sábado, 8 de dezembro de 2012

NETOS

Afonso Manuel



NETOS

Pequenos,
Lindos,
Sapecas...
Capazes de gerar ondas borbulhantes,
De extrema felicidade,
De amor e de paz,
Quando falam minha avó...
Ou simplesmente vó...
Vó é palavra mágica,
Feita de favos de mel,
Por fadas do bem querer.
Ser avó é ter desejos de mudanças,
Aceitar pacificamente as mudanças dos desejos...
É quebra de paradigmas.
Conquista de novos olhares,
São diferentes visões de mundo,
Num mundo mais colorido,
Feito de pura emoção que segue a cada momento,
A cada dia a explodir de prazer o coração,
De excesso de emoção...
As avós sabem que,
Netos não podem sofrer...
Também não podem chorar...
Mas,
Como fazê-los crescer?
Amadurecer?
O limite tem a dimensão de refrear o que é inadequado, o que é indevido.
Limite é palavra dolorida, mas tem relação com a boa educação.
Limitar é educar.
Mas, como permitir o apropriado, o limitante, sem partir o coração?
Vó...
Palavra que corrompe as certezas incondicionais,
Que anula a percepção sobre:
O que é certo?
O que é errado?
Vó...
É palavra indescritível.
Amar os netos faz-nos enxergar os erros educativos como acertos do coração.
Fazem-nos transgredir sem nenhuma reflexão, sem nenhuma intimidação,
Ser avó serve para despedaçar a autoridade dos pais sem a menor cerimônia.
Vó...
Quando as avós avistam os netos, esquecem como educaram os filhos.
Afinal, não são filhos, são netos.
Eles beijam, abraçam e dizem com toda sinceridade...
-Minha avó linda... Eu estava com saudades de você, viu vó?...
Acredito que todos os netos foram criados pelas Mãos Divinas
Num momento de traquinagem de Deus.


Maria José Azevedo Araújo

sábado, 24 de novembro de 2012

HABITAS-ME

Foto de Francesco Izzo




De um só quarto
No alto de uma falésia;
Como a ventania


Irrompe na floresta, cavando clareiras
Ou devagar vai esculpindo luas
Nas areias.


FERNANDO DE JESUS FERREIRA





Fernando De Jessus Ferreira

UM RESTO DE DIA LINDO

Foto de Pedro Sottomayor

Um resto de dia lindo.....

na Granja...
praia da.....

esse mar agreste,
desses rochedos forma.formatando.....


do Eça essa prosa imensa brotando,
da Sophia os sentimentos enormes de falando.amando...


de mim,

um simples beijo...celebrando...

a linda Granja,

guardando as seus belos tão seres,

nesse mar agreste.justo,
desses seres tão belos...infindos...


JOSÉ SOTTOMAYOR

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

SER CRIANÇA





Foto de Acácio Costa

SER CRIANÇA

Sorri, sorri
Guarda a tua lança
Sorri, sorri
Eu sou uma criança!...

Tu és adulto!...
Olha o meu sorriso rasgado,
Olha nos meus olhos
Esbugalhados clamando
Pelo teu amor
Que às vezes me é negado!...

Tu és adulto!..
Eu sou criança!...
Somos iguais
Desde a nascença
Com uma diferença:

Tu dependes de ti
Eu dependo de ti
Do teu alimento
Que me deixes viver
Com os meus direitos
De poder crescer,
Brincar, aprender
Ter o teu respeito
E o devido sustento!...

Sorri, sorri
Eu não tenho lança
Sorri, sorri
Eu sou só uma criança!...

( Acácio Costa)

DESPERTA-ME DE NOITE







Desperta-me de noite
O teu desejo
Na vaga dos teus dedos
Com que vergas
O sono em que me deito

É rede a tua língua
Em sua teia
É vício as palavras
Com que falas

A trégua
A entrega
O disfarce

E lembras os meus ombros
Docemente
Na dobra do lençol que desfazes

Desperta-me de noite
Com o teu corpo
Tiras-me do sono
Onde resvalo

E eu pouco a pouco
Vou repelindo a noite
E tu dentro de mim
Vai descobrindo vales.

MARIA TERESA HORTA, in Poesia Reunida (D. Quixote, 2000)

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

É OUTONO



O meu filho


POSTAL

Chovem pais e filhos sobre os campos,
terrenos de árvores húmidas, outono.
Os pais tentam sempre proteger os filhos,
essa é a natureza que corre nas árvores,
essa é a lei e esse é o sentido. É outono
e não poderia ser outra estação, começou
o frio e a fome, olho a força dos campos
pela janela submersa deste último outono
e compreendo por fim a minha idade:
chovem pais e filhos de mãos dadas.
Lá longe, sou pai. Lá longe, sou filho.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)




Foto do Zito

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O OUTONO




Foto do Zito

O OUTONO


Eu gosto do Outono. Gosto por inúmeras razões mas sempre que tento individualizá-las a beleza da estação esvazia-se e perde aquilo que eu denomino de alma-outonal. É deste conjunto que o constituem, que eu me alimento, me invento e me comovo.O Outono assemelha-se bastante com a vida. Há nele uma espécie de sabedoria e experiência.A precariedade do Outono é uma lição de seriedade pelo retrato que nos dá da fragilidade da vida e da não estabilidade da mãe-natureza. O Outono ainda floresce mas o seu elemento excepcional é a cor e a penumbra, os efeitos e os matizes da luz quebrada no entardecer...Há um silêncio que murmura, há vozes sussurradas, palavras ciciadas saídas talvez das folhas que agora são dança em jeito de despedida, dançarinas de cores. E nós olhamos uma árvore e outra e outra e todas elas na sua majestade, sentadas nos seus tronos reais, deixam passar a brisa, deixam bailar as folhas, deixam-se ser...São as atitudes anímicas do Outono que nos prendem através da cor, são os sons da sensualidade na dança das folhas quando sem aviso e quase perdido de tamanho êxtase, o sol se passeia vestido de uma luz de cristal em cores púrpuras de seda brilhante...O Outono é especial - ilumina a alma.

Maria Antónia





Maria Antónia






domingo, 14 de outubro de 2012

TEORIA SENTADA







TEORIA SENTADA

Um lento prazer esgota a minha voz. Quem
canta empobrece nas frementes cidades
revividas. Empobrece com a alegria
por onde se conduz, e então é doce
e mortal. Um lento
prazer de escrever, imitando
cantar. E vendo a voz disposta
nos seus sinais, revelada entre a humidade
dos corpos e a sua
glória secular. Uma dor esgota
a idade, com cravos, da minha voz.
E eu escrevo como quem imita uma vida e a vida
de uma inconcebível
magnitude. Ou somente de uma
voz. Um lento desprazer, uma
solidão verde, ou azul, esgota por dentro e para cima,
como um silêncio, o antigo
de minha voz.

O que digo é rápido, e somente o modo
de sofrer
é lento e lento. É rapidamente fácil e mortal
o que agora digo, e só
as mãos lentamente levantam o alcool
da canção e a formosura
de um tempo absorvido. Digo tudo o que é
mais fácil da vida, e o fácil
é duro e batido pela paciência.
Porque a terra dorme e acorda de uma
para outra estação.

Porque vi crianças alojadas nos meus
melhores instantes, e vi
pedaços celestes fulminados na minha
paixão, e vi
textos de sangue marcados desordenadamente
pelo ouro. Porque vi e vi, na saída
de um dia para o começoda primeira noite, e no despadaçar da noite.
E porque me levantei para sorrir
e ser cândido. E porque então
estremeci com a rapidez das palavras e a quente
morosidade
da vida. Eu disse o que era fácil
para dizer e eu tão
dificilmente havia reconhecido. Porque eu disse:
um prazer, um pesado prazer de cantar
a vida, consome a única voz
de uma vida mais sombria e mais funda.
E eu mudo sobre este campo parado
de cravos, quando a lua
rebenta, quando
sóis e raios crescem para todos os lados do seu
fulminante país.

Alguém se debruça para gritar e ouvir os meus
vales
o eco, e sentir a alegria de sua expressa
existência. Alguém chama por si próprio,
sobre mim, em seus terríficos confins.
E eu tremo de gosto, ardo, consumo
o prnsamento, ressuscito
dons esgotados. Escrevo à minha volta,
esquecido de que é fácil, crendo
só no antigo gesto que alarga a solidão contra
a solidão do amor.
Escrevo o que bate em mim - a voz
fria, a alarmada malícia
das vozes, os ecos de alegria e a escuridão
das gargantas lascadas. Para os lados,
como se abrisse, com a doçura de um espelho
infiltrado na sombra. Fiel
como um punhal voltado para o amor
total de quem o empunha.

Alguém se procura dentro do meu ardor
escuro, e reconhece as noites
espantosas do seu próprio silêncio. E eu falo,
e vejo as mudanças e o imóvel
sentido do meu amor, e vejo
minha boca aberta contra minha própria boca
numj amargo fundo de vozes
universais.

Alguém procura onde eu estou só, e encontra
o campo desbaratado
e branco da sua
solidão.


HERBERTO HELDER




Herberto Helder

A VIDA É RESISTIR E VIVER





Rua da Saudade de José Sottomyor


A vida
não é ter feito,
é fazer.

A vida
já não é exisistir
existido,
é resistir
e viver.

Desnudando,

Se eu pudesse
guardava-te,

aconchegada,

...no meio
das minhas mãos,

essas mãos
com que escrevo
as páginas
do meu caminho,

essas mãos
com que afago
a luz do dia...

Se eu pudesse,
que posso,

guardo-te,
quentinha
e feliz,

na nossa próxima alegria

José Sottomayor



José Sottomayor

PRECE





Prece...

Quando a voz em mim se cala...há no meu olhar uma prece
Que murmuro em silêncio...que solto á noite e grito à vida
Quando no meu frio corpo...tristemente a saudade anoitece
Choro por mim...choro-me de tão vazia...tão só e perdida

Aproxima-se a noite...solto os meus medos...afago a solidão
Tateio o meu rosto na madrugada...procuro-me nos poentes
Minuto a minuto...amortalho a vida no desvanecer da ilusão
Sepulto as pétalas que escorrem dos meus braços dormentes

Fui acomulando pedras no caminho...fui polindo as mágoas
Esculpindo silêncios na noite...sarando as feridas dia a dia
Procurando-me no tempo...bebi em segredo todas as lágrimas
Arrastei-me nas margens do abismo...de corpo e alma vazia

Guardo a mágoa no peito...os desenganos nos sonhos perdidos
Prendo o vazio nas mãos...as tempestades no corpo dormente
Caminho à deriva...voo sem rumo por entre ecos adormecidos
Sou o resto dum destino incerto...dum futuro de mim ausente

No grito de todos os silêncios...em tristes versos me escrevo
A preto e branco me desnudo...me entrego de corpo e alma
Num cálice de solidão...me derramo em poesia...me bebo
Perdida e sem rumo...vagueio na escuridão da noite calma

No meu corpo jaz um poema...um eterno poema de amor
Vestido de solidão...amortalhado e enterrado no meu peito
Entre a sombra e o silêncio...canto neste verso a minha dor
Escrevo o que de mim restou...canto a noite onde me deito

 ROSAMARIA





RosaMaria

SE EU PUDESSE






Se eu pudesse,


o mundo

não teria

paredes,

abismos

e bombas,



as crianças

correriam

saltando

sempre

como anjos,



as lágrimas seriam proibidas,



e até mesmo viver

seria obrigatório.


José Sottomayor

terça-feira, 2 de outubro de 2012

ABRAÇA-ME









Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele
e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos.
Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser
este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida
na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos
para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas.
Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti
eu possa buscar o sentido dos sentidos, o sentido da vida.
Procura-me com os teus antigos braços de criança
para desamarrar em mim a eternidade, essa soma formidável
de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram.
Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor.
Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos,
para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros
pequeninos. Só essa água fará reconhecer
o mais profundo, o mais intenso amor do universo,
e eu quero que dele fiquem a saber
até as estrelas mais antigas e brilhantes.
Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais.
Uma vez que nem sei se tu existes.


JOAQUIM PESSOA in ANO COMUM
(Introd. de Robert Simon; Posf. de Teresa Sá Couto)
Litexa Editora, 2012




 Joaquim Pessoa

DEIXEM-ME GRITAR AO VENTO





Deixem-me gritar ao vento..

Deixem-me derrubar muros...gritar ao vento a minha vontade
Ser mulher e ser amante...vestida de cetim...ser luar de desejo
Deixem-me escrever um poema sem regras...amar sem idade
Adormecer nos meus lábios o teu corpo...inventar a eternidade

Deixem-me soltar este amor que me prende...que doi e magoa
Hoje quero gritar...extravasar o fogo que meu corpo consome
Deixem-me soltar ao vento este anseio...esta sede...esta fome
Ser mulher sem amarras...saciar o desejo que em mim ecoa

Deixem-me dizer que quero...que desejo...que sou urgência
Que quero o beijo que me queima...o corpo que me chama
Deixem-me gritar bem alto...soltar os diques desta demência
Despir-me desta pele...envolver-te nesta boca que reclama

Deixem-me soltar os sonhos que calei os desejos que amordacei
O amor que não fiz...os beijos que não dei...os braços sem mim
Deixem-me ser a perdida...nas vielas escuras onde me inventei
Na noite onde me enclausurei...me chorei...na mágoa que bebi

Deixem-me ser desejo e loucura...confundir o dia com a noite
Dizer que estou aqui sem hora marcada...ser mulher sem tempo
Deixem-me ...inventar-me e perder-me...caminhar sem norte
Ser anjo e demónio...morrer e renascer...no meu corpo sedento

Deixem-me desprender das minhas mãos os sonhos no céu voar
Escrever desejos no teu corpo...despir-me dos meus cansaços
Deixem-me falar da solidão onde anoiteço...do amor por amar
Dos meus medos...dos segredos...da ternura dos meus braços

Escrito por: ROSA MARIA



Rosa Maria

COMO NUVENS LENTAS DO OUTONO




Foto de José Sottomayor



As confidências demoram-se no céu da boca

como as nuvens lentas do Outono. Sopro-as,

para que o céu se limpe e apenas uma névoa vaga

se cole ao que me queres dizer; mas

encostas-me os lábios ao ouvido e tu, sim,

é que me contas que céu é este, e de onde

vêm as nuvens que o cobrem. Sentimentos,

emoções, paixões, interpõem-se entre

cada frase. Nem há outros assuntos

quando nos encontramos, e me começas a falar,

como se fosse o coração a única

fonte do que dizemos.


NUNO JÚDICE
in POESIA REUNIDA

APERTO A TUA AUSÊNCIA





uma marca indelével penetra-nos o coração
esvai-nos a razão
eterniza o gesto do teu olhar
e a mão que me afagava a melancolia

o teu rosto abraça-me fundo o passeio pelos dias de espuma brilhante
que se retira recolhendo o corpo fluido e vítreo
à beira sol

e aperto a tua ausência contra o peito
e foges na sombra do desespero
deixas-me com os olhos entornados na ternura do teu amor

Fernando de Jesus Ferreira



TÃO CURTO O TEU REGRESSO....


Boa...muito boa...noite...queridos amigos.
Peço desculpa deste tão grande,inesperado e triste... silêncio.
Não é meu hábito...muito menos,meu gosto.
Uma pequena,grande,avalanche de acontecimentos...
deixou-me sem palavras...
o ingrediente da vida que mais aprecio...
sem o qual sou fome...
sem o qual sede sou...

Não estou,
própriamente,
de regresso,
porque
continuo
sem computador
pessoal.

Não posso,
é deixar sem sentido
a vossa maravilhosa expressão de saudade,
o vosso toque carinhoso em mim
que nunca esquecerei.

Logo que puder,
responderei a cada um,
com todos os bocadinhos
que o meu coração saiba explicar

JOSÉ SOTTOMAYOR


DIA 191





Joaquim Pessoa



DIA 191

A música, a arte, a poesia, a esperança, a insónia, não podem
existir sem o amor.  E sem o amor pelo amor.  Como quando
perdemos a nossa mãe e, desesperadamente, por amor, pro-
curamos lembrar a claridade de um rosto que aos poucos vai
perdendo os seus contornos.
O que pode ajudar-nos na busca da maravilhosa transforma-
ção das ideias, nesse útero divino a que chamamos pensamen-
to, é o achamento do Graal, quero eu dizer, a resposta à per-
gunta: o que fazer com o amor?
Em cada caçador existe amor pelo animal caçado.  
Em cada animal sacrificado, mais que resignação, há respeito
pela mão que o executa. Pelo amor à vida, com o amor que a
vida nos reclama. Viver é fazer amor.
Do caminho escolhido, da nossa vontade, dos nossos gestos,
do nosso talento e da nossa capacidade para decidir, serão me-
lhores ou piores os nossos filhos. Tal como nós, os que amam
o amor, os que morrem de amor, e também aqueles que nunca
o encontraram e ainda os que, sendo abençoados por ele, nem
por um momento o souberam reconhecer.


 JOAQUIM PESSOA

in ANO COMUM 

POEMA XX


Pablo Neruda


Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Escrever por exemplo:
A noite está fria e tiritam, azuis, os astros à distância
Gira o vento da noite pelo céu e canta
Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Eu a quis e por vezes ela também me quis
Em noites como esta, apertei-a em meus braços
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito
Ela me quis e as vezes eu também a queria
Como não ter amado seus grandes olhos fixos ?
Posso escrever os versos mais lindos esta noite
Pensar que não a tenho
Sentir que já a perdi
Ouvir a noite imensa mais profunda sem ela
E cai o verso na alma como orvalho no trigo
Que importa se não pode o meu amor guardá-la ?
A noite está estrelada e ela não está comigo
Isso é tudo
A distância alguém canta. A distância
Minha alma se exaspera por tê-la perdido
Para tê-la mais perto meu olhar a procura
Meu coração procura-a, ela não está comigo
A mesma noite faz brancas as mesmas árvores
Já não somos os mesmos que antes havíamos sido
Já não a quero, é certo
Porém quanto a queria !
A minha voz no vento ia tocar-lhe o ouvido
De outro. será de outro
Como antes de meus beijos
Sua voz, seu corpo claro, seus olhos infinitos
Já não a quero, é certo,
Porém talvez a queira
Ah ! é tão curto o amor, tão demorado o esquecimento
Porque em noites como esta
Eu a apertei em meus braços,
Minha alma se exaspera por tê-la perdido
Mesmo que seja a última esta dor que me causa
E estes versos os últimos que eu lhe tenha escrito.

(Pablo Neruda)

DANÇA-ME






DANÇA-ME


dança-me na ponta dos teus dedos
e desabita-me dos meus fantasmas

sussurra-me os segredos das casas brancas

e habita-me na noite de todos os segredos

dança-me. dança-me na ponta dos teus dedos
e remove-me a seda dos olhos e dos medos

habita-me nas zonas escuras das mãos

e leva-me ao sol dos dias e à rosa-chá da emoção

habita-me na noite de todos os segredos

e desabita-me 

de mim 

e do esquisso dos meus medos

susana duarte



Susana Duarte

domingo, 30 de setembro de 2012

RITUAL DO AMOR






RITUAL DO AMOR

I

A fímbria do vestido
a fenda do vestido

As pernas cruzadas
na racha entreaberta

Os braços erguidos
e o vestido
subido nas coxas que já despe

II

Depois é a penumbra
e o vestido
a tirar pela cabeça
amarrotado

As mãos abocanhando
o cimo do vestido
no desatino - na pressa
que as invade

Acesa a carne
no ócio dessa tarde
liberta enfim da seda do vestido

que em vez de seda é sede
e é a tarde
acesa enfim no corpo sem vestido

III

A fímbria do vestido
a fenda do vestido

na febre em que
se despe
e é tirado
no hálito do quarto

ou atirado
e cai devagar
depois de ser despido

IV

Aos pés
está o vestido
amachucado

depois os joelhos no vestido

as coxas brandas e doces
no tecido
que vai cedendo ao gosto dessa tarde

V

A fímbria do vestido
a fenda do vestido

que se ergue
do chão
amarfanhado

o vestido que mal foi despido
conheceu do corpo
o peso do seu acto

VI

Assim volta à maneira
de vesti-lo
tornar a descê-lo pelos braços

cortando logo a tarde
e a ternura
perdida na penumbra desse quarto

VII

Quanta saudade
da seda do vestido
que à pele adere
num outro abraço

Baraço entorpecido
nos sentidos
secreta maneira
de tolher os passos

VIII

A fímbria do vestido
a fenda do vestido

Já só memória
o corpo todo
nu

Dissimulado agora pelo vestido
que os dedos abandonam
um a um

IX

A fímbria do vestido
a fenda do vestido

que o gesto alisa
ao descer o fato

Vestido que na fímbria
ainda é vestido
mas não na fenda
onde já se abre


MARIA TERESA HORTA, in AS PALAVRAS DO CORPO

EU SEI QUE ESTÁS AQUI





Foto de José Sottomyoa


Esvoaçam beijos roubados no jardim de nós,
pequenas folhas escrevem o chão da terra dos tempos,
fazem carinhos na tua face,esvoaçam-se ao som da tua voz,
há um pássaro pousado nas lágrimas da vida,aguardando os ventos.

Eu sei que estás aqui,
deita-te ao meu lado.

Abraço-te,
sinto o teu coração.

Beijo-te,
sinto o teu sabor.

Entrego-me
em ti,
morro e nasço,
em ti,

sentindo-te,
guardada,
em mi

José Sottomayor





José Sottomayor



UMA OUTRA MÃE CORAGEM

Interpretação - MÃE CORAGEM


uma outra mãe coragem

à mãe
à alta bela e longilínea camarada maria 
a do coração de oiro
que lhe saía à rua
na pura expressão
do seu rosto
.
fez hoje dois anos
que a camarada
maria -minha mãe-
partiu
.
a vida continua
e temos que
(a)
viver
.

existe
uma forma
de (a) amar
e honrar
(é)
vivendo
intensa/
mente
.
ela gostava -gostou sempre-
da minha forma
de viver e
estar
.
mas bate(m)-me ainda
com muita intensidade
as saudades
dela
..............................
entendo-te perfeitamente
tão linda mulher
e belo ser
era
..............................
ela
gostava -muito-
de ti camarada
..............................
e eu dela e talvez
nunca lho tenha
dito
como deveria
tê-lo/a
feito
ressentir
..............................
não te preocupes com isso
porque acho que
todos
nós sabemos -cá dentro-
quando os outros
nos amam
ou gostam
de nós
.
-no fundo-
sentimos todos
essas
coisas
.
ela sabia
que tu gostavas
dela
.
e ela gostava
mesmo
de
ti

rapaz
.
fi/mj



Filipe Chinita

sábado, 29 de setembro de 2012

É OUTONO




Foto dr Rui Videira




É OUTONO!...

A chuva cai na avenida!....
Paira no ar uma certa melancolia
de mais um verão que findou.

Solto um ai à chuva que cai
e ao aconchego deste dia,
em que o outono chegou!...

Este guarda-chuva vermelho,
Onde te acoito, amor,
tem motivos de alegria
por cobrir quem sempre amou!...

(Acácio Costa).

TENHO TANTA NECESSIDADE DE TER ALGUÉM A QUEM DIZER "AMO-TE"

Eu



Tenho tanta necessidade de ter alguém a quem dizer "amo-te"... Ter alguém com quem possa dialogar, abraçar, beijar e dar as mãos.
Preciso de ir para a cama e pensar em alguém quando me deito.Sonhar...e ter alguém que me dê vontade de olhar para o dia em cada manhã. Acordar feliz. Que essa felicidade exista dentro da minha alma.Arranjar-me e vir para a rua com vontade de sorrir para todas as pessoas.
Talvez por isto, eu tenha tido, ao longo da minha vida, algumas grandes paixões, mesmo que platónicas. O que quero dizer com isto, é que consigo idealizar um grande amor... mesmo sem o viver.
Pela primeira vez na vida, aconteceu-me um amor destes... correspondido do outro lado. Eu digo-lhe palavras.... e recebo outras em troca.
Mas não são apenas palavras, são sentimentos reais.
Talvez "amor" seja uma palavra forte de mais, mas é um carinho imenso, uma ternura sem fim, uma amizade muito forte, um desejo que tento reprimir...por não o ver, nem o tocar e nem sequer dialogar e olhar os seus olhos. Só palavras escritas.
É um amor que já dura há muitos meses, que tem momentos lindos, felizes e partilhados.
Por vezes, sinto-me perdida, queria mais!... e  tenho momentos que me custa aceitar que isso não seja possível. 

Sinto-me aconchegada nos braços dele, mesmo que seja só à distância. E prefiro tê-lo assim, meu, só nas palavras, a não o ter...Sinto-me muito feliz.

Porque tenho necessidade de ter alguém a quem dizer "Amo-te"....






NASÇO EM TI






Nasço em ti


nasceste-me,
desaguando olhares sobre as estrias da noite,
onde se demoram alucinações e sonhos desiguais,

onde demoras o ventre sobre as costas e nadas,
soluçando gritos e deixando transparecer a noite

onde me nasceste.

nasceste-me,
ventre renascido de águas azuis e flores silvestres,
framboesas do meu rosto e odor frutado de corpos
floridos.

nasceste-me,
onde a noite se fez água entretecida nas margens,
olhos das areias onde passeei ondas gigantes, levantadas
da raíz e do tronco da vida,

nascendo-me
nas horas claras das luzes impressas nos dedos,
imprecisas e paradoxais como o sonho, onde movo
as mãos e me encontro

em ti.


susana duarte

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

ESPELHO MEU


ESPELHO MEU! 

Eu existo e eu sou eu.
Há dias que mal sou eu,
mas existo.

Há dias em que sou muito eu
e mal existo.

Há dias que não sou eu
e existo, porque penso.

Mas seja lá como for,
como penso, existo
e eu sou eu,
todos os dias
com o meu escopro
gravo no eu que existe
mais um sulco
do eu que eu quero
que tu me mostres
espelho meu
enquanto exista!...

ACÁCIO COSTA

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

JURO





Foto de Acácio Costa

Juro.

Se me amasses
E te desses a mim,
Eu dar-te-ia um lugar
Dentro de mim,
Onde terias felicidade
E matarias essa tua ansiedade
De amares de verdade.

Acácio Costa




Acácio Costa

RAÍZES




Susana Duarte


Raízes


sê sempre o vento gentil que me derruba as folhas,


sem me derrotar as águas; o ventre que me colhe

e as árvores inquietas, que se agitam sob os sóis

das horas navegantes. sê, da noite, as horas todas

e, do dia, a luz frágil da eternidade mareada, rasante,

onde os dedos se tocam em lugares azuis. mares.


é de mar, o teu nome.

xamã das minhas flores.

susana duarte

PERDÃO





Acácio Costa

Perdão!...

Perdão, 
por me ter ido embora,
te ter deixado no leito,
sem sequer dizer adeus!...

Perdão,
mas não o podia fazer
sem primeiro lhe dizer
que é a ti que eu amo
e do mais fundo do meu peito
que é contigo que quero viver
até ao resto dos meus dias!....

Perdão, Julieta,
mas não tenho mais lágrimas
para tinta da minha caneta!...


 ACÁCIO COSTA






QUANDO O SOL SE PÕE NO CANTO DA JANELA


















QUANDO O SOL SE PÕE NO CANTO DA JANELA


quando o sol se põe no canto da janela, penso que fico triste
penso que acabou
e fico triste, porque penso que a tristeza vai acabar

e então pego no canto, na janela, no sol
e ponho a janela no canto do sol

passa o pássaro despassarado e desenha uma linha aguda no azul do céu
(obviamente)

e os meus olhos vão dar um mergulho nas ondas de uma mulher que acabou de os arrancar do torpor

FERNANDO DE JESUS FERREIRA

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

ESPERAR



Foto de José Manuel Fernandes

ESPERAR

esperar
o sopro na nuca
as mãos na extremidade pura do sentir
esperar
o aperto líquido e fundo
bocas de línguas oblongas extáticas
esperar
a carícia contemplativa do mar
corpos perdidos no lá bem ao fundo do dia
esperar
o amante derramado no desejo perdido no quotidiano
e abraçá-lo até de manhã
como se noite não tivesse havido
e depois
o corpo rodasse na indiferença da uma maçã

FJF





Fernando de Jesus Ferreira


sábado, 15 de setembro de 2012

OFEREÇO-TE PALAVRAS


Maria Antónia Anacleto


OFEREÇO-TE PALAVRAS

Se terminar este poema, partirás. Depois da
mordedura vã do meu silêncio e das pedras
que te atirei ao coração, a poesia é a última
coincidência que nos une. Enquanto escrevo
este poema, a mesma neblina que impede a
memória límpida dos sonhos e confunde os
navios ao retalharem um mar desconhecido



está dentro dos meus olhos – porque é difícil
olhar para ti neste preciso instante sabendo que
não estarias aqui se eu não escrevesse. E eu, que



continuo a amar-te em surdina com essa inércia
sóbria das montanhas, ofereço-te palavras, e não
beijos, porque o poema é o único refúgio onde
podemos repetir o lume dos antigos encontros.



Mas agora pedes-me que pare, que fique por aqui,
que apenas escreva até ao fim mais esta página
(que, como as outras, será somente tua – esse



beijo que já não desejas dos meus lábios). E eu, que
aprendi tudo sobre as despedidas porque a saudade
nos faz adultos para sempre, sei que te perderei



em qualquer caso: se terminar o poema, partirás;
e, no entanto, se o interromper, desvanecer-se-á
a última coincidência que nos une.



Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

SÚPLICA








SÚPLICA


ouve-me nos movimentos das pálpebras,
onde é sonora a ausência em que habito;
onde se espraiam vozes sumidas; onde
vivem giestas, e piam aves estranhas...


olha-me nos recantos da paixão antiga,
e desnuda-me os ombros de aurora. sê
inteiro, marinheiro das minhas águas e
cálida emoção que se derrete no calor
das minhas lágrimas antigas. sê a luz
onde tudo, dantes, era ilusão de néon.

ama-me. e devora-me os olhos e a boca
e os braços com que te cerco e sinto.

sente, de mim, a lágrima de luz coberta
de seda, onde te deitas e recobres de ser
marinheiro da minha sede. ama. em mim,
encerra as noites de aves estranhas, sê
luz ansiada-procurada-antes interdita. e

ama-me

susana duarte



Susana Duarte 



ASSIM QUE TE QUERO



ASSIM QUE TE QUERO

É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.

Pablo Neruda

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

ENCONTRO








Deixe passar este periodo
de maior instabilidade
e vamos encontrar
mesmo!

Não há dúvida
que bom é ver
um rosto
uns olhos
um todo!

Porque nós não somos só palavras
somos um todo
e quando falamos
todo esse todo
fala.

Fica completo o diálogo
.
Temos de ir tomar um café juntos...
um dia... vamos gostar!

Eu não bebo café
mas vou beber as suas
palavras...

Palavras de poeta!
.
Será uma amizade possível
e a amizade é só
é o melhor
que há!
.
t.
FILIPE CHINITA