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| Joaquim Pessoa |
DIA 191
A música, a arte, a poesia, a esperança, a insónia, não podem
existir sem o amor. E sem o amor pelo amor. Como quando
perdemos a nossa mãe e, desesperadamente, por amor, pro-
curamos lembrar a claridade de um rosto que aos poucos vai
perdendo os seus contornos.
O que pode ajudar-nos na busca da maravilhosa transforma-
ção das ideias, nesse útero divino a que chamamos pensamen-
to, é o achamento do Graal, quero eu dizer, a resposta à per-
gunta: o que fazer com o amor?
Em cada caçador existe amor pelo animal caçado.
Em cada animal sacrificado, mais que resignação, há respeito
pela mão que o executa. Pelo amor à vida, com o amor que a
vida nos reclama. Viver é fazer amor.
Do caminho escolhido, da nossa vontade, dos nossos gestos,
do nosso talento e da nossa capacidade para decidir, serão me-
lhores ou piores os nossos filhos. Tal como nós, os que amam
o amor, os que morrem de amor, e também aqueles que nunca
o encontraram e ainda os que, sendo abençoados por ele, nem
por um momento o souberam reconhecer.
JOAQUIM PESSOA
in ANO COMUM

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