Vestias a serenidade dos mortos. E aos mortos, pela sua serenidade, chego a achá-los perfeitos.
Despidos de expressão, desaparecidas as sobrancelhas serradas da tempestade em fúria; as lágrimas de uma primavera que parte; o sorriso, essa breve brisa numa ribeira... apagado enfim, o rasto de sonho indefinido...
o vazio tranquilo de uma linha simples e pura que habita eterna o silêncio dos tempos onde se apagam os sinais e a vida, essa efémera luminescência de absoluto, absorvida talvez, na serenidade tranquila da perfeição intuída que nos acompanha até ao fim.
E se depois do luto, esse intimo suspiro desencantado, ou choro infantil de criança perdida, se te venero a memória, encontro-te agora mais presente e mais poderosa(o) do que qualquer vivo.
Isto tudo porque, ao olhar-te o corpo inerte e vazio, nada mais vi do que um amontoado de carne despida de sentido. Uma acabada mortalha onde não coube o ter ser, que se aloja agora eterno, na memória que ti se fez.
Por MIGUEL BRAAMCAMP DE MANCELLOS

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