sábado, 30 de abril de 2011

A ESPERA



A ESPERA


O sol arrastado à cabeça de uma junta de bois
E tantos de nós com as pernas
Lavradas nas entranhas da terra…
Na aliança de dedos sem aneis
Disseram-me para esperar foda-se
Coisa estranha a puta da espera
Os braços sem braços
As pernas sem pernas
Até para nascer eu tive que esperar
Mas se ao menos esperar valesse a pena
Para a puta da vida me abrir as pernas


Estes dias de Ulisses na ilha de Calipso
E a Penépole a tricotar na minha garganta
Seriam ainda alguma coisa
Senão hoje vai ter mesmo que ser
Comer um desejo embalsamado
Esperar por uma noiva que tarda em chegar ao altar
E pensar o céu num canteiro
E ter que fazer disto um navio
E ter que fazer disto um Deus amável
E ter que fazer disto uma vida de santo
E ter que fazer disto um doce veneno
Depois que os bois lavraram estas entranhas
Há ratos à superficie
E as cobras atentam contra os ratos
E os ratos fogem da cobras
E eu fujo de tudo isto
Será que eu sou daqui caralho?
Deste jogo de cabra cega
Batendo com os cornos no muro
Como se não haja muros e cornos
E se ao menos o que eu digo fosse uma curta metragem
Mas não…esta merda é crometrada em câmara lenta
Para ser chupada
Lambida
Expurgada
Para entrar no céu completamento limpinho
Sem a toxiciade da nicotina
Não fossem os meus sonhos
A medula de uma pedra
Onde é que estavam todos os meus Deuses?
Onde é que eu poderia tomar um duche
Na maçaneta de uma porta
Onde é que eu poderia estar contigo definitivamente?
Com ternura
As mãos frescas e prontas
Com inocência e vulva
Na boca fresca da brisa
Com os joelhos em sangue nos meus olhos
A lembrarem duas flores vermelhas
Ah não vou gritar porque nenhum Deus vem salvar o mundo
Porque os Deuses também são escravos
Porque os Deuses esperam por tudo
Porque os Deuses também são vítimas
Porque os Deuses também estão fartos
Desta máquina enferrujada que tinha que ser podre para ser vida!




manuel feliciano

SURDO, SUBTERRÂNIO RIO

POR JAIME MAIA  

Eugénio de Andrade

ESTRADA ADENTRO






ESTRADA ADENTRO


É agora é que eu preciso de uma rua na minha garganta


E que tu ma possas pisar até doer...


Que a sola húmida dos sapatos
Que usas cor de rosa
Igual as rosas que gemem sempre em todas as primaveras
Sejam veados livres pastando na minha pele
Cheia de erva e pasto


E a tua respiração
A estrada repleta da carne do chão
Onde eu ouço as bocas que afinal


Não morreram


Acredita comigo


Que a minha garganta é a mesma das pedras da tua rua


Que as luzes todas que escutas é o mar
E o mar é a tua voz


E a tua voz sou eu contigo
O sol e a noite
A noite e o sol
Todos os dias na poeira dos ósculos que os rios engolem
Pela minha garganta até ao estômago
Sedento de peixes


Enleados aos teus ouvidos
Que é o nosso céu e as nuvens
Mortas por chover
Como couves mirradas por água


Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
Não fiques à espera de nada
Espera como quem corre para os meus braços
Rebentado ainda mesmo no Inverno das árvores
Nos desertos onde os barcos não crêem


Mas eu creio em ti meu amor
Como é que eu te posso dizer que creio em ti sem joio
Que as minhas pernas tolhidas
Estão cheias de um oceano mais alto que céu
E as minhas lágrimas estão cheias da tua cara
E que e que a tua alma agoniada
É um veleiro que me pesa e arde no cérebro
O sangue alimentando as estrelas


Mas pisas-me, pisa-me
Sempre que fores à missa ao Domingo
Não te esqueças que eu sou uma parte do domingo
E que os dias não teriam o mesmo sentido se não fossem pisados.




manuel feliciano

sexta-feira, 29 de abril de 2011

VIVER PARA AMAR




Vale a pena viver para amar.
 Entendo a palavra amor como uma entrega nossa
 para o bem do outro
 e para o bem do mundo.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

É TEMPO



É TEMPO....


Disse-te pouco,
o pouco do muito
que te quero dizer.


Gestual,
fica o ouro
do momento,
tela de um nú,
onde
esvoaçam,
pousando,
belas,
as minhas mãos,
tocando-te,
invento.


Disse-te pouco,
mas,
disse-te,
sem querer,
o que quero
dizer.


É tempo.




Por JOSÉ SOTTOMAYOR
.

"S. JOÃO PAULO II"





"S.JOÃO PAULO II"

No meu modesto entender,
a santidade não é feita ou merecida por milagres,
é,
por si só,
o verdadeiro milagre.

Um ser que conseguiu interpenetrar e congregar a humanidade diversa,
ultrapassando ideologias,etnias,guerras,catástrofes...
que propagou,incessantemente,o amor pleno,
beijando a terra e o céu...

Não haverá no mundo inteiro,
quem,
contemplando esta face
não se aperceba
deste ser humano...divino.

Por José Sottomayor

PINTO EM BRANCO O VERDE SUOR DA GUERRA

"Pinto em branco o verde suor da guerra" ou " partiu o meu irmão"


Hoje... ví
um barco branco
que pintaram de verde,


tinha lágrimas transparentes
nas amarras,
tinha corpos de gente
em vozes cansadas.


Hoje ví
um barco branco
que pintaram de verde,


era feito de tristeza
por mãos cheias
roubava o Sol
e cuspia névoa
nas ideias.


Hoje vi
um barco branco
que pintaram de verde
em lágrimas transparentes

José Sottomayor

TERNURA



Nasci de mão dada com a ternura, com ela cresci, me fiz gente.

Aprendi a acarinhá-la, a guardá-la entre os dedos.


Semeio-a, com a ajuda do vento.

Sacio-lhe a sede, com lágrimas doces.


Vejo-a tornar-se maior sem sobejar.

Bebo de toda a que me oferecem e entrego-a, na mão de quem a queira de mim beber.

Este livro reflecte o que hoje sou.

Espero que possa transmitir-vos a serenidade e a ternura que sinto quando escrevo.?


Luisa Azevedo

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O LUAR DAS SOMBRAS

Foto de Filipe Colombia

O LUAR DAS SOMBRAS


O mar prolonga-se nos cabelos das árvores
E as árvores sulcam a frescura do mar


Os dias não se bebem no latejar dos astros
SER é o único tempo
Enlaçado a todo o recomeço
como se os olhos magoem toda a verdade
Inocente
Pequena
Abismal
Enquanto que gotejamos na garganta das flores
Pensamos que não sabemos das flores, árvores e astros


Mas tudo isto nos arde
E nasce, sente, e envelhece connosco
E sentir é a visão do mundo
As únicas mãos pálpaveis
E a morte enlouquece-me com tanta vida
De meninas
Na sombra verde das árvores
Como a brisa me encarne
Nas asas húmidas de frutos
Porque eu me dou todo por inteiro
Até que o grito infinito do amor
me colha nas pálpebras do berço
Onde até os Deuses choram
Com a mesma boca que me oferecem
Uma criança constante!




manuel feliciano

ABRIL



Abril 2008

recordo que as gaivotas voavam
que iríamos ser livres
para, como elas, voarmos também
e os anos passaram
e já são muitos
e, livres, vejo as gaivotas a voar
recordo os cravos cheirosos
que todos os anos apareciam
para, em abril, valerem liberdade
e os anos passaram
e já são muitos
e, liberdade,
vejo-a nos cravos por colher

Abril 2010

agora, nesta mesma hora
há milhões de cravos a chorar
um com fome
outro com sede
outro porque se sente encostado na parede
um sem emprego
outro perdido
outro entre muitos escondido
um com dívidas
outro falido
outro de tudo proibido
um sem pão
um sem dinheiro
outro, na revolta, se fez desordeiro
um sem ninguém
um vagabundo
outro no desgosto mais profundo
um chora por não ser feliz
outro porque não passa de aprendiz
um é perseguido no trabalho
outro não goza o seu cabelo grisalho
um que mata
um que morre
outro que o seu caminho não percorre
um que grita em desespero
um que não larga a bandeira
outro vive ainda na trincheira
um perdeu a liberdade
um que nunca a conheceu
outro porque alguém a corrompeu
um desconhece a lealdade
um vive amordaçado
outro ainda, foi pisado
um está preso sem razão
outro sabe em liberdade um aldrabão
um vê inventadas leis mais duras
outro só recorda ditaduras
um apenas porque foi usado
a seu lado um foi maltratado
um assiste a um suborno
de outro querem fazer um adorno
um está coxo
um moribundo
outro repara no que se passa neste mundo
um vomita sobre a estabilidade em pactos
outro observa a pompa de alguns actos
uns tratados
uns doentes
outros de novo estão presentes
um ouve os homens desbocados
outro os que outrora foram cães e gatos

mas há muitos com cravos na lapela
como quem põe flores à janela
e trinta e seis são os anos idos
estarão os cravos ainda floridos?
ou apenas murchos, sem vivacidade
e choram porque não cheira a liberdade
estas lágrimas são porque te perdi
quando a vontade era estar junto de ti

há milhões de cravos a chorar
mas outros tantos por desabrochar

Por Luisa Azevedo

segunda-feira, 25 de abril de 2011

VIRIS SOMBRAS



VIRIS SOMBRAS




Hoje uma voz disse-me que eu era eterno
E que as pedras afinal têm garganta e carne
Como que um vulto a engolir o deserto
E uma pápebra a consomir-me todo o pó
O pó de andar sempre à procura de não ter pó
E brilhar num grito
De uma púbis tão virgem
Cheia de palavras
E de um tesão branco


E uma laranja inchada respirou-me a alma
Que vida tão lubrificada escrita nuns lábios tão surdos
Como se um choro enraizasse nas têmporas do tempo
E uma luz lambesse bocados do escuro


Com galáxias dentro de um lugar inabitável
Cheios de seres sem corpo
Uma noite coube-me toda na vulva da voz
De uma memória tão húmida
E gástrica que me ardeu nos neurônios
E o amor ressucitou pássaros de ervas já secas
E as minhas mãos

Onde estavam as minhas mãos?
Num décimo andar
Onde nenhum homem se lembra de cobrar impostos
Nem ninguém pensa dactilografar
No meu umbigo
Abelhas nos vasos das flores do canteiro
A sociedade vista de cima
Sombra do meu pênis a latejar
E ainda bem que se esqueceram de mim
E todos os frios se lembram de me trazer
Os teus seios para me aquecerem
Que não me trouxeram a esperança mirrada nos figos


E porque as minhas mãos estavam livres
Mamei o leite nas friestas da fome
Como quem vê o rio
A fugir ao longe
Trémulo de febre
Nas águas furtadas de um telhado


E ao longe num ocenano que eu mesmo desconheço
Eu esculpo nesta cicatriz com quem a purifica
O amor que ainda é uma árvore dúctil a nascer na chuva


E dou por mim a vir-me na quilha de um navio
A foder todos os séculos que ainda estão por vir
Que todos os que já foram não me sabem a nada!




manuel feliciano

PAREI OLHEI - ROBERTO CARLOS

POR LUÍS CAMBRA


Ao ouvir esta música antecedo à minha juventude. Estou no Furadouro, na Avenida Principal. Lá encontram-se muitos jovens como eu.Sobre o meu rosto escaldante do calor e da maresia, que de vez em quando me refresca, eu ouço o Roberto Carlos e ficamos todos exultantes de alegria.... porque felicidade maior não há... sol, mar, música, chocolate Regina (um furo), juventude e muita amizade.

domingo, 24 de abril de 2011

O FISIONOMISTA



"...Vitor sabia interpretar as expressões do rosto e do olhar. Até pelas rugas do rosto ele conseguia interpretar as comoções passadas, tivessem tido as pessoas uma vida feliz ou infeliz, bons ou maus pensamentos. Porque cada sentimento faz movimentar no rosto o músculo subcutâneo correspondente, e ao persistir ao longo dos anos no rosto acaba por criar rugas. Cada ruga tem um significado psicologico importante - e no rosto existem muitas. Saber interpretá-las é conhecer o passado e compreender o presente de cada pessoa. Vitor ao interpretar essas rugas conhecia melhor o ser humano."


Do Livro "O FISIONOMISTA" de Jacinto Borges

VOZ CATIVA


Rogério Edgardo Xavier


VOZ  CATIVA, por Rogério Edgardo Xavier




É de seda
e de basalto
a tua voz noturna
deus proscrito.




Do silêncio me diz
incauta a tua voz
cativa do meu grito


João C. Martins
In " Aviso de Recepção" 2011

sábado, 23 de abril de 2011

MÍSERO OFERECER





MÍSERO OFERECER



Se era para me dares as tuas mãos


Que não tinham fome


...Se era para me dares os teus olhos que não tinham sede


Desses-me antes punhais


Que os fazia anjos


Desses-me a noite que eu a tornaria lua


Trouxesses contigo o cantar do Outono


Que tem a miséria de ser grande


E de me iluminar toda a minha alma


E me dar as flores que a Primavera não soube!






manuel feliciano





Mariah Carey - I Want To Know What Love Is

                      

HISTÓRIAS DE REGRESSO


Foto de Manuel Vilar de Macedo



a neve esconde as pegadas da infância


esquecidas pela idade em gavetas do passado,


as tuas folhas meninas de outono


crepitam hoje nas palavras de mulher


mas há, ainda, uma estrada por percorrer


...só que o tempo ensinou-nos a inquirir-lhe o fim


e enquanto o sorriso ganha rugas


um rio maduro escreve-se em histórias de regresso.
 
 
Por JOÃO COSTA

LÁ LONGE


Foto de Joaquim Vinhas


LÁ LONGE por Luisa Azevedo

recordo a infância,
as tardes sem horas no parque,
a estrada sem fim de vida,
apenas porque a morte não existia ainda.
hoje não sei para que lado corre o rio,
algo que porventura passava despercebido,
pois, na imaturidade, vencíamos o belo.
os saltos sobre as folhas que quebravam barulhenta
e pelas nossas gargalhadas falavam
entre o sorriso amarelecido do outono.
hoje, que o fim da estrada está mais próximo,
decidi que voltarei ao parque das acácias.

AS MÃOS


NICOLE KIDMAN


As mãos


Que tristeza tão inútil essas mãos
que nem sequer são flores
que se dêem:
abertas são apenas abandono,
fechadas são pálpebras imensas
carregadas de sono.






Eugénio de Andrade

CAETANO VELOSO - SOZINHO

                               
"Quando a gente gosta, é claro. a gente cuida...."
     Por Anabela Casal

ÚLTIMO POEMA


Robert Desnos

Robert Desnos escreveu o Último Poema num campo de concentração, em 1944
O último poema / Robert Desnos


Sonhei tanto contigo
Caminhei tanto contigo, falei tanto,
Amei tanto a tua sombra
Que já não me resta nada de ti.
Só me resta ser uma sombra, entre sombras,
Ser cem vezes mais sombra que a sombra,
Ser a sombra que virá e voltará a vir
Na tua vida ensolarada.


in Qual a minha ou a tua língua cem poemas de amor de outras línguas


Publicada por ceulimpo de nuvens brancas

NO CANTAR DOS FRUTOS


Sou mais que esta terra velha e seca

Que a surdez dos operários

Que a imagem obsuleta e escura

Num vestidinho cor de rosa

Eu vejo como a água corre

No cantar dos frutos


Os olhos são um lugar que nada veem

Tenho as mãos tão sofregas por nada saber dos olhos

Senão dos raios que lhes engolo

Mas os olhos são um lugar de assombro

São quando te beijo

Um livro fora de todas as leis do tempo

Nas malhas da pele.


E eis que ela me esmaga com as coxas

Como se uma mão me arda mais além

E me mostre o incógnito voo.

O que me dá a percepção de alguma vez os ter visto.




manuel feliciano

VIVAM APENAS

José Gomes Ferreira
"VIVAM APENAS" 
por José Sottomayor

Vivam, apenas
Sejam bons como o sol.
...
Livres como o vento.
Naturais como as fontes
Imitem as árvores dos caminhos
que dão flores e frutos
sem complicações.
Mas não queiram convencer os cardos
a transformar os espinhos
em rosas e canções.
E principalmente não pensem na Morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
que só são belos
quando se desenham na terra em flores.
Vivam, apenas.
A Morte é para os mortos!




José Gomes Ferreira
José Gomes Ferreira





SINTO FRIO



Sinto frio.


O frio da distância,
da ausência.
Estou ausente de mim.


É Lua cheia,
brilha,
gloriosa.


Não te vi passar,
senti-te,sómente.


Brilham e piscam os néons do quotidiano,
desejos desejados na névoa dos impossíveis,
deserdados,
passageiros de uma vida passada,
desordeiros em remorso,
procuram setas de sentidos,
morrem no frouxo,
na lentidão dos vivos.


Mesmo a menina,
que pousava os sonhos na janela,
secou as lágrimas na cortina,
nesse branco linho bordado por ela.


Secaram também os sonhos,
os adubos da horta da esperança,
perderam as cores os olhos risonhos,
ficou orfã do futuro a pequena criança.


É Lua cheia,
brilha,
gloriosa.


Sinto frio.
O frio da distância,
da ausência.


Perdi a minha boneca de trapo,
que,linda,perfeita,
luzia luzinhas no meu desejo.


Fazemos o féretro da inocência,
inundamos a consciência,
sacralizamos o último beijo.


Sentimos frio,
o frio branco ao lado da cor,
somos um retrato vazio,
um caixilho dourado,
vazio,
onde esteve
e não está,
o nosso amor.


Sinto frio.
A camisa é fina,
é de linho,
vazio.
Por  JOSÉ SOTTOMAYOR

POR TRÁS DE TI


esperava ver-te
conhecer o teu cheiro,
ultrapassar-te a cortina da pele
a meio do dia.
silenciar o contínuo coaxar dos lençóis
enquanto as minhas pernas
ambiguamente vagam sobre as tuas,
noite após noite.
estou a desaprender a elegância do andar
sempre que sou una neste meu dançar.




Por LUISA AZEVEDO

sexta-feira, 22 de abril de 2011

MÃE

A minha mãe


 Mãe



Quando quiseres dizer que me amas: diz mãe
E o coração saber-te-á por inteiro


Não me abraces: diz amor amor em gestação
Depois acarícia o feto e alegra-te
Como uma flor transformada
Com a voz dentro de outra voz.


Não me beijes: Sente a tua barriga em lume
A iluminar-te sem peso
Com o teu corpo vergado
E um pouco mais de ti a estender-se
E o teu eu em outro eu.


E se por ventura chorares
É porque às vezes o choro é uma forma de sorrir profunda
E o amor é um filho dentro da boca
E o umbigo é o rio que nos enlaça


Quando quiseres dizer que me amas: diz mãe
Mas não te esqueças com o mar nos lábios
Porque o amor dói como o sol em carne
O amor é morrer para ser outro.




manuel feliciano

AGOSTINHO DA SILVA

Agostinho da Silva


Podes, e deves, ter ideias políticas, mas, por favor, as «tuas» ideias políticas, não as ideias do teu partido; o «teu» comportamento, não o comportamento dos teus líderes; os interesses de «toda» a Humanidade, não os interesses de uma «parte» dela. E lembra-te de que «parte» é a etimologia de «partido».



Agostinho da Silva



quinta-feira, 21 de abril de 2011

MATÉRIA EVANESCENTE



Matéria Evanescente




Os teus olhos
Leio-os, até ao fim desse livro virgem
Desse mar do qual sou estranho
E dói-me o ruido dos pés
De feiticieiras ancestrais no absurdo dos muros que se prolongam
E o mole do beijo é tão duro.
O que sou? Pergunta-me uma noite de aço
Uma galinha sem crenças na lama.
A voz que sobeja por fora Sou tudo sem razão e ossos
E não consigo transbordar as margens. E o lábios não calculam o íntimo
E a memória rasteja a meio da ponte
Puta que pariu a máteri
Gritou-me uma voz de um tempo l
E vejo o eco da minha sombra
Nos corredores evanescentes da boca.
Nas massa muscular do corpo
E os galhos de árvores voando nas aves
Sou muito mais que esta terra velha e seca. Que a surdez dos operários
Que a imagem obsuleta e escura
Num vestidinho cor de rosa
Eu vejo como a água corre
No cantar dos frutos
Os olhos são um lugar que nada veem
Tenho as mãos tão sofregas por nada saber dos olhos
Senão dos raios que lhes engolo
Mas os olhos são um lugar de assombro
São quando te beijo
Um livro fora de todas as leis do tempo
Nas malhas da pele.
E eis que ela me esmaga com as coxas
Como se uma mão me arda mais além
E me mostre o incógnito voo. O que me dá a percepção de alguma vez ter visto.



Manuel Feliciano

A LUZ DO SOL DE DEUS




" A luz do Sol de Deus "

Estamos em tempo de Deus, ressuscitamos o exemplo de Jesus Cristo, que a luz do Sol de Deus ilumine e ensine o nosso caminho, que acenda o melhor das nossas almas. Não escolhemos o Sol ou a sombra, somos só o que no meio está, o reflexo do nosso contorno. Quando amamos, enganamos o Sol e a sombra, somos estrelas, incontornáveis, de um outro mundo. A luz da alma, quando amor se acende, é igual á luz do Sol de Deus.

Por: José Sottomayor
.





MEDO DE EXISTIR

Medo de existir




Há um medo ao longe dentro de mim
Que nasce fora de tudo
Como eu seja o longe e todas a coisas me gritem
Digam-me quem eu sou
Que eu estou cego de tudo
Num clarão das madrugadas
Quebrem todo o meu medo
Numa boca quente
Terna de misericordia
Como se uma sílaba me falte nos cabelos
E as reticências não cessem as fontes
Onde eu danço despido
Tão despido que só posso ser
Eu
Tu
Nós
Flor e sombra
Floresta e sol no moínho das tábuas
E o silêncio da eternidade
A refazer outra voz
Porque eu não sei de mim nem da coisas
Como as conheça
Como as sinta a palpitar
Numa voz que me arde no peito
Que eu sinto no crepúsculo da língua
E me esconde de um qualquer lugar
Que me abraça e descontroi
Tenho medo
Como a minha mãe comigo ao colo
Não seja mar
Lágrimas e sorrisos embrulhados nos dedos
Mel nas flores e nas abelhas
E o coração Estrelas com gotas de amor
Como se tudo isto não baste
E a maravilha não me arda na garganta
Como eu esteja em tudo e pense que é só deserto
Este braços grandes da matéria dos lagos
Tenho medo
Como se o cheiro te esconda por detrás
E te diga não com a boca enrolada em névoas
E um corpo nasça do nada
com o sol a querer espreitar.




manuel feliciano

O NASCIMENTO DA EMA

Ema e Xavier
Pequeno pensar de quando soube que ia nascer a Ema Sottomayor Moura...


Desce o Sol na Foz
e em nós,


a vida escreve
uma vida que vai nascer,


há um amor enorme
que aquece a alma,


vai nascer uma flor
de cor e calma.

Já nascem no céu
as cores da esperança,
nova vida que ri,
nova vida que dança.

É como se fosses ,Ema

o tudo de um poema,
que dentro de minh'alma
diz... valeu a pena.....Ema.


Beijinho,Xavier e Ema !!!

De JOSÉ SOTTOMAYOR





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Elton John - Can you feel the love tonight Live (Rare Video)



                       

Metallica - Nothing Else Matters [Original Video]

                           

quarta-feira, 20 de abril de 2011

POR JAIME MAIA

CHÃO DE MORTE

chão de morte




chorei a tua ausência noites a fio,
imaginei a dor de perder um filho na tua vez.
o coração mentiu-me…
fez-me crer verdade a mentira.
conspurquei a alma com pensamentos falseados pela ira
acumulada em todas as imagens visíveis.
gritei, desesperadamente, insultos
àquela morte única que tudo mata.
traí o amor!
fiz luto, como mulher de aldeia,
fechando o corpo à esperança
e os olhos ao colorido dos gestos.
desfiz a primavera com um sopro de raiva
fazendo morrer todas as flores desabrochadas,
pétalas cadáver da minha solidão.
 
     Por Luisa Azevedo


Foto de joão costa


terça-feira, 19 de abril de 2011

PÁSCOA

Pintura de Isabel Ribas
Páscoa




Pensas que amei essas lágrimas em cachos
A voz abrindo-se no útero das tábuas
As palavras nos ouvidos dourados das folhas
O coração sempre do mesmo lado
E os pregos no lugar dos dedos
As andorinhas ácidas na boca


E o amor de mãe em carne viva

Pensas que fiz uma vénia à múmia do mundo

A latejar de morte
E clamei pela casa desfeita
Num sorriso derrocado
E amei os gestos sem nenhum umbigo
Pensas que exaltei

As coxas da neve


Uma árvore despida
E as moedas de César
A espada que nada sabe da ternura
E os lábios que tudo sabem sobre a espada


Pensas que quis
Toda a brutalidade do homem
A podridão dos seus actos
Toda a alma suja e porca
Neste altar feito de esperança
Íngreme como um luar de Inverno

Quero que saibas ainda hoje que:

Vomito o chão e as suas visceras

Digo à brisa para expurgar o sal
À boca para não saber mais de si
Aos olhos para se envergonharem
Ao corpo para se desfazer nas nuvens
E ao sol que não traga consigo uma cruz
E o teu sangue que seja sempre uma flor a nascer
E a tua dor uma ave que quebre todo o céu rochoso!






manuel feliciano

MENSAGEM DE VITOR MARQUES






- Rebelião contra as aparências, contra as máscaras, conta os profetas das 
   desgraças...   PRECISA-SE

- Resistência ao auto flagelo, à resignação aos desertos de esperança...EXIGE-SE!


- Cultive-se a vida e o humanismo, contra a autofagia colectiva para onde nos empurram...URGE!


- Ame-se sem preconceito, desinteressadamente e com autenticidade...É IMPERATIVO!


- E, expire-se profundamente, de mãos dadas, o "perfume" de um olhar omnipresente, protector...


- PROCURA-SE A INOCÊNCIA...PROCURA-SE A UTOPIA-

ABRAÇO




Abraço, do meu braço,
estendo-te a mão,
das veias em ponta.
Estradas rubras para
o meu coração.

Luís Cambra

ADEUS DE EUGÉNIO DE ANDRADE

Eugénio de Andrade


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
Gastámos as mãos à força de as apertarmos,
Gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.


Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.


Adeus.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

"O CURSO DO CORAÇÃO"




Foto de Rui Videira


Não há compêndios
no curso do coração,
Para a alma,
há requerimentos
ao nosso Deus.
Para as boas almas,
mesmo que ressequidas
ou adiadas,
há mesmo um curso,
no discurso,
das Novas Oportunidades.
Há uma sebenta,
lisa,
lenta,
no livro das saudades.
No curso do coração,
não há diploma,
ou sentes,
ou não.




José Sottomayor

A SOMBRA DO SOL

Foto de Rui Videira


Trago na minha alma
Uma mulher tão magra e húmida
Que me crava enlouquecida os dentes de desejo.
E o meu gemido incendeia o escuro
É a minha dor é um cacho de uvas
E o meu silêncio é carnal e táctil
E eu beijo como quem desenha sem tinta
A estrada que só conhece a pele
Não nos nega nada e a terra é fértil.
Porque os lugares sou eu só que os faço
Porque a ausência é um corpo de astros
E um cheiro que sobeja estrelas.
E como nós dançamos em forma de barcos
E peixes zonzos vagueiam pelo sangue
E os meus olhos doem-me como úlceras
Eu trago-te toda em mim despida
E não ter nada é um orgasmo nas tuas coxas
E não ter nada é um sorriso de boca aberta
E não ter nada é o coração no mundo
E a pobreza em nós é toda chama
E o nosso estômago é um luar cheio de céu.




manuel feliciano

LAIVOS DA LIBERDADE




Foto de Rui Videira





A liberdade sabe-me a uma mulher cheia de frutos
E quando os toco
os saltos
abundam-me por inteiro na garganta.
E o tronco a desaparecer nos olhos é o sol
E o vestido a elevar-se em estrelas é uma brisa
E a unhas cravadas na carne é o céu
E os morangos esmagados entre os dentes
É um avião pousado na água
E a flor a abrir-se é um grito de ferro
Na popa azul de um navio
A culpa é do mundo
Pediram-me para ser livre lavrando os meus próprio ombros
Desenhando a vênus de cristal com o meu suor
Esculpindo desejos nas pálpebras douradas
Pediram-me para ser livre
Fazendo de conta que ela existe
E o meu corpo é toda uma gaiola aberta
E o meu pensamento é uma dançarina nas nuvens
E a liberdade é só para aqueles que brincam
Ainda com as mãos tenras de pétalas
Em asas desencontradas
E vão sempre em frente como quem se refugia no útero
Iguais a si mesmos
Contra palavras
E vozes
E gestos endurecidos na terra
E pensamentos atados aos cornos de um boi
Mordendo em arados.
Que em nada acendem este luar de Inverno!



manuel feliciano



TEMPO MORTO

domingo, 17 de abril de 2011

MORRESTE-ME

José Luis Peixoto

"...Descansa, pai, dorme pequenino, que levo o teu nome e as tuas certezas e os teus sonhos no espaço dos meus. Descansa, não vou deixar que te aconteça mal. Não te aflijas, pai. Sou forte nesta terra nos meus pés. Sou capaz e vou trabalhar e vou trazer de novo aqui o mundo que foi nosso. Vou mesmo pai. O mundo solar. Reconhecê-lo-ei, porque não o esqueci. E também o tempo será de novo, e também a vida. Sem ti e sempre contigo. A tua voz a dizer orienta-te, rapaz. Não se apoquente, pai. Eu oriento-me. Pai, não se preocupe comigo. Eu oriento-me. E vou. Anoitece a estrada no que sobra da manhã. Chove sol luz onde está o que os meus olhos vêem. A carrinha grande que prometeste, que planeaste para nós, que ganhaste a trabalhar meses, leva-me. Onde estás, pai, que me deixaste só a gritar onde estás? Na angústia, preciso de te ouvir, preciso que me estendas a mão. E nunca mais nunca mais.Pai. Dorme, pequenino, que foste tanto. E espeta-se-me no peito nunca mais te poder ouvir ver tocar. Pai, onde estiveres, dorme agora. Menino. Eras um pouco muito de mim. Descansa, pai. Ficou o teu sorriso no que não esqueço, ficaste todo em mim. Pai. Nunca esquecerei."
           DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO en  "MORRESTE-ME"

Mozart " Eine kleine Nachtmusik" Allegro

                       

Por Luís Cambra

AMENO-ERA (JOANA D'ARC)

                             

CARMINA BURANA - O FORTUNA| CARL ORFF ~ ANDRÉ RIEU

                       

sábado, 16 de abril de 2011

Á MÃE ROSA

À mãe Rosa


Ès a casa cheia de sol
A escorrer
Nos ninhos sobre os beirais
O refúgio das dores
As flores sobre o altar
Onde medito o teu nome de Rosa
Como se um Deus se abra em meu leito
Para te celebrar
É a origem da terra
Sem ti a montanha não se eregia aos céus
E os oceanos morrer-te-iam no colo
Porque tu és todas as coisas enlaçadas
Coisas que só existem porque tu és
Parte de mim
Origem de todas as coisas.


manuel feliciano

TRISTES PASSOS


Luisa Azevedo


caminho entristecidos passos.
deixo que a chuva me acaricie o corpo,
sedento dos teus dedos.
quero que confundas as adocicadas gotas
que nos meu rosto caem
com as lágrimas salgadas dos meus olhos
e entender quanto pesam as palavras
que te saem dos dedos como resposta.

Moonlight Sonata ( Beethoven )

Maria João Pires

                          

A AMIZADE

Luís Cambra

 L´amitiée 

A amizade é linda. Um valor a reter principalmente pelos que disso sentem necessidade para se enquadrarem com o mundo à sua volta. Quando for grande vou ter muitos amigos. Sejam eles comprados, alugados, emprestados e até livres de quaisquer ónus ou encargos. Alguém tem que medir o meu ser estar e parecer. E comparar, apoiar, emprestar e até dar o que me vai fazer mais falta para ser um igual entre os outros comparáveis.

Por Luís Cambra 14/04/201