Praça do Chile
O Professor Abel
A loja Extra mudou a praça do Chile. "Então vamos lá por pontos", avança Abel Gandra, professor reformado com as ideias bem arrumadas, de 80 anos, 45 deles de vida no bairro."Ponto um: a loja acode às necessidades de pessoas como eu."Essas até vão ao supermecado, mas são "um pouco descuidadas". Há sempre alguma coisa que fica por comprar.
"Ponto dois", continua o professor, "a loja deu movimento à praça", que antes ficava deserta ao início da noite. As muitas pastelarias que lá há fecham cedo. O Chile não era mais do que um local de passagem.
Finalmente, o "ponto três": "Os sem-abrigo encontram aqui sempre um poiso e muitas pessoas alimentadas que daqui saem vêem-se na obrigação de lhes dar qualquer coisa"
Não são raras as vezes que o professor compra sandes para os sem-abrigo - a maioria são toxicodependentes - que estacionam à porta da loja. Esta está estrategicamente situada entre a Curraleira, um dos supermecados de droga de Lisboa, e a zona dos sem-abrigo do Intendente.
Já passa das 21,30 horas e Ventura está à porta da loja pedindo a quem entra que lhe compre um iogurte ou uma sandes. É uma boa estratégia, "30 por cento das pessoas colaboram", precisa. Tem 26 anos envelhecidos pela heroína e passa todos os dias por ali vinda da Curraleira. É que a fome só chega depois de "um gajo já se ter orientado". Numa hora, conseguiu quatro iogurtes. Pegou na sua "cama", umas caixas de cartão novinhas em folha, e partiu.
Uma mulher de olhos pisados, vestida de preto surrado e sotaque espanhol. convence facilmente um velho a comprar-lhe comida. A conversa arrasta-se, porque o homem diz que sim, que paga, mas está nitidamente a pedir qualquer coisa em troca da sua "caridade". Entram na loja e ela começa a encher o cesto com iogurtes, sumos, sandes. "Eram 500 escudos e afinal tenho que desembolsar mil", resmunga o velho. Os dois saem para a noite.
O professor Abel deu aulas na Curraleira e conhece todas as histórias de droga, miséria e solidão da zona. Passa o dia na rua, na Praça do Chile, sentado onde bate o sol e só à noite é que vai para casa ler jornais. "Se eu hoje tivesse 18 anos, não sei se não seria toxicodependente. Criticar é fácil". Difícil é viver.
Publicado em 15 de Setembro de 1996 "Revista Pública -Artigo "A Geração Extra"
Amarante, 15/09/1996
"O Professor Abel"
Estou num café calmo, onde costumo ler o jornal. É um domingo tristonho como tantos os outros. Leio a "Pública" e vejo um artigo sobre a "geração extra". Leio duas vezes o nome que soa bem - Abel Gandra - e começo a sentir que não estou enganada. É Ele mesmo (há 25 anos que o não via)!... O meu Director, o meu querido Director! Toda eu sou angústia. Paro e recordo-o com saudade. Em pensamento revejo aquele rosto que jamais esqueci, bondoso e justo, Tenho saudades! Era um tempo longo, onde fazíamos coisas bem feitas e de respeito. Havia alegria e eu sentia-me bem naquela Escola Preparatória de Bento Carqueja, em Oliveira de Azeméis, com uma entrada, com um patamar e três degraus.
Não me cansava de o ouvir. Tive sempre o fascínio pelas pessoas inteligentes e gostava do diálogo que tinha com os meninos - aqueles meninos de ouro - com que ternura era dada um repreensão. Autênticos mimos. Com que respeito eu meditava em tudo o que ouvia. Era um ensinamento para mim. E ainda continua a ser.
Agora, aqui estou eu, vivendo de saudades, e no meio desta confusão toda, sinto-me inexistente. Assiste-se a uma inversão generalizada de valores: é-se apreciado pelo que se diz, não pelo que se faz, é-se retribuido pelo que se exibe, não pelo que se aprofunda. Estoira-se de angústia mas afirma-se que tudo vai bem.
Difícil é viver....
Acabo esta carta com a mesma frase que terminou. Uma lágrima rolou sobre a minha face pela minha impotência e a minha pequenez para lhe dizer da minha gratidão e do meu amor....
Aceite um beijo na sua face querida
Respeitosamente,
Maria Antónia
P.S.-Estou a chefiar a Escola Prepartória de Teixeira de Pascoaes, em Amarante, para onde foi transferida de Oliveira de Azeméis e por aqui fiquei....
Esola Prepartória Teixeira de Pascoaes - 1972

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