domingo, 30 de outubro de 2011

ONDE TE ENCONTRO?

LUISA AZEVEDO

ONDE TE ENCONTRO?



quisera enviar-te um pássaro,
a última folha vermelha do plátano,
mas o vento
voa outro destino que não o nosso
hoje
e tu esqueceste de deixar-me um bilhete sobre a mesa,
da janela aberta,
da chuva nos meus olhos
e partiste
para tão longe que não regressaste ainda,
tão longe… o olfacto não me guia
tão longe… a lua não poisa no chão a tua sombra.
cega-me a escuridão desta tua ausência,
mais longa que qualquer outra ausência.


LUISA AZEVEDO

sábado, 29 de outubro de 2011

QUERO-TE PARA ALÉM DAS COISAS JUSTAS

Fotografia de Katia Shaucheva

QUERO-TE PARA ALÉM DAS COISAS JUSTAS




Quero-te para além das coisas justas


e dos dias cheios de grandeza.


A dor não tem significado quando me roubam as árvores,


as ágatas, as águas.


O meu sol vem de dentro do teu corpo,


a tua voz respira a minha voz.


De quem são os ídolos, as culpas, as vírgulas


dos beijos? Discuto esta noite


apenas o pudor de preferir-te


entre as coisas vivas.




JOAQUIM PESSOA, in OS DIAS DA SERPENTE ( Moraes Editores, 1981)


 
Joaquim Pessoa

ÉS O POEMA

Miguel  de Carvalho

ÉS O POEMA

és o poema e a aurora
que esboça no corpo um discurso húmido de cânticos nocturnos


és o poema e a fissura dos meus olhos
donde derramo a tinta com que escrevo teu nome


és o poema que perdura cardíaco
entre labaredas e jardins proibidos das geografias internas


és o poema e o consolo duma boca
que beija no ventre uma borboleta em chamas


és o poema e a navegadora sem tempo
no meu peito de pétalas secretas


és o poema e a intimidade de uma lágrima
onde sal nocturno segrega a espuma do sonho


és o poema de todos os poemas até à bruma no horizonte




MIGUEL DE CARVALHO


"movimento embriagado do tempo da flor" - collage sobre fotografia do autor (1995, 2007)
© miguel de carvalho






ALÉM-TÉDIO



ALÉM-TÉDIO


Nada me expira já, nada me vive...
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, enfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...


MÁRIO DE SÁ CARNEIRO
Mário de Sá Carneiro




sexta-feira, 28 de outubro de 2011

CANÇÃO DE AMOR





Óleo sobre tele: The Lovrs, de Leonardo De Amicis Carapucci
CANÇÃO DE AMOR 


Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
faria amor, assim, com as palavras.
Eu cantaria mesmo que tu não existisses
porque haveria de doer-me a tua ausência.


Por isso canto. Alegre ou triste,canto.
Como se, cantando, tocasse a tua boca,
ainda antes da tua presença.
Direi mesmo, depois da tua morte.


Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
ó minha amiga, doce companheira.
Eu festejo o teu corpo como um rio,
onde, exausto, chegarei ao mar.


Sim, eu cantaria mesmo que tu não existisses,
porque nada eu direi sem o teu nome.
Porque nada existe além da tua vida,
da tua pele macia, dos teus olhos magoados.


Assim quero cantar-te meu amor,
para além da morte, para além de tudo.




JOAQUIM PESSOA, in CANÇÕES DE EX-CRAVO E MALVIVER (Moraes Ed.,1977)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

TENHO QUE REENCONTRAR-TE

 
Luisa Azevedo


TENHO QUE REENCONTRAR-TE


tenho que reencontrar-te,


saber se os teus beijos são assim, reais,


como a minha boca conta por dentro


e se os teus dedos percorreram em mim


labirintos, teus!


... tenho que reencontrar-te,


olhar-te,


tocar-te,


cheirar-te de novo,


saber se o teu sabor é este néctar


que me corre na voz.
 

 LUISA AZEVEDO

UM OUTRO POEMA DE AMOR


                   Pintura de MONTSERRAT GUDIOL, firmada y dedicada a Jordi Sarsanedas


UM OUTRO POEMA DE AMOR




No fundo, as relações entre mim e ti
... cabem na palma da mão:
onde o teu corpo se esconde e
de onde,
quando sopro por entre os dedos,
foge como fumo
um pequeno pássaro,
ou um simples segredo
que guardávamos para a noite.






NUNO JÚDICE, in O MOVIMENTO DO MUNDO, ( Quetzal, 1997)

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

NASCIDA DA LUA

Foto de Jorge Ribeiro
NASCIDA DA LUA


nascida da noite e da tempestade de chuvas antigas e noites esquecidas,
vim de ti. vim das névoas das dúvidas dos corpos dos braços
e de mil embaraços que residem nos olhares nos sentires no amar.
nascida da lua crescente luzente de poeiras marinhas e de sonhos,
olho-te redonda e sei que as etéreas aragens das nuvens me flutuam
e navegam. vejo-te crescente, lua eterna e indigente de solares noites,
onde saúdas o mar e te sabes Mulher. lua incandescente, de brilho
opalescente e nú. vejo-te os ombros de dama encantada e percebo a alva
aurora de rosa inflamada. sei de onde venho. venho das noites onde és
inclemente na luz que emanas eterna potente LUA onde o sonho
flutua e me toca os seios e me toca os dedos e me toca os dedos e
me toca os olhos e me beija os olhos e me sabe os segredos.
plenilúnio de canteiros de flores amarrotadas por um beijo amarrotadas
pelo desejo de encontrar, em ti, um leito onde possa .ficar.


Susana Duarte



Susana Duarte

domingo, 23 de outubro de 2011

DESPI-ME DE ATITUDES

  

Foto de José Luís Outono

DESPI-ME DE ATITUDES...




Despi-me de atitudes
Voei no teu olhar terno
E doei-te um manto azul
No frio quebrado
Do teu corpo entregue
Até à alvorada foz.


Desafiaste o colorido
Da quietude embalo
E cinzelaste o momento
Como árvore sôfrega de fruto
Como vereda ansiosa de caminho
Como rio sem margens insaciável.


Hoje aviva-me apenas o pontão
Onde mondaste olhares e carpires
Químicas alteradas corporais
E escreveste nos lábios procura
Quase testamento uniforme
Um beijo hoje não é sinal de amanhã!
 


JOSÉ LUÍS OUTONO






José Luís Outono

CALÇADAS

Foto de Ivano Cetta

CALÇADAS




caminho sobre os passos anteriores a mim. neles, oiço as vozes e as dores
e as vidas e as cores e os passos pressentidos, caminhados, vividos. horas
e horas de diálogos e monólogos, de pessoas e casais e sociólogos e poetas
e horas negras e horas abertas, de estranhos encantamentos de descobertas
e saias de fadistas. oiço o canto das viúvas, que oram aos céus, e as luzes
das noites escuras de gatos sozinhos, onde as viúvas passam os seus dedos
e sentem o terno bater de um coração pequenino que tolhe lágrimas e solidões
de peitos sós. ternas são as pedras dos caminhos anteriores a mim. flores.


flores crescem, amarelas, por entre as pedras dos passos das vozes que ouvi
e das nozes que mastiguei em noites anteriores. crescem oblíquas e nascem
despercebidas, reais-pisadas-esquecidas e desmembradas pelos pés que escrevi
nas flores das noites de cereja onde te pressenti. nasceste em mim pelas mãos
de uma noite, terna-eterna-sonhada e sentida. por entre as rosas da noite,
soube, através de ti, onde estava. por onde ia. para onde iria. onde seria eu.
.florescem as pedras. florescem as noites. florescem lágrimas guiadas por cabelos
negros-rubros resplandecentes de luzes das imagens que amámos e deixámos
espalhadas pelas pedras, onde os nossos pés criaram flores e as mãos...
sonhámos delícias de mãos entrelaçadas, inscritas em ti, inscritas em mim, escritas nas calçadas das ruas
eternas das cidades onde, ternas, as mãos se tocaram....


SUSANA DUARTE






Susana Duarte

SENDA

Luisa Azevedo

SENDA




sabes… tantas vezes me apetece imaginar que nada foi?


passou um vulto que me ocupou o olhar, o tempo.


mas mantém-se no horizonte um navio que me segue os passos,


rumando a nenhures.


por vezes cai na fenda do sol


e amanhece nos meus sonhos de rosto queimado,


recordando-me a texturas das velas,


o aroma da noite,


as paredes da casa,


recordando-me qualquer coisa de ti!


quase sempre o último beijo,


quase sempre!


e eu fico depois a saborear-te em todos os outros beijos,


dentro dos meus.




LUISA AZEVEDO

EU QUERIA AMAR AQUI


EU QUERIA AMAR AQUI


-Na sonoridade de um "grito" rural,


- Num silêncio cumplice em fantasias,


-Plantar em cada vaso um certo sorriso de olhar adolescente,


-Esculpir pelas trepadeiras,


-Os gestos das nossas mãos descaídas em nossos corpos,


-Quanto "sonhei" amar aqui.../... Amor,


-Exorcitar a lividez granítica da urbanidade...


-Oh! Amar assim...


-O tempo não parou...


-E tu amor...não passaste por aqui


VITOR MARQUES 



Vitor Marques

OLHAREI PARA TI, COMO SEMPRE, ETERNAMENTE

Foto de José Manuel Fernandes "Despedida de Verão no Outono"

As velhas tardes outonais serão benéficas para tratamento de questões naturais. Haverá algo mais a preservar que um sorriso e um olhar? Guarda esse último lugar para sempre e eu olharei para Ti, como sempre, eternamente!




FRANCISCO MILHEIRO AZEVEDO
 
 

Francisco Milheiro de Azevedo

AMOR SUGADO

Manuel Xará

POR MANUEL XARÁ


O amor, enquanto afeição humana, é o amor que deseja o bem, possui uma disposição amigável, promove a felicidade dos demais e alegra-se com ela. Mas é patente que aqueles que possuem uma inclinação meramente sexual não amam a pessoa por nenhum dos motivos ligados à verdadeira afeição e não se preocupam com a sua felicidade, mas podem até mesmo levá-la à maior infelicidade simplesmente visando satisfazer a sua própria inclinação e apetite. O amor sexual faz da pessoa amada um objecto do apetite; tão logo foi possuída e o apetite saciado, ela é descartada «tal como um limão sugado».







Emmanuel Kant, in 'Lições de Ética'

VOU SER LIVRE

Foto de Susana Duarte


vou ser livre e deixar-me dormir sob as plúmulas do vento que me corre.


(e adormecer sob os teus braços, asas de ave, ave de flores, flores de mar)


sob os teus braços, uma nova vida me preenche e as veias me percorre.


(vou ser leito dos teus olhos, ave dos teus sonhos, olhos do teu acordar)


vou ser noite onde me deito, e deito-me no azul dos teus olhos.


serei ave libertada da noite, sempre que as tuas mãos


me percorrerem os cabelos.




SUSANA DUARTE

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

140 ANOS DEPOIS

"As Farpas" de Eça de Queirós


140 anos depois...




«O país perdeu a inteligência e a consciência moral.


Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os


carácteres corrompidos.


A prática da vida tem por única direcção a conveniência.


Não há princípio que não seja desmentido.


Não há instituição que não seja escarnecida.


Ninguém se respeita.


Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.


Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.


Alguns agiotas felizes exploram.


A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.


O povo está na miséria.


Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.


O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado


como um inimigo.


A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.


Diz-se por toda a parte: o país está perdido!»










Escrito em 1871, por Eça de Queirós, no primeiro número d'As Farpas

NAMORAR DEPOIS DOS 50.....

Clinton Eastwood e Meryl Streep

NAMORAR DEPOIS DOS 50....


Em nossa idade, depois do meio século, o amor já percorreu estradas, dobrou esquinas e optou em encruzilhadas...


Já errou, já acertou, já deslizou, já se arrependeu e, inevitavelmente, o tempo se foi.
Viveu-se o amor, perdeu-se o amor, alguns pelas mãos de Deus, outros
pelo enfraquecimento do viver a dois.


Hoje o nosso olhar em direção ao amor continua mais lindo, pois na longa caminhada dos sentimentos, aprendemos a somar, a dividir e a multiplicar, sem chances de diminuir no conhecimento do sentimento do amor .


O amor maduro chega de mansinho e se aloja em nossa vida, sem tempo para acabar.


O caminhar a dois é mais sereno, a cumplicidade existe, o carinho é mais espontâneo, não nos inibimos diante do querer, a sintonia é completa e as lembranças são depositadas no álbum das saudades, que guardamos, de um tempo que não volta mais .


Namorar na nossa idade é carregar a ternura no olhar.


O brilho é mais intenso, a vontade de acertar é mais forte.


A construção do caminhar a dois é a soma do querer, é o encontro de duas almas aplaudidas por dois corações que dividem a emoção de amar.


As pequeninas atitudes, os gestos e os detalhes são os alimentos que sustentam este amor.


Viver a dois é a alegria da companhia, do chamego dengoso, dos beijos ainda calientes, dos insinuantes olhares quando o desejo se manifesta e a promessa no olhar de que em todo amanhecer, será o mais belo bom dia entre dois seres que encontraram o amor !


Amar nunca é demais.


Feliz daquele que tem um enorme coração, capaz de amar, amar, amar e acima de tudo saber ser amado...


Faça o dia, a tarde, a noite do seu
bem ser memorável.




Desconheço a autoria

terça-feira, 18 de outubro de 2011

PLANO

Nuno Júdice
PLANO


Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.




NUNO JÚDICE

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

ESGOTO-ME EM PALAVRAS


NiniAnamar

‎"...Esgoto-me


em palavras


que não ouço


no silêncio


dos (teus) gestos..."


Anamar (pseudónimo) — com Joana Portugal.

sábado, 15 de outubro de 2011

AMARANTE

Foto de Lourenço Pereira
MUITO, MUITO BELA....VIVERIA SÓ AO ENTARDECER....




Lourenço Pereira

ESTAMOS CÁ PARA DEIXAR UMA MARCA NO UNIVERSO

Steve Jobs
"Estamos cá para deixar uma marca no universo"








Visionário, criativo, místico, carismático, um dos maiores inovadores, senão o maior, da era digital. Morreu aos 56 anos e deixou a sua marca na vida de milhões de pessoas.






R.I.P Steve Jobs

CITAÇÕES SOBRE AGUSTINA

Agustina Bessa Luís

CITAÇÕES SOBRE AGUSTINA


(...) A energia de Agustina cansa, num país de lírios de água e de gente mordida pelo zelo alheio. Por isto, o lugar de Agustina na literatura contemporânea é um lugar incómodo, onde erros e convicções ressoam a dobrar por tratar-se de uma mulher que nunca reivindicou tal estatuto para se disfarçar de vítima ou pretendente ao trono. E, além de incómoda, Agustina é inquietante, com aqueles olhos de doninha esperta onde se concentra uma atenção aos problemas difíceis (...)


Clara Ferreira Alves
in Expresso, 23 / 1 / 88








Toda a obra de Agustina Bessa-Luís é animada por um movimento de resistência à dissolução da singularidade do indivíduo numa humanidade cinzenta , mecânica, sem segredos nem espectativas. Daí que um dos seus motivos recorrentes seja o da comunicação e informação objectivantes que fazem parte de uma vertigem da nossa época pela qual (...) todas as coisas e nós próprios naufragamos num estado de indiferença. É numa recusa da instrumentalização da linguagem que se originam, portanto, nos romances de Agustina Bessa-Luís, relações específicas entre o dizer do pensamento e o dizer da arte que, morando nas montanhas mais separadas, infinitamente se encontram.



Silvina Rodrigues Lopes
Aprendizagem do Incerto

AGUSTINA BESSA LUÍS - NASCI ADULTA, MORREREI CRIANÇA

                      

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

ISTO VAI MESMO REBENTAR



D. Manuel Martins
 

D. Manuel Martins: «Isto vai mesmo rebentar»


Bispo emérito de Setúbal avisa que medidas de austeridade vão fazer  
«escorrer muito sangue»


O bispo emérito de Setúbal Manuel Martins considerou hoje que as medidas anunciadas quinta-feira pelo Governo vão fazer «escorrer muito sangue» e assumiu-se como «derrotado» ao fim de 84 anos de vida a lutar contra a fome.


Em entrevista à Agência Lusa a propósito das medidas do Orçamento de Estado para 2012, que passam, entre outras, pela eliminação do subsídio de férias e de natal para alguns trabalhadores, Manuel Martins disse que as mesmas vão provocar «uma desgraça muito grande» em Portugal.


«Isto vai rebentar», afirmou, receando que as manifestações de indignação da população sejam «o mínimo» ou «o começo» de algo «muito mais grave».


Para o bispo que tantas vezes denunciou a fome que afligia o povo da sua diocese de Setúbal, «as manifestações são o mínimo que pode acontecer» numa situação que «poderá resultar em violência».


«Não sei se o povo terá forças para ir para a rua, mas muitas coisas graves poderão acontecer», sublinhou.


«Há medidas que nos tocam nas telhas da casa, no automóvel ou nas férias, mas estas entram-nos na casa e na cozinha. Entram-nos no estômago, na saúde», disse.


Manuel Martins alertou para o cada vez maior número de famílias «sem possibilidade alguma de viver que já batem às portas a pedir e outras que vivem com a certeza que o terão de fazer».


«Estou imensamente triste, desanimado, derrotado», assumiu, lamentando as «lágrimas de sangue» que irão resultar destas medidas.


Por esta razão, o bispo considera que o Governo deveria «protelar a dívida, os juros» porque «isto vai mesmo rebentar».


Manuel Martins considera que as famílias tiveram «uma culpa inconsciente», pois foram «lisonjeiras» e deixaram-se enganar pelo «futuro apregoado pelos bancos».


O prelado direcciona as culpas para quem «governou o país com cem, quando só podia ir até dez», acrescentando que «a culpa não é apenas internacional», mas também do «compadrio e do amiguismo».


O bispo recorda que «ainda Portugal vivia tempos anunciados como prósperos e já existiam milhares de pessoas com fome».


Agora, com as medidas anunciadas pelo Governo, os que passarão fome «não vão ter conta».


Manuel Martins, que ficou conhecido como «o bispo vermelho» por causa das suas bandeiras sociais, diz que é hoje «um homem desanimado». «Estamos perdidos», rematou.





BÁRBAROS

  
Oizys, a Angústia, a Miséria, o Sofrimento

BÁRBAROS, fj


e isso
é absolutamente
desesperante
na minha idade
pois me prova
me vem provar
que nada
aprendi
da
vida




desta
puta
de
vida




em que
continuamos
a ser bárbaros
animais



uns
com os
outros


fj



Filipe Chinita
  
.

MÃE

A minha mãe e o meu filho

MÃE


és raiz...és amor...


és a vida natural...


és saudade e pecado


original....






... Nasce de ti a palavra


nasce em ti o Amor...


és promessa da alma


dada a cada cantor...






Sofres...morres..vives...


és a coisa mais linda...


da minha vida...


Tu...


MÃE....






D’aquino Correia


01-05-2011

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O Sorriso - Eugenio de Andrade

                          

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

RESPIRO O TEU CORPO




RESPIRO O TEU CORPO

Respiro o teu corpo:


sabe a lua-de-água


ao amanhecer,


sabe a cal molhada,


sabe a luz mordida,


sabe a brisa nua,


ao sangue dos rios,


sabe a rosa louca,


ao cair da noite


sabe a pedra amarga,


sabe à minha boca.




EUGÉNIO DE ANDRADE

PORQUE TÃO PEQUENAS COISAS TE FAZEM GRANDE?




Porque tão pequenas coisas te fazem grande?
Se pequenas coisas só são pequenas coisas
Ah quem sabe achas a tua genialidade um Deus
Ousa ser grande
Ousa dominar o mundo
Talvez se eu fosse génio também ousaria


Ah mas não faças obras literárias
Nem um altar para tua sabedoria
Para que muito religiosamente se ajoelhem
Alguém te reze em vão
Nas paredes que não tens


Ahhhhhhhhhh Deixa que tua alma
Seja uma mulher
Pobre muito pobre
Com uma coroa de sol à cabeça
E depois quem sabe na coroa
Encontres alguma coisa:
Seios
Cobra de areia
luz e asas - pomar de formigas
Para te alimentares


Ahhh não desenhes rei e gado
Com o que pensas e crês
Porque o que julgas e não julgas - Rosa de ogiva
A força que te dá luz - De chão e ervas
Respira fora dos teus embolos
Queres que te ponha velas?
Ah cansei-me da tua sabedoria filho da puta
Do teu funeral de estrelas sem padre
E dos teus adoradores
De todas as tuas coisinhas "Par coeur"
Dos teus soldadinhos de chumbo
Da doutrina com a mesma catequista


Ahhhh aperta o gatilho
contra ti mesmo
Aceita a minha flor de enxofre
Carroça de coisas que te faz génio
Estrela de lama - Toma-a- e consome-te
Quero que sejas feliz


Que dês as mãos ao que importa
Que a mim só o que não importa me diz


Talvez seja esse o teu" Trottoir parisien"
De pintores e putas - fuga de mim
Em interlocução a gás
Saboreia toda essa materialidade
E morre sábio sem vítimas!




MANUEL FELICIANO

terça-feira, 11 de outubro de 2011

AS MÃES DOS POETAS NÃO MORREM


Ricardo Nuno Correia

AS MÃES DOS POETAS NÃO MORREM!!!


As Mães dos Poetas não morrem!!!!
São feitas de sentimentos…
Só morrem quando o Poeta…
...já está morto por dentro…


... As Mães dos Poetas não morrem!!!!
Alguém sabe da do Camões?
Da do Pessoa, do Ary
Fernando Campos, Alberto Caeiro
Ricardo Reis e outros assim…


As Mães dos Poetas não morrem!!!!
São chama que deu à Luz…
Dentro das suas ancas…ou cesariana talvez?
Mas deu a voz ao Poeta que só morre no infinito dos seus versos…


As Mães dos Poetas não morrem!!!!
Alguém sabe da do Mário Sá Carneiro
Da do Aleixo, que mal sabia ler…
E anda o Mundo inteiro…
A tentar se entender!!!!


As Mães dos Poetas não morrem!!!!
Vivem em versos bem distintos…
São guardadas com rosas, buganvílias e outros discos…
São cantadas na hora, em que os que não são poetas,
Querem fazer o Bonito!!!
Dizer com palavras dos outros
O que os outros têm dito…


As Mães dos Poetas não morrem!!!!
Nem no além viverão…
Elas são raízes de Almas que do Mundo
Jamais partirão…
Não morrem, Não!!!!


D’aquino Correia

7-3-2011

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

FLORES DO MAR




FLORES DO MAR (Susana Duarte e Luísa Azevedo)

O poema nasceu do dia, nas asas de um cavalo
solto no céu, onde a luz se fez breve sombra
e as asas, escondidas na suave penumbra,
navegaram dias inteiros sobre as flores





de um jardim imaginário, de insetos
polinizadores, onde a chama
das cores do céu
se acenderam
no teu
nome

é sempre o teu nome
todas as suas letras
e o ardor nos lábios
quando te digo
que me acende os dedos
muito antes de tocar-te.

Se te toco, sinto o chao
e as flores da madrugada,
num deserto sem cores.
Sem ti....sem teus beijos,
nada
Nada seduz e nada transparece.
Nada reluz, nada amanhece...
Só amanheço na manhã
do teu sorriso. No amanhã
de uma mágico que caminha
pelas ruas e me oferece
o fado cantado de um destino
prometido.


devolvo promessas
à fonte onde a ilusão encandeia
para não cegar na noite
seguir vendo o brilho dos teus olhos
e neles o brotar das flores.
sei que as pétalas trazem recados.
não as abro!
deixo que caiam
uma a uma
e o nosso fado se já escrevendo pelo chão


sobre o chão e sobre o leito,
se inscrevem amanhãs....
és verdade pressentida
onde se arrastam alvoradas
que estendo sobre mim;
nesse manto alado de ar,
respiro as cores do teu pescoço
e é assim, em alvoroço,
que me revejo no teu olhar

pulsa-me o sangue de saber-te madrugada à minha espera.
chegarei tarde! reteve-me a lua nos seus braços
amante
nocturna
e oculta.

chegarei de olhos cansados,
corpo fatigado
e sem vontades.
chegarei de velas rasgadas,
rumo transviado.
preciso abarcar no teu destino

é nele, no destino dos teus braços,
que demorarei o ventre, e saberei
onde existe o sangue de uma alvorada
ardente,
silenciosa
e demorada,
nos olhos onde te amei
em cada beijo, e em cada asa
que, por ti, ganhei.


pois demora teu ventre
onde a vontade é pura
e nada em ti se perde.
demora o ventre nas memórias que balanço nos dedos
e, como uma dança, alongarei aos braços
o nosso corpo é árvore
onde cada fruto será uma gota matinal de orvalho.


orvalharei o teu rosto com o suor dos meus braços,
transformando-te numa árvore de vida, num mar de sarçaços
e num olhar azul que me completa as marés


em ti me faço mar,
serei... seremos
talvez sereias,
teremos escamas,
cauda,
subtis interstícios
onde brilharão cristais próximos do que se chama sal

teremos escamas como peixes azuis de oceanos
longínquos, onde as flores marinhas voam e
os peixes nadam até à raiz dos meus sonhos.
nos meus sonhos encontro teus olhos salinos,
feitos de cristais hialinos, onde a voz do mar
é apenas a voz do nosso canto, no seio que
se revela encantado, seguro pelo teu olhar.

é na transparência que dois olhar se penetram,
bem fundo! tão fundo que as almas podem mesclar-se,
tingir o interior do ser.
serás azul?
serei violeta?
seremos todas as cores que reflictam a luz sincera das águas
assim viveremos
em breve chegaremos ao centro de atlântida.


seremos magenta como as framboesas
nascidas no mais profundo do mar,
onde castelos de areia se espraiam
em mim, e eu... no luar.

e voltamos a cair-nos nos braços,
com os corpos lambuzados de amoras silvestres
pois foi da lua que parti, recordas?
queria ter-me para si,
saborear os prazeres terrenos,
saber-te longe, recordas?
dela fugi para voltar a ti.


volta. saberás sempre onde estou.
estarei e residem as aves, sem asas,
que todavia voam em cada noite
que em mim....amanhece.
Estarei nas vielas onde se ouvem gatos
misteriosos e serenos. volta.
volta de onde estás e és sem mim.

serei a outra asa
para juntas voarmos
até ao amanhecer
e tombarmos no sonho de voltar a ser noite.
serei o miado desassossegado que reconheces
em qualquer viela e incessantemente buscas
até sermos unas uma mais.


e, assim, fundir-nos-emos na origem do mundo.
é lá, no centro de tudo, que as asas se derretem,
pois a fusão das almas não deseja voos. deseja ser.

sejamos então, num (e)terno abraço



Texto a 4 mãos por SUSANA DUARTE e LUISA AZEVEDO

como aconteceu anterioremente, a partir de uma publicação no mural foram nascendo poemas em forma de "resposta", compilados nesta nota. os textos são apresentados pela ordem surgida nos comentários... 'à capela'.

Susana Duarte
 

LUISA AZEVEDO