Vive comigo
E eu viverei contigo porque o que é grande
acontece no eterno e o Amor foi acontecendo...

Maio de 2011

quarta-feira, 18 de maio de 2011

FICA COMIGO

Foto de Rui Videira

FICA COMIGO

Fica comigo, sempre...
Nos dias de sol, nos dias de chuva
e mesmo quando nevar.
Dar-te-ei o sol, as estrelas, a lua e o azul do céu
Haverá noites de lua...
Num horizonte rubro olharei nos teus olhos
E toda a minha vida nesse olhar
se vai resumir
Amar-nos-emos sem pressas, nem medos,
num abraço intenso
Num beijo lânguido e suave
e as nossas mãos apertadas
serão a liberdade do nosso amor
E tu sorrirás sempre
E viverás só para mim
E ficarás sempre comigo.
E em noites de lua...
Amar-nos-emos sempre.

terça-feira, 17 de maio de 2011

MOMENTOS ÚNICOS

Foto de Manuel Vilar de Macedo



POR GIL FERNANDO MILHEIRO




Há momentos na noite que são únicos.


Há ternuras que se aquietam


Beijos que se escapam


L I T E R A L M E N T E


manchando todo o corpo de felicidade imensa


...Há vozes cujo murmúrio espanta...


O bailado dos teus olhos entontece-me


V I S C E R A L M E N T E


No teu refúgio secreto e íntimo perco, enfim,


a minha auréola.


Sou teu.


(Maio 2011)

domingo, 15 de maio de 2011





o teu mundo gira sem eixo,
num imponderável que transcende o espaço,
parte da porção vazia do universo.


vives sem obsessão de horas
sob a teoria do caos.
mas a tua voz chegou-me das estrelas da constelações de virgem.
saberás decifrar os meus olhos
quando te sorrirem.
moramos tão perto...!
as nossas palavras conversarão umas com as outras se deixarmos aberta a janela onde vamos poisar a humidade que nos turva os olhos
por isso,
também as nossas lágrimas se encontrarão,
ao relento.


chegou a era da melancolia
ambos colhemos pétalas no outono que guardámos para a primavera.
como pode ser-se saudoso de alguém cuja pele não nos tocou ainda?


LUISA AZEVEDO

FALA-ME!



FALA-ME!


Fala-me do tempo
em que o poema descia
degraus de estrofes nascidas
em vulcões ignotos de alvoroço.
Fala-me do tempo
em que rasgados os silêncios,
as palavras antecipavam
a batalha das línguas.
Fala-me do tempo
em que as horas se pediam
rotação de eixo único
num centro alheio do mundo.
Fala-me do tempo
em que os corpos não se gastavam
e a noite era uma travessia
a que nos ancorávamos.
Fala-me do tempo
para que não me esqueça
desse tempo que nos esquece!


João Costa






a imagem turva-se
mas a visão tem o alcance do mais longo abraço.
de olhos fechados recupero o aroma do teu corpo,
sinto o toque das tuas mãos no intervalo dos meus dedos,
chego a ouvir-te falar sobre a minha almofada
...enquanto descanso os cabelos nos teus ombros,
e as palavras dão tantas vezes lugar aos beijos
entremeados de sílabas estonteadas e húmidas,
entre sorrisos,
entre o mordiscar dos lábios que, quando sangram,
ruborizam o deseja e atiçam nas línguas a vontade de toda uma boca caber na outra boca.
continua a falar enquanto beijas
para que nunca esqueça a tua voz.


Luisa Azevedo
 
 
sussurro códigos duma língua
enquanto dissolvo palavras num beijo
humedecem-se os lábios por tocar
e descubro uma nova voz
em sílabas roucas que as mãos preenchem.


João Costa
 
 
pede-se o toque
ao de leve,
de longe... ilusão!
a pele delicada da boca
...fala a cor das nuvens
que procuram um céu
rosado
molhado
onde a língua possa perder-se no voo.

Luisa Azevedo

ANTES DE PARTIRES


ANTES DE PARTIRES




antes de partires
segura-me as pálpebras com um leve toque dos lábios
para que não tombem de cansaço.
...é quase madrugada, meu amor,
a noite está exausta.
antes de ires
vou querer-te outra vez,
por prazer,
na Lentidão da nossa liberdade.


Luisa Azevedo

sábado, 14 de maio de 2011

tu messias mais, de João Negreiros

                             

INDECIFRÁVEL

Foto do Zito

INDECIFRÁVEL


não consigo perdoar-me a volta
castigo-me por abrir de novo aquela porta,
por onde nunca entraste,
deixando a tempestade que trazias ao colo abraçar-me o corpo.
são sempre mansos os teus passos à chegada,
subtis como quem nada quer
mas tudo leva
e partem repentinos
como o cair da noite nos trópicos.
invades-me os olhos
preenchendo-me a solidão de uma luz fictícia,
que não decifro,
para voltares a atirar-me num abismo.




Por Luisa Azevedo





AMAPOLAS



AMAPOLAS

a inevitabilidade da crença deve conduzir ao rasgar da fé.

nada é perfeito, nada fica incólume após o toque humano.
e sente-se a raiz do choro,
cujo advento faz a proclamação do trilho terreno,
que alimenta a condição mortal.


nos momentos em que os halos vermelhos se erguem
para a redenção,
existência acontece pelo verter das lágrimas
que sucumbem às echarpes em luz solar.


talvez a ilusão seja uma necessidade?
mas, apenas o sonho é seguido,
apenas o sonho propícia a expiação.


ser ou dever ser,
é a constante do diálogo.


que produz as cores do horizonte.

Vicente Ferreira da Silva

DIA 34

Foto de Rui Videira
  

DIA 34. por JOAQUIM  PESSOA


Sagrado é o coração da árvore, a vigília da pedra, a gravidez
da amêndoa, o pulsar do rio, a timidez do bosque, o trabalho
discreto da semente. Sagrado é o lenho, e a erva, o cavalo, o
boi e o cão, sagrado é o sol, sagrada a casa, a noite, o dia, o
círculo e a pirâmide.
E sagrado é o vento e a vontade, e o branco e a esperança.
Sagrados são os montes e os filhos e os sentidos e os pássa-
ros e os humildes. É sagrada a dança e a cabeça e o azul e a
primavera. Sagrados são os cornos do inverno. E as flores ama-
relas.
Sagrado é o desejo que humedece o corpo. Sagrada é a distân-
cia. E a memória. Sagrados são os lábios, o cérebro e as mãos.
E os astros, e a espuma e a teimosia dos metais. E é sagrada
a arte e o amor e a claridade. E o centro do homem. E a voz da
terra. E o equilíbrio dos instintos. E o mistério dos mortos e
dos vivos. E as razões do amor.
Sagrada é a forma e a beleza e a luz e o fogo dos teus olhos.


Joaquim Pessoa
(Do livro a publicar, ANO COMUM)

...DO LADO ESQUERDO?!?!

Lá em cima (do lado esquerdo) Foto do Zito

... DO LADO ESQUERDO?!?!

Lá em cima [do lado esquerdo]
não há telhado
e o tecto é uma bruma
que se dissipa no céu,
os degraus
ora são sucessão interminável,
ora se galgam num simples fechar d’olhos.
Lá em cima [do lado esquerdo]
há quadros de paredes sem espaço,
há mobílias sem lugar no solo,
há livros de histórias sem fim,
há um vazio imenso
preenchendo um parágrafo secreto.
Lá em cima [do lado esquerdo]
grita de pasmo o medo,
encolhe-se de vergonha o sentimento,
recua indeciso o passo da vontade.
Lá em cima
abrem-se janelas
por onde saio
ao encontro de mim,
ou perdendo-me
quando me aproximo
e do lado esquerdo
cresce uma força
que incendeia o pedaço de mim
lá em cima!




JOÃO COSTA

PAULA MARINA COSTA


Gisele


sexta-feira, 13 de maio de 2011

PRÉMIO CAMÕES - 2011 - MANUEL ANTÓNIO PINA

Manuel António Pina
A ferida


Real, real, porque me abandonaste?
E, no entanto, às vezes bem preciso
de entregar nas tuas mãos o meu espírito
e que, por um momento, baste


que seja feita a tua vontade
para tudo de novo ter sentido,
não digo a vida, mas ao menos o vivido,
nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade.


Oh, juntar os pedaços de todos os livros
e desimaginar o mundo, descriá-lo,
amarrando-me ao mastro mais altivo


do passado! Mas onde encontrar um passado?




MANUEL ANTÓNIO PINA

O NADA, O ABSURDO E A MINHA IGNORÃNCIA



O NADA, O ABSURDO E A MINHA IGNORÃNCIA


Alguém me disse que é nada
sem saber o que nada é realmente

...Não acreditei.

Porque se ser-se nada fosse possível,
nada seria eu certamente.


...Ahh como queria eu ser nadaporque sou nada sem o ser.


Tudo, pelo menos tudo o que julgo ver,
encerra em si o pecado original do absurdo.
Não são só as palavras, ou os actos,
É a essência do próprio homem.


Da verdade, da pura verdade...
esperava-se que fosse definitiva e absoluta,
mas que tem de definitiva e absoluta a verdade conhecida,
quando esta se faz a si mesma
de tornar inverdadeira
outra verdade?


Que maior absurdo podemos encontrar
senão a aspiração do homem à unidade
face ao intransponível dualismo do espírito
e da natureza?


E que dizer deste impulso...
...Desta vontade de eternidade,
e a irremediável finitude da existência?


...Da preocupação constante enfim,
e a inutilidade de todo este esforço sem nexo?


E por isto tudo, eu queria ser nada
...ou então tudo.


Sou consciência atormentada
que afronta o mundo,
...Enquanto animal puro
sou parte do mundo, sou o mundo
...como a árvore, a flor
e as andorinhas...
Mas como homem,
sou consciência que se opõe.
...Busco uma ordem menor
numa ordeira desordem maior
que é este mundo em mim.


Com isto tudo,
como dizer-se que se é nada?
Haverá nada verdadeiramente?
Não sei


Miguel Braancamp de Mancellos

TÃO TÉNUE É A SOMBRA


TÃO TÉNUE É A SOMBRA

Sobre a fina linha


Sei da alta claridade
Pela ausência do corpo
Na sombra
O desejo paira, sobre
A fina linha
Sobre o ponto, onde,
Os dedos
Incendeiam o tecido.


O peito arde
Os ombros na luz, são enormes
Reflectem a leveza dos lábios
O alto voo das aves
A inocência
A lágrima juvenil
O grito insustentável.


Puro o rosto, no esplendor
Das águas
Em círculos nascem os frutos
No sorriso
Inteiramente leve a sombra
Nos seios
Porque o algodão doce pega
Os lábios
Os mesmos lábios que imploram
A mente
A subtil sedução da voz.


Há uma ponte muito curta
Entre as bocas
O arco é perfeito
Sólidas as palavras, ligam
A saliva às margens
Flutuantes e elásticos
Os momentos.


Neste tempo, o cardo floriu
Já as sombras passaram
No leve romper do véu.
As cigarras cantam os últimos
Acordes
E os nossos dedos, são vaga-lumes
No caminho do sonho.




Joaquim Monteiro

INSANO

INSANO

recordo ainda ínfimas pétalas,
botões instalados no interior de um véu quase lácteo,
a florirem em estiramentos agradavelmente dolorosos.
quão frutífera é esta dor que cresce de dentro
e alimento, alimento…
esta dor a quem mato sede e fome
para que me nutra a alma,
me escorra sanguínea em tinta ainda morna.
esta dor rubra,
que azulo no ventre
e risco sempre em ondas de ternura.

LUISA AZEVEDO

quarta-feira, 11 de maio de 2011

VARIAÇÕES SOBRE UM...BEIJO


Escultura de Constantin brancusi "O beijo"

VARIAÇÕES SOBRE UM… BEIJO


Basta-me o teu beijo,
Aquele vento azul
que me incendeia.


Quero-te assim;
inteira no sentir,
a estremecer na claridade
alta do desejo
Os lábios ardem nas pedras
assustadas da tua boca,
a língua que procura nichos e
recantos
onde a labareda é mais quente
.
O trigo que procuro, vivo,
emerge desse vulcão
de aves incandescentes e nocturnas
Quero-te e volto-me para tocar os silêncios,
nus pela ausência, transparentes,
onde sinto o tecido das tuas longas mãos,
côncavas de desejo.


Sim, quero aquele pão doce
e fumegante
das madrugadas rubras, empoleiradas
no raiar dos pássaros de vidro.


Esse é o beijo
que me basta.
Pão que me alimenta,
transborda da minha fome demorada,
habita os meus sonhos diurnos.
Hoje, só hoje.


Lília Tavares e Joaquim Monteiro

SOLIDARIEDADE

ABEL ANTUNES ANTUNES


Com uma grande paixão pessoal, me dedico ao estudo de todos os felinos, nomeadamente os meusirmãos gatos que adoro. Quem sempre teve gato desde a cinqüenta anos, estabeleceu com eles uma relação que só os que estão nestas condições podem bem perceber que se vão tornando bem mais qualquer coisa do que gatos: têm uma individualidade e personalidade bem vincada. Autônomos, não precisam de nós como, por vezes, nós precisamos deles. Com o tempo um gato entra, e com o decorrer dos anos vai-se tornando a alma dessa casa.


Mas, meus amigos e irmãos deste face, devo confessar-vos que os meus interesses mais nobres se fragmentam por ações muito mais importantes: como todas as noites levar uma palavra de esperança e comida aos sem abrigo que vão, cada vez mais, enchendo ar arcadas dos prédios e outros locais mais esconsos.


Sempre que posso, vou visitar aqueles que abandonam nos hospitais e lares duvidosos, para levar-lhes uma palavra amiga e, às vezes um ramo de flores. Apesar de eu achar que a vida e uma paixão inútil,a minha consciência diz-me para não desistir dos meus irmãos e da miséria que todos os dias os sufoca.
    
Abel Antunes Antunes