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domingo, 23 de outubro de 2011

CALÇADAS

Foto de Ivano Cetta

CALÇADAS




caminho sobre os passos anteriores a mim. neles, oiço as vozes e as dores
e as vidas e as cores e os passos pressentidos, caminhados, vividos. horas
e horas de diálogos e monólogos, de pessoas e casais e sociólogos e poetas
e horas negras e horas abertas, de estranhos encantamentos de descobertas
e saias de fadistas. oiço o canto das viúvas, que oram aos céus, e as luzes
das noites escuras de gatos sozinhos, onde as viúvas passam os seus dedos
e sentem o terno bater de um coração pequenino que tolhe lágrimas e solidões
de peitos sós. ternas são as pedras dos caminhos anteriores a mim. flores.


flores crescem, amarelas, por entre as pedras dos passos das vozes que ouvi
e das nozes que mastiguei em noites anteriores. crescem oblíquas e nascem
despercebidas, reais-pisadas-esquecidas e desmembradas pelos pés que escrevi
nas flores das noites de cereja onde te pressenti. nasceste em mim pelas mãos
de uma noite, terna-eterna-sonhada e sentida. por entre as rosas da noite,
soube, através de ti, onde estava. por onde ia. para onde iria. onde seria eu.
.florescem as pedras. florescem as noites. florescem lágrimas guiadas por cabelos
negros-rubros resplandecentes de luzes das imagens que amámos e deixámos
espalhadas pelas pedras, onde os nossos pés criaram flores e as mãos...
sonhámos delícias de mãos entrelaçadas, inscritas em ti, inscritas em mim, escritas nas calçadas das ruas
eternas das cidades onde, ternas, as mãos se tocaram....


SUSANA DUARTE






Susana Duarte