domingo, 30 de setembro de 2012

RITUAL DO AMOR






RITUAL DO AMOR

I

A fímbria do vestido
a fenda do vestido

As pernas cruzadas
na racha entreaberta

Os braços erguidos
e o vestido
subido nas coxas que já despe

II

Depois é a penumbra
e o vestido
a tirar pela cabeça
amarrotado

As mãos abocanhando
o cimo do vestido
no desatino - na pressa
que as invade

Acesa a carne
no ócio dessa tarde
liberta enfim da seda do vestido

que em vez de seda é sede
e é a tarde
acesa enfim no corpo sem vestido

III

A fímbria do vestido
a fenda do vestido

na febre em que
se despe
e é tirado
no hálito do quarto

ou atirado
e cai devagar
depois de ser despido

IV

Aos pés
está o vestido
amachucado

depois os joelhos no vestido

as coxas brandas e doces
no tecido
que vai cedendo ao gosto dessa tarde

V

A fímbria do vestido
a fenda do vestido

que se ergue
do chão
amarfanhado

o vestido que mal foi despido
conheceu do corpo
o peso do seu acto

VI

Assim volta à maneira
de vesti-lo
tornar a descê-lo pelos braços

cortando logo a tarde
e a ternura
perdida na penumbra desse quarto

VII

Quanta saudade
da seda do vestido
que à pele adere
num outro abraço

Baraço entorpecido
nos sentidos
secreta maneira
de tolher os passos

VIII

A fímbria do vestido
a fenda do vestido

Já só memória
o corpo todo
nu

Dissimulado agora pelo vestido
que os dedos abandonam
um a um

IX

A fímbria do vestido
a fenda do vestido

que o gesto alisa
ao descer o fato

Vestido que na fímbria
ainda é vestido
mas não na fenda
onde já se abre


MARIA TERESA HORTA, in AS PALAVRAS DO CORPO

EU SEI QUE ESTÁS AQUI





Foto de José Sottomyoa


Esvoaçam beijos roubados no jardim de nós,
pequenas folhas escrevem o chão da terra dos tempos,
fazem carinhos na tua face,esvoaçam-se ao som da tua voz,
há um pássaro pousado nas lágrimas da vida,aguardando os ventos.

Eu sei que estás aqui,
deita-te ao meu lado.

Abraço-te,
sinto o teu coração.

Beijo-te,
sinto o teu sabor.

Entrego-me
em ti,
morro e nasço,
em ti,

sentindo-te,
guardada,
em mi

José Sottomayor





José Sottomayor



UMA OUTRA MÃE CORAGEM

Interpretação - MÃE CORAGEM


uma outra mãe coragem

à mãe
à alta bela e longilínea camarada maria 
a do coração de oiro
que lhe saía à rua
na pura expressão
do seu rosto
.
fez hoje dois anos
que a camarada
maria -minha mãe-
partiu
.
a vida continua
e temos que
(a)
viver
.

existe
uma forma
de (a) amar
e honrar
(é)
vivendo
intensa/
mente
.
ela gostava -gostou sempre-
da minha forma
de viver e
estar
.
mas bate(m)-me ainda
com muita intensidade
as saudades
dela
..............................
entendo-te perfeitamente
tão linda mulher
e belo ser
era
..............................
ela
gostava -muito-
de ti camarada
..............................
e eu dela e talvez
nunca lho tenha
dito
como deveria
tê-lo/a
feito
ressentir
..............................
não te preocupes com isso
porque acho que
todos
nós sabemos -cá dentro-
quando os outros
nos amam
ou gostam
de nós
.
-no fundo-
sentimos todos
essas
coisas
.
ela sabia
que tu gostavas
dela
.
e ela gostava
mesmo
de
ti

rapaz
.
fi/mj



Filipe Chinita

sábado, 29 de setembro de 2012

É OUTONO




Foto dr Rui Videira




É OUTONO!...

A chuva cai na avenida!....
Paira no ar uma certa melancolia
de mais um verão que findou.

Solto um ai à chuva que cai
e ao aconchego deste dia,
em que o outono chegou!...

Este guarda-chuva vermelho,
Onde te acoito, amor,
tem motivos de alegria
por cobrir quem sempre amou!...

(Acácio Costa).

TENHO TANTA NECESSIDADE DE TER ALGUÉM A QUEM DIZER "AMO-TE"

Eu



Tenho tanta necessidade de ter alguém a quem dizer "amo-te"... Ter alguém com quem possa dialogar, abraçar, beijar e dar as mãos.
Preciso de ir para a cama e pensar em alguém quando me deito.Sonhar...e ter alguém que me dê vontade de olhar para o dia em cada manhã. Acordar feliz. Que essa felicidade exista dentro da minha alma.Arranjar-me e vir para a rua com vontade de sorrir para todas as pessoas.
Talvez por isto, eu tenha tido, ao longo da minha vida, algumas grandes paixões, mesmo que platónicas. O que quero dizer com isto, é que consigo idealizar um grande amor... mesmo sem o viver.
Pela primeira vez na vida, aconteceu-me um amor destes... correspondido do outro lado. Eu digo-lhe palavras.... e recebo outras em troca.
Mas não são apenas palavras, são sentimentos reais.
Talvez "amor" seja uma palavra forte de mais, mas é um carinho imenso, uma ternura sem fim, uma amizade muito forte, um desejo que tento reprimir...por não o ver, nem o tocar e nem sequer dialogar e olhar os seus olhos. Só palavras escritas.
É um amor que já dura há muitos meses, que tem momentos lindos, felizes e partilhados.
Por vezes, sinto-me perdida, queria mais!... e  tenho momentos que me custa aceitar que isso não seja possível. 

Sinto-me aconchegada nos braços dele, mesmo que seja só à distância. E prefiro tê-lo assim, meu, só nas palavras, a não o ter...Sinto-me muito feliz.

Porque tenho necessidade de ter alguém a quem dizer "Amo-te"....






NASÇO EM TI






Nasço em ti


nasceste-me,
desaguando olhares sobre as estrias da noite,
onde se demoram alucinações e sonhos desiguais,

onde demoras o ventre sobre as costas e nadas,
soluçando gritos e deixando transparecer a noite

onde me nasceste.

nasceste-me,
ventre renascido de águas azuis e flores silvestres,
framboesas do meu rosto e odor frutado de corpos
floridos.

nasceste-me,
onde a noite se fez água entretecida nas margens,
olhos das areias onde passeei ondas gigantes, levantadas
da raíz e do tronco da vida,

nascendo-me
nas horas claras das luzes impressas nos dedos,
imprecisas e paradoxais como o sonho, onde movo
as mãos e me encontro

em ti.


susana duarte

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

ESPELHO MEU


ESPELHO MEU! 

Eu existo e eu sou eu.
Há dias que mal sou eu,
mas existo.

Há dias em que sou muito eu
e mal existo.

Há dias que não sou eu
e existo, porque penso.

Mas seja lá como for,
como penso, existo
e eu sou eu,
todos os dias
com o meu escopro
gravo no eu que existe
mais um sulco
do eu que eu quero
que tu me mostres
espelho meu
enquanto exista!...

ACÁCIO COSTA

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

JURO





Foto de Acácio Costa

Juro.

Se me amasses
E te desses a mim,
Eu dar-te-ia um lugar
Dentro de mim,
Onde terias felicidade
E matarias essa tua ansiedade
De amares de verdade.

Acácio Costa




Acácio Costa

RAÍZES




Susana Duarte


Raízes


sê sempre o vento gentil que me derruba as folhas,


sem me derrotar as águas; o ventre que me colhe

e as árvores inquietas, que se agitam sob os sóis

das horas navegantes. sê, da noite, as horas todas

e, do dia, a luz frágil da eternidade mareada, rasante,

onde os dedos se tocam em lugares azuis. mares.


é de mar, o teu nome.

xamã das minhas flores.

susana duarte

PERDÃO





Acácio Costa

Perdão!...

Perdão, 
por me ter ido embora,
te ter deixado no leito,
sem sequer dizer adeus!...

Perdão,
mas não o podia fazer
sem primeiro lhe dizer
que é a ti que eu amo
e do mais fundo do meu peito
que é contigo que quero viver
até ao resto dos meus dias!....

Perdão, Julieta,
mas não tenho mais lágrimas
para tinta da minha caneta!...


 ACÁCIO COSTA






QUANDO O SOL SE PÕE NO CANTO DA JANELA


















QUANDO O SOL SE PÕE NO CANTO DA JANELA


quando o sol se põe no canto da janela, penso que fico triste
penso que acabou
e fico triste, porque penso que a tristeza vai acabar

e então pego no canto, na janela, no sol
e ponho a janela no canto do sol

passa o pássaro despassarado e desenha uma linha aguda no azul do céu
(obviamente)

e os meus olhos vão dar um mergulho nas ondas de uma mulher que acabou de os arrancar do torpor

FERNANDO DE JESUS FERREIRA

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

ESPERAR



Foto de José Manuel Fernandes

ESPERAR

esperar
o sopro na nuca
as mãos na extremidade pura do sentir
esperar
o aperto líquido e fundo
bocas de línguas oblongas extáticas
esperar
a carícia contemplativa do mar
corpos perdidos no lá bem ao fundo do dia
esperar
o amante derramado no desejo perdido no quotidiano
e abraçá-lo até de manhã
como se noite não tivesse havido
e depois
o corpo rodasse na indiferença da uma maçã

FJF





Fernando de Jesus Ferreira


sábado, 15 de setembro de 2012

OFEREÇO-TE PALAVRAS


Maria Antónia Anacleto


OFEREÇO-TE PALAVRAS

Se terminar este poema, partirás. Depois da
mordedura vã do meu silêncio e das pedras
que te atirei ao coração, a poesia é a última
coincidência que nos une. Enquanto escrevo
este poema, a mesma neblina que impede a
memória límpida dos sonhos e confunde os
navios ao retalharem um mar desconhecido



está dentro dos meus olhos – porque é difícil
olhar para ti neste preciso instante sabendo que
não estarias aqui se eu não escrevesse. E eu, que



continuo a amar-te em surdina com essa inércia
sóbria das montanhas, ofereço-te palavras, e não
beijos, porque o poema é o único refúgio onde
podemos repetir o lume dos antigos encontros.



Mas agora pedes-me que pare, que fique por aqui,
que apenas escreva até ao fim mais esta página
(que, como as outras, será somente tua – esse



beijo que já não desejas dos meus lábios). E eu, que
aprendi tudo sobre as despedidas porque a saudade
nos faz adultos para sempre, sei que te perderei



em qualquer caso: se terminar o poema, partirás;
e, no entanto, se o interromper, desvanecer-se-á
a última coincidência que nos une.



Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

SÚPLICA








SÚPLICA


ouve-me nos movimentos das pálpebras,
onde é sonora a ausência em que habito;
onde se espraiam vozes sumidas; onde
vivem giestas, e piam aves estranhas...


olha-me nos recantos da paixão antiga,
e desnuda-me os ombros de aurora. sê
inteiro, marinheiro das minhas águas e
cálida emoção que se derrete no calor
das minhas lágrimas antigas. sê a luz
onde tudo, dantes, era ilusão de néon.

ama-me. e devora-me os olhos e a boca
e os braços com que te cerco e sinto.

sente, de mim, a lágrima de luz coberta
de seda, onde te deitas e recobres de ser
marinheiro da minha sede. ama. em mim,
encerra as noites de aves estranhas, sê
luz ansiada-procurada-antes interdita. e

ama-me

susana duarte



Susana Duarte 



ASSIM QUE TE QUERO



ASSIM QUE TE QUERO

É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.

Pablo Neruda

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

ENCONTRO








Deixe passar este periodo
de maior instabilidade
e vamos encontrar
mesmo!

Não há dúvida
que bom é ver
um rosto
uns olhos
um todo!

Porque nós não somos só palavras
somos um todo
e quando falamos
todo esse todo
fala.

Fica completo o diálogo
.
Temos de ir tomar um café juntos...
um dia... vamos gostar!

Eu não bebo café
mas vou beber as suas
palavras...

Palavras de poeta!
.
Será uma amizade possível
e a amizade é só
é o melhor
que há!
.
t.
FILIPE CHINITA

O TEU RISO


Praia do Furadouro (1971)


O Teu Riso

Tira-me o pão, se quiseres, 
tira-me o ar, mas 
não me tires o teu riso. 

Não me tires a rosa, 
a flor de espiga que desfias, 
a água que de súbito 
jorra na tua alegria, 
a repentina onda 
de prata que em ti nasce. 

A minha luta é dura e regresso 
por vezes com os olhos 
cansados de terem visto 
a terra que não muda, 
mas quando o teu riso entra 
sobe ao céu à minha procura 
e abre-me todas 
as portas da vida. 

Meu amor, na hora 
mais obscura desfia 
o teu riso, e se de súbito 
vires que o meu sangue mancha 
as pedras da rua, 
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos 
como uma espada fresca. 

Perto do mar no outono, 
o teu riso deve erguer 
a sua cascata de espuma, 
e na primavera, amor, 
quero o teu riso como 
a flor que eu esperava, 
a flor azul, a rosa 
da minha pátria sonora. 

Ri-te da noite, 
do dia, da lua, 
ri-te das ruas 
curvas da ilha, 
ri-te deste rapaz 
desajeitado que te ama, 
mas quando abro 
os olhos e os fecho, 
quando os meus passos se forem, 
quando os meus passos voltarem, 
nega-me o pão, o ar, 
a luz, a primavera, 
mas o teu riso nunca 
porque sem ele morreria. 

Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda

SETEMBRO DA MEMÓRIA











Setembro da memória

Vê, como Setembro torna o sol
Mais doce nos meus olhos,
E o hálito mais fresco
Nos teus lábios,
E as minhas mãos mais doceis
No lavrar da pele.

Vê, como em Setembro vindimamos
O mar, com seus peixes de ouro
E respiramos nus a luz filtrada do sol.

Vê, como te canto ao colher as uvas
Que escondes nos teus seios,
Abrindo-te a alva blusa carregada de desejo.

Vê, se não é doirado este chão em que te deito
Feito de palha sôfrega no entrelaçar dos corpos,
Em que, o calor húmido dos beijos
Faz renascer o pão que nos alimenta a alma.

Vê, se não é doce e belo, o Setembro da memória
E, não aquela saudade piegas dos corpos em desuso.

Joaquim MONTEIRO
2012-09-09

domingo, 9 de setembro de 2012

SE ME DERES A MÃO



Ana Fonseca da Luz


Se me deres a mão, para que me levante,
poisarei os meus olhos na tua boca,
e para sempre serei a palavra, 
que teu coração, 
timidamente
me murmura,
quando a minha alma e o meu corpo te comungam
no mais puro êxtase
nas manhãs que morrem,
silenciosas, no teu leito.
Se me deres a tua mão e me ergueres do chão,
deixarei a terra para sempre
e morrerei feliz
e todos os ocasos serão nossos…

Magnólia

MAR




 
Foto de José Manuel Fernandes



MAR




na baía, encontrei uma concha
e os olhos da lua, num pôr do sol distinto e
inscrito na maré baixa, 
onde deixei um pé preso nas algas
e me tornei o sonho de uma sereia que, na praia, 
criou pés e, distraída,caminhou 
em eternos sonhos de orvalho, 
recitados num teatro onde a luminosidade 



estranha



da noite,
a deixou perdida nos recantos do mar.



tornei-me navegante dessa concha,
consciente do tempo passado e futuro,
que pinto e
habito,
como se uma tela me deixasse eternizada



no mar que salgas



e transformas em chuva pálida na manhã serena.



Somos nós, nas marés,
que criamos cenas da vida que escorre na areia
e deixa marcas de pegadas
nos locais onde somos, em cada luar, seres mágicos e



indistintos.
Navegar.......



Navegar é o sonho
cavalgado pela lua cheia



numa onda que não há.



Mar.



susana duarte















Susana Duarte 





DES_ACORDO

Luisa Azevedo
DES_ACORDO


Como vamos fazer amor sem certas letras
que só a mente, e os olhos, pronunciam?
Como contorcer-nos sem acção
no acto, se tantos momentos morreriam?



Como vamos falar do “c” das coisas,
dos cactos, de uma simples erecção?
Como reconhecerá sabores qualquer palato
se em quase tudo há uma excepção?



Como ficar só na oralidade,
se é facto que fazer amor é tão sublime?
E os “p’s” que faltarem na saliva…
até o mais óptimo beijo, se deprime!



Como fazer amor só de olhos fechados
ou pensar que amar já não mais dói?
Como fica a poesia dos amantes,
se tanta grafia desconstrói?



E os dedos, pobres, perdem o caminho,
quando deixam de tactear a pele amada?
As pernas emaranham-se na roupa,
pois se o “pára” não sabemos onde anda!


LUISA AZEVEDO




DESISTIR








sim 
também a mim
por vezes me apetece desistir

mas logo volto atrás 
sabendo que
não está em mim
desistir

mas sim prosseguir
até ao fim

até que (de) contra uma parede
intransponível
bata

e a única que
intransponível existe
é a (da) própria
morte
.
mas mesmo aí
talvez alguém acabe pegando
no pau da minha bandeira
e empunhe a batuta das
minhas palavras
e gestos
.
sim
há sempre alguém que prossegue
o que deixámos
inacabado
.
assim é a humanidade
no seu caminho para
a eterna
(im)
perfeição
.
fj



Filipe Chinita



RUBRA






" Rubra "

É cedo...
para perceber...
que é tarde.

Oferece-me
a manhã imensa...
quando me tocas...
e
infinito
me tornas.

Nas tuas mãos brancas
a minha boca beija...
adormecendo
rubra.

José Sottomayor

CONHECI UM POETA






Filipe Chinita


conheci um poeta...
.
conheci um poeta que 
dançava com o seu lápis amarelo
dançava de olhos fechados 
e cantava
.
cantava nas suas páginas em branco
cantava a solidão - acompanhada -
cantava a revolução
.
conheci um poeta que
gritava beleza...
tal beleza evadiu o meu jardim doente
que sofria de melancolia
.
conheci um poeta que
chamava por mim
e de mim fez
poesia
.
conheci um poeta que
nunca vi dançar
nunca vi cantar
nunca vi
gritar

apenas vi o seu
olhar
.
reeencontro



Filipe Chinita

VOU TER QUE TE FALAR










vou ter que te falar....

Vou ter que te falar do quanto que te gosto
vou ter que te falar do quanto que te penso
vou ter que te falar do quanto em que em ti invento.
Vou ter que falar do dia e da noite e do quanto que se passa
vou ter que falar do que não posso e ainda sinto e ainda mais te sinto
vou ter que te falar do que te quero dizer e ainda não te digo

vou ter que te falar

José Sottomayor



José Sottomayor










sábado, 8 de setembro de 2012

ÉS LINDA








És Linda
És linda. E nem sabes quantos pedaços de beleza tive de juntar para chegar a esta conclusão. Para te construir, tive de misturar a conspiração das searas com a tristeza do choupo, a inquietação da cotovia com o cheiro lavado do vento do ocidente. E a firmeza repartida dos livros, com a alegria explosiva dos miosótis e a luz escura das violetas. Juntei depois um pouco de ansiedade das est

relas, a paciência das casas à beira da falésia, a espuma da terra, o respirar do sul, as perguntas de gesso que se fazem à lua. Acrescentei-lhe a canção das margens e pequenos pedaços da angústia do olhar. Não esqueci a intimidade do frio nem a dor branca que habita o coração dos muros. Por fim, deitei na tua pele o sono dos alperces, aos teus músculos prometi a violência das cascatas, no teu sexo acordei a memória do universo.
A tua beleza está no meu desejo, nos meus olhos, na minha desigual maneira de te amar. És linda, repito. Mas tenta não encarar o que te digo como um elogio
.
JOAQUIM PESSOA

domingo, 2 de setembro de 2012

UM BEIJO







" Um beijo " dedicado a.....
Os teus lábios são
duas curvas de amor
sorridente
palpitante
evidente...

da tua boca nasce
a palavra desejo
uma flor vermelha
rubra
ardente
como um beijo...

na tua boca fica-se
parado
sentado
aconchegado....

a tua boca é
uma linda flor vermelha
sorridente
palpitante
evidente...

um beijo...

José Sottomayor

AMO A PRAIA VIRGEM










amo a praia virgem
com a pégada única dos teus passos 
sobre a areia ainda húmida
pelo recente recuo do mar
para a sua maré-
vaza
.
fj



FILIPE CHINITA