sexta-feira, 30 de setembro de 2011

AS FLORES DOS OLHOS


A FLOR DOS OLHOS

Gosto de saber
a origem das lágrimas,
quando mas fazem sentir.


Gosto de saber
a origem da injustiça,
quando ma fazem sentir.


Gosto
de olhar
no profundo
dos olhos,


seja,
na sua flor,
seja,
no seu repúdio.


Perante
estes olhos,
esta máscara,
não pergunto,
digo.


Que bela é
a cor da alma,

quando
tem
mesmo
cor.




JOSÉ SOTTOMAYOR


Foto de José Sottomayor


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

SINTO-TE

Luisa Azevedo

SINTO-TE


sentei-te ao meu lado para conversarmos.
fazia tempo que não aquecíamos aquela mesma pedra
e que os nossos dedos se moviam na angustia
de fechar a mão com o vazio lá dentro...
todo lá dentro!
sentei-te ao meu lado para fechar os olhos
enquanto em ti pensava
e desejar que no interior das tuas pálpebras
tenhas ainda o desenho do meu rosto,
na tua pele o cheiro da minha,
ou apenas a recordação de mim.
sentei-te a meu lado,
para me sentir a teu lado sentada,
esperar que pouco aconteça, talvez nem espere nada!
mas tanto quero estar ao teu lado sentada!

LUISA AZEVEDO

REINVENTO-ME

Foto de José Manuel Fernandes

REIVENTO-ME




Reinvento-me no calor do sol
E no azul do mar,
Em abraços de luz!


Aperta-me no teu sonho,
Desperta-me no teu desejo!
Abraça-me!


Quero colher,
Na imensidão do sonho,
Teu abraço de sol e mar


ISABEL LEMOS

terça-feira, 27 de setembro de 2011

DESFOLHAR O OUTONO

Foto de João Costa


DESFOLHAR O OUTONO



gota
eterna
que me é sangue,
correndo
entre feno de palavras
que me encontram
ceifa
na cilada do verbo
por desfolhar
e mais não sou
do que verso,
raiz
a que me prendo
por entre veias
onde o poema se lavra
e o Outono
se compraz.

JOÃO COSTA



João Costa

NÃO SE ACOSTUME

Foto de José Manuel Fernandes
Por Talino Soares


Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário. Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas. Se achar que precisa voltar, volte! Se perceber que precisa seguir, siga! Se estiver tudo errado, comece novamente. Se estiver tudo certo, continue. Se sentir saudades, mate-a. Se perder um amor, não se perca! Se o achar, segure-o!


FERNANDO PESSOA





Talino Soares

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

NAVEGAR É PRECISO


sobre as tuas águas mansas deslizo o meu corpo,


circundo-te sem deixar que os teus braços me abracem




antes de enfrentar o teu dorso.
volteio...








e, por fim, deixarei que a dança dos teus braços me leve contigo ao céu.



LUISA AZEVEDO





.

sábado, 24 de setembro de 2011

SABIAS

Abel Fernandes Antunes
SABIAS


Sabias que o vento são segredos?



Que a chuva são lágrimas de anjos?


Sabias que os medos são correntes?


Que as paixões amarras?


Que os amores prisões?


...Sabias que se tiveres coragem, podes cruzar os céus e voar, mesmo de asas feridas?




Abel




beijo querida

LÁGRIMA




Luisa Azevedo

LÁGRIMA
corre uma lágrima triste rio acima
ao encontro da fonte, da nascente.
amanheceste num silêncio que lastima
o frio que na noite se fez quente.




seja o sentido sexto que me guia,
a estrela cadente que não viste.
aos poucos meu coração seguia,
iluminado, o céu para mim abriste!




foi-se a estrela d'alva, mal partiste
afastando de mim a luz do sol
e todo brilho da noite em que me viste.




deixaste abandonada a dobra do lençol
e de um negro mais negro me vestiste,
ao largo, perde o meu navio seu farol.

LUISA AZEVEDO

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O TEU VENTO

O TEU VENTO

Na tua presença,
as palavras
esgotam-se
no teu ti,


há uma auréola
de tempo
sem tempo,


e no teu coração
eu entro,
e sinto-me
por dentro.


Quando
os teus cabelos
esvoaçam,
e as nossas bocas
se perpassam,


quando
o teu corpo
se desenha
nas minhas mãos,


e o teu respirar
respira o meu,


eu sinto-me
a folha mais feliz
arrastada
pelo vento,


...o teu vento.

José Sottomayor



José Sottomayor




NÃO APENAS

Luisa Azevedo

NÃO APENAS...


não me beijes apenas,
entrega-me na boca a língua
fresca de orvalho
com sabor a sede,
lambe-me a pele dos lábios,
sopra-lhes o vento suão
amornado do teu peito.
não me olhes apenas,
goza-me de pupilas acessas
de um negro brilhante,
molha-me os olhos
com a mesma sede
do sabor que trazes na boca.
não me comas apenas,
saboreia cada palavra
como se eu fosse o poema.

LUISA AZEVEDO

QUANDO ME CANSEI DE MENTIR A MIM PRÓPRIO

Aguarela de António Gomes Anacleto


Quando me cansei de mentir a mim próprio,
comecei a escrever um livro de poesia.


Foi há duas horas que decidi, mas foi há muito
mais tempo que comecei a cansar-me. O cansaço
é uma pele gradual como o outono. Pausa.


Pousa devagar sobre a carne, como as folhas
sobre a terra, e atravessa-a até aos ossos,
como as folhas atravessam a terra e tocam
os mortos e tornam-se férteis a seu lado.


A cidade continua nas ruas, as raparigas riem,
mas há um segredo que fermenta no silêncio.
São as palavras, livres, os livros por escrever,
aquilo que virá com as estações futuras.


Há sempre esperança no fundo das avenidas.
Mas há poças de água nos passeios. Há frio,
há cansaço, há duas horas que decidi, outono.


E o meu corpo não quer mentir, e aquilo que
não é o meu corpo, o tempo, sabe que
tenho muitos poemas para escrever.




(José Luís Peixoto, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

DIA 142

Foto de José Sttomayor

DIA 142


O mar é como um rato que incessantemente vai roendo
a curva das baías e as costelas dos promontórios. E depois
digere, longe e fundo, a sólida refeição, transforma a for-
ma e o perfil da "terra nostra" no "mare nostrum". E o ven-
to que policia a costa, não dá por nada, não sabe, não sen-
te, não se senta para pensar.
Por isso, quem pensa como o vento, não pensa. Apenas
passa. À pressa.
Um rasto frio, um fio fácil, dócil. dúctil, é quanto resta. O
tempo que se arrasta, o rosto que se apresta, o risco que
se aprende, o rasgo que nos dói, o rato que nos rói, o mar
que nos devora.
É agora. Quem sabe que não sabe, também sabe. Seja ave,
seja homem, seja livro, será livre de entender, de refazer,
reconhecer, amar.
O mar, o mar é como nós. Tem vida, tem voz. Tem ondas
de violência, tem ondas de prazer. Vontade de ferir, de
destruir. Desejo de dormir e descansar. De espreguiçar. E
namorar a terra, sem nunca querer casar
 
JOAQUIM PESSOA



(Do livro a publicar em Outubro, ANO COMUM)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A MÃE


A MÃE

Quando crescer quero ser a mãe
só p’ra ser a minha
e me dar carinho sem ter que mo pedir
quero morrer p’ra ser a mãe de alguém
mas com as mãos a voz e o cheiro da minha


mãe
és a minha mãe
antes não fosses
antes fosses a mãe de todos
p’ra que todos fossem felizes
se fosses a mãe do mundo o mundo era melhor
e eu não existia
mas acredita que não me importava
porque haveria de viver no som dos teus beijos
no fresco da tua mão contra a testa febril
no olhar que encontra o brinquedo
na luz que me apaga o medo


haveria de viver no teu coração como um filho que não nasceu
e que morre todos os dias para provar que sempre te amou


JOÃO NEGREIROS
in "o cheiro da sombra das flores"







João Negreiros
 

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Casta Diva -- Maria Callas (Best)

                         

FOI TÃO PERTO DO CÉU

Luisa Azevedo

FOI TÃO PERTO DO CÉU

trouxe-te a noite,

sob aquele maravilhoso manto de estrelas,


tão negro,


tão próximo,


tão calmo.




trouxe-te a noite,


guiado pelo som da minha voz:


sobe,


segue em direcção ao céu!


ver-te-ei antes que consigas ver-me!




trouxe-te a noite,


que, apesar de fria,


te entregou em brasa


e de olhos sumarentos.




quando um beijo se aproxima do céu


as estrelas gravitam entre a língua e o olhar,


deslizam na humidade da saliva.


foi ontem...


ao orbitar na curvatura elíptica do teu corpo,


saboreei nos teus lábios o orvalho da madrugada que apenas hoje se fez,


enquanto me enlaçavas pela bainha da cintura,


entre lado verde da terra e o do azul líquido que trazias nos olhos.


LUISA AZEVEDO

MULHER

[foto © Kristjan Rems)


MULHER


Mulher, é por ti que clamo
nas palavras pejadas que solto
e vejo transformadas em afago
moldadas no teu rosto em carícia…


É por ti mulher que escrevo,
arrancando à partitura do corpo,
o lamento com que fazes ode
para te velar a nudez íntima e faminta…


E chamas poema a este voo náufrago -
pois as asas perdia-as na espera -
de homem errante numa brisa
entre versos afogados em saliva…


Fossem minhas mãos
as palavras que agarras…

JOÃO COSTA

domingo, 18 de setembro de 2011

EU NASCI NO LARGO DO SOUTO

A D. Irene (minha mãe) e o Sr. Anacleto (meu pai)
 


A Guida,a Nina,a Teresa, a Duda,o Zé, Eu e a Toinha
  



  Eu nasci no Largo do Souto. O Zé Manel
 escreveu sobre a minha família e foi lindo de ler: os lugares, as casas, as àrvores (o plátano,as tílias) que eram a casa grande dos pássaros,ao táxi do senhor Anacleto (um verdadeiro e imponente espada). A dona Irene (esposa do Sr.Anacleto) e os seus filhos Zé,Guida, Nina, Tereza, Duda, Tona e Vitória.É como diz o Zé Manel o Largo era o Centro do Mundo.Fui tão feliz lá.




José Manuel Bastos

11 de Setembro de 2010

E o José Sottomayor comentou no facebook

José Sottomayor Então nasceste no meu Largo.
Como não havias tu de ser tão feliz,que tão bela alma tens.Abraço!!!

Maria Antónia Anacleto José, tu também nasceste no Largo do Souto? Em S. João da Madeira?

José Sottomayor Não,amiga.Tu é que nasceste no Largo do Souto...mayor.Por isso gracejei,não leves a mal.Nasci no Porto,Ordem da Trindade.

Maria Antónia Anacleto Não levei a mal até fiquei muito feliz.Agora, é que percebi! Tu és mesmo um Souto...mayor, onde eu nasci e vou nascendo e renascendo quando leio tanta beleza que há em ti...Obrigada.

José Sottomayor

ENTRE OS LÁBIOS

Luisa Azevedo

ENTRE OS LÁBIOS


subtil a delicadeza

que nos cobre as bocas

quando os nossos lábios se unem

num beijo

e a língua me abandona

para se alongar na tua boca



e a língua me abandona para se alongar na tua boca


LUISA AZEVEDO






.

RENTE A TI

LUISA AZEVEDO
RENTE A TI

meu amor… sabes,
o meu corpo quer-te,
não eu!
é na pele que te sinto… sei-o
quando fecho os olhos e não te vejo!
à noite estás rente a mim,
com a tua boca na minha,
o teu arfar dentro do meu,
os dedos cruzados nos nós que aperto...
sinto-o!
cobre-me uma humidade, não só minha,
e sei-o!
sobe-me no ventre a maré das lagoas lunares,
branca névoa saturada de vidas.
sabes, quando o meu corpo te quer,
e eu não, dói-me ainda mais a tua ausência!


LUISA AZEVEDO

CONTEMPLAÇÃO




CONTEMPLAÇÃO




Pudesse o olhar suster


o que as mãos não alcançam


e eu despiria, debaixo das palavras,


uma frota de sonhos


em que o teu corpo é leme


desse contemplar que te despe


na espera que minhas mãos toquem


o segredo em que te vestes.


JOÃO COSTA



João Costa

MELÓDICO AMOR

"Mãos" Luisa Azevedo

MELÓDICO AMOR

houve um tempo em que os teus dedos eram acordes no meu corpo.
éramos, músico e instrumento, amantes de décadas...
éramos música, de frequência inaudível ao ouvido humano,
e rara,
ímpar ao nosso amor.
tu dizias:
- entreabre os lábios!
e neles encostavas os dedos, e a boca,
confiando-me um poema
que depois dizia com os olhos.
seria o cio que nos tornava insaciáveis
mas, entre nós, aquela melodia escorria no suor da pele.

LUISA AZEVEDO

ANA E OS SÓIS INTERIORES


[para a minha filha Ana, que nasceu hoje! (18/Jan/2009)]


Deixei a vida de escravo para ir trabalhar para o campo.
Foi uma decisão tomada num impulso momentâneo. Que surpreendeu toda a gente! Era um dos que tinham capacidade produtiva, sendo, por isso, considerado valioso. Isto apesar de sempre ter sido sonhador. Apenas a minha mulher me apoiou.
Mas os sonhos concretizam-se quando a semente germina. E o futuro vinha aí. Uma filha aproximava-se!
Alguns amigos, bastante curiosos, perguntavam-me:
- Que vais fazer para o campo? Nada percebes de agricultura.
E eu sempre respondia:
- Vou plantar dentes-de-leão azuis! Vou crescer vida! Vou ser feliz!
- Dentes-de-leão azuis!? – Retorquiam – Mas estás doido? Isso não existe! Ao menos, planta algo que te dê pão.
Mas eu não ouvi. Limitei-me a persistir.
Foi num pequeno planalto, protegido pelos braços dos montes e que logo pela manhã era acarinhado pelos raios de luz, que decidimos semear os nossos sonhos. E instalamo-nos numa pequena casinha de madeira.
Passados uns meses, as cegonhas cor-de-rosa chegaram. A Ana nasceu e a nossa família cresceu. Para agradecer a bênção recebida, plantamos uma romãzeira ao lado da casa. Aí, mais tarde, colocar-se-ia um baloiço para a nossa filha voar.
A chegada da Ana renovou a nossa esperança e reforçou o carinho com que tratávamos a terra.
A nossa filha foi crescendo e amava a terra. Tinha uma ligação especial com a romãzeira, que tratava por irmã. Deliciava-se com as nossas histórias e vibrava com os dentes-de-leão azuis.
Mas o tempo foi passando e nada de dentes-de-leão. Muito menos azuis.
Avizinhavam-se novas mudanças e decisões eram necessárias. Numa noite, após o jantar, disse à minha mulher:
- Querida, a nossa filha vai para a escola e necessitará de mais apoio e de material escolar. Até hoje mantivemos o terreno dos dentes-de-leão livre, mas se calhar chegou a hora de isso mudar. Que achas?
A Ana, que ouvia a conversa, agarrou-nos as mãos e, levando-nos até ao campo vazio, disse:
- Pai, Mãe, não desistam. Aqui haverá sóis interiores! – e libertou, sobre o lugar dos nossos sonhos, as lágrimas que tinha no rosto.
Comovidos, pegamos na nossa filha e, sem nada dizer, confortamo-la no nosso abraço e, fomos dormir.
Talvez fosse mero acaso, talvez fosse pelas lágrimas. Mas, no dia seguinte, os dentes-de-leão floriram azuis.
Ah! Eram qualquer coisa de fantástico. De noite, faziam a aurora sorrir. De dia, entoavam as melodias do vento.
Tinham características especiais. Pois nascidos do amor, quando colhidos com ternura, libertavam o pólen da luz e o calor da renovação. Eram, tal como a Ana havia dito, autênticos sóis interiores.
Em pouco tempo, éramos notícia internacional. E eram tantas, as pessoas que os queriam ver e comprar.
No entanto, a Ana dizia:
- Não são para vender. São para oferecer aos que necessitam de sonhos.



VICENTE FERREIRA DA SILVA



Vidente Ferreira da Silva
Comentário que fiz, ao conto do Vicente, no seu blogger

"Eu necessitava de sonhos e a Ana apareceu para me oferecer".
Passado mais de um ano só hoje vi. Que lindo. Isto é vida, isto é amor…A Ana é uma bêncão…

Recordei o baloiço da minha infãncia numa nespereira e aquela sensação de querer voar. Eu tive uma infância feliz. O pai não plantou uma romãzeira, mas uma nespereira. E eu aprendi a voar…


Maria Antónia

sábado, 17 de setembro de 2011

ESPELHO

Foto de Susana Duarte
ESPELHO


Escrevi, num espelho, um diário de flores
e neve ______________________No temporal da memória, ascendi
a cores de um céu derramado na álea de
tílias,_____________________ onde repousei as encostas deste rio,
que sucumbe ao olhar eterno de uma flor
descamada de peixes azuis que voam na
superfície de um mar imenso. ___________________ Noite que se
anuncia e nome que se pronuncia, onde as
estrelas que chovem sorrisos, empurram
lágrimas para dentro dos risos, que aprendi
a dizer._____________________Nome inscrito no espelho, que fala
de mim._____________________Espelho que me devolve o riso, a
cor, o sorriso, o suave toque de um rosto
__________________________carmim______________________.



SUSANA DUARTE



quarta-feira, 14 de setembro de 2011

UM DESLIZE COM FUR ELISE

Isabel lemos


UM DESLIZE COM FUR ELISE


Ah! Essas teclas em que meus dedos deslizam
são para tocar somente Fur Elise.
As pretas e as brancas dançam
em movimentos que me encantam.
És tu quem faz com que eu me inspire
e que meu ser respire
nessa melodia
um siléncio no dia-a-dia.
Eu interpreto Bethoven
para que todos ouçam
o amor que no meu coração há

desde o momento em que tu estavas lá.
Lá longe, mas perto
e bem é certo
que teu ser mesmo ausente
sinto o presente.
Ah! toco Fur Elise
com minh' alma e foi num domingo de sol e
para lembrar de ti naquele deslize
deixo meu coração sentir o amor por ti numa clave de sol


ISABEL LEMOS

domingo, 11 de setembro de 2011

DIA 34

Foto de Rui Videira

DIA 34


Sagrado é o coração da árvore, a vigília da pedra, a
gravidez da amêndoa, o pulsar do rio, a timidez do
bosque, o trabalho discreto da semente. Sagrado é
o lenho e a erva, o cavalo, o boi e o cão, sagrado é o
sol, sagrada a casa, a noite, o dia, o círculo e a pirâ-
mide. E sagrado é o vento e a vontade, e o branco e
a esperança. Sagrados são os montes e os filhos e
os sentidos e os pássaros e os humildes. É sagrada
a dança e a cabeça e o azul e a primavera. Sagrados
são os cornos do inverno. E as flores amarelas. Sa-
grado é o desejo que humedece o corpo. Sagrada é
a distância. E a memória. Sagrados são os lábios, o
cérebro e as mãos. E os astros, e a espuma, e a tei-
mosia dos metais. E é sagrada a arte e o amor e a
claridade. E o centro do homem. E a voz da terra. E
o equilíbrio dos instintos. E o mistério dos mortos e
dos vivos. E as razões do amor. Sagrada é a forma e
a beleza e a luz e o fogo dos teus olhos.

Joaquin Pessoa

NÃO TE AMO

Virgínia Wolff


NÃO TE AMO, por ISABEL LEMOS


Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma.
E eu n'alma --- tenho a calma,
A calma --- do jazigo.
Ai! não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida --- nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não
Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.


Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.


E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.


Almeida Garrett

NOI_TE

Foto de Rui Videira

NOI_TE
 


Vamos dividir a noite,

comer metade das estrelas

e desviar a lua cheia.

Vamos beijar-nos às escuras,

no silêncio,

tactear as línguas

no nosso leito alagados

e sentir o coração bater na exaltação dos dedos,

que ainda não regressaram

do entusiástico fogo que circunscreve a pelve.






LUISA AZEVEDO

QUE TE CONTAM AS ÁRVORES

Foto de Isaura Santos
QUE TE CONTAM AS ÁRVORES

Que te contam as árvores?
falam-te do silêncio que se perde entre as suas folhas
e do pranto das aves ao repararem a dor da terra?
da chuva, que chora monções em golpes de vento?
das eras que se apoderam dos muros em que cravam os dentes
como homens famintos de ódios e guerras?
ou de coisas como a intriga dos homens que, sem fazer sombra, nos escurece o olhar em pleno dia?

LUISA  AZEVEDO

PELA PAZ


AMARELOS

acendam-se velas,
acerquem-se braços,
apertem-se mãos,
e festejemos...
logo que possível
pela paz!

LUISA AZEVEDO


Luisa Azevedo

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O QUE SÃO AS NOSSAS CERTEZAS?

Foto de José Manuel Fernandes

O QUE SÃO AS NOSSAS CERTEZAS?


Disseram-me, desde muito novo (talvez desde sempre), que era Católico. Poderiam ter-me dito que era Protestante, Islâmico, ou outra coisa qualquer. Tal como nasci Português, poderia ter nascido Inglês, Alemão, amarelo ou preto, que fazer..?


A verdade porém, é que cedo se revelou em mim este espírito indagador que toda a vida me tem seguido. Imbuído da inquietude que me provoca o permanente questionar, assim como de uma certa rebeldia e força contestatária que me caracterizam (mais outrora do que agora), decidi marchar contra o sistema. Procurava uma evidência de Deus. Procurei-o durante muito tempo mesmo, e devo dizer que nada encontrei de suficientemente convincente.


O problema, no entanto, é que a minha busca seguira um caminho errado. Como quem procura um elefante num buraco de formiga, ali estava eu, buscando por uma resposta a uma pergunta do tamanho de toda a existência, no ínfimo espaço do entendimento racional humano.


A verdade, é que para além dos parâmetros da racionalidade inteligente, intuímos mais do que explicamos, uma certa organização inteligente no universo em que existimos. No que respeita a mim próprio, sinto como se um arfar constante indefinido, de uma vida para além da que consigo conter na minha visão.


Mas estou a desviar-me do que pretendia dizer. Parece hoje cada vez mais um estigma, ou até "provinciano" admitir-se a crença na existência de Deus. Só um idiota, acreditaria na existência de algo que não se vê, nem é palpável. Acho que o problema está na forma como nos impuseram a ideia de Deus. Algo imaterial, com poderes indescritíveis, nosso amo supremo e senhor de uma justiça implacável, mas que, no fim, deixa que o mal permaneça em convívio com o bem.

As pessoas encontraram-se desiludidas e nada convencidas da existência de uma Entidade assim. Pois bem, graças a isso, não me digo Católico, Islâmico, Protestante ou o que quer que seja.


A mim, o que me interessa, tal como à maioria de nós, é ser feliz (não quer dizer que o consiga). Ora, o que me parece é que ninguém é feliz sem ser optimista. O optimista, por seu turno, é alguém que tem esperança. Esperança de melhorar sempre a sua realidade e de ver alcançado o produto do seu labor.


No fim de tudo, eis-me chegado à conclusão que vos quero transmitir, crer em Deus e numa vida para além desta, é tão só, uma atitude optimista face à vida. Não faz mal a ninguém. Falo do Deus que é o de cada um, não aquele que é professado por algumas religiões até à doença. Falo na esperança motora de toda a nossa actividade. Falo no encontro de um sentido para a vida e para tudo quanto nela passamos. Falo na recusa em aceitar que apenas nascemos para um dia parecermos.


Isto, para um espírito inquieto como o meu, tem muita importância. Há muito que vi o filme da vida. Há muito que deixei de ser criança e canso-me já de tantas perguntas sem resposta.


Crer em Deus, neste sentido, é pois uma libertação. Libertação da angústia existencial que não me larga e que tantas vezes me traz triste, infeliz e desenquadrado. Já me chamaram mesmo, "um permanente inadaptado" :).


Não, definitivamente não. Não consigo racionalmente concebê-lo, mas hei-de a mim impor-me, essa ideia de que Deus existe. Deus, o meu Deus, será a tradução da minha esperança, a alavanca do meu optimismo e a viabilidade da minha felicidade.


Desculpem-me se vos macei com este longo e pessoal discurso, mas habituei-me a que me aturassem nestes devaneios.




MIGUEL BRAAMCAMP MANCELLOS


Miguel Braacamp Mancellos



RESTAURO

RESTAURO
Restauro a minha pele
Com a tua
Porque ainda traz a aurora
No olhar
E as manhãs de nevoeiro
Nos joelhos.


Joaquim MONTEIRO

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

ROSEIRA BRAVA

Foto de Marta Martins in OLHARES

ROSEIRA BRAVA

Há nos teus olhos de oiro um tal fulgor
E no teu sorriso tanta claridade,
Que ao lembrar-me de ti é ter saudade
... Duma roseira brava toda em flor.


Tuas mãos foram feitas para a dor,
Para os gestos de doçura e piedade;
E os teus beijos de sonho e de ansiedade
São como a alma a arder do próprio Amor!


Nasci envolta em trajes de mendiga;
E, ao dares-me o teu amor de maravilha,
Deste-me o manto de oiro de rainha!


Tua irmã... teu amor... e tua amiga...
E também, toda em flor, a tua filha,
Minha roseira brava que é só minha!...


Florbela Espanca

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

LÁ LONGE ESTÁS

Foto de José Sottomayor



LÁ LONGE ESTÁS


Lá longe estás
como teve que ser
toquei-te
amei-te,
escondi-te
... perdi-te
lembro-te,
como a saudade
é saudade.


Lá longe estás
presa no teu tempo
no teu lugar
presa e morta
esquecida de nós.


Toquei-te
amei-te
lembro-te
com a saudade
da saudade.


Quando escrevo,
procuro-te,
fica aqui
esse amor imenso
que me faz frio.


Fica aqui
esta certeza
que não te fiz saber.


Longe,
onde estás,
como teve que ser,
amo-te muito,ainda.


Lá,
onde a saudade
me lembra a saudade,

Amo-Te muito.


31 de Maio de 2010



JOSÉ SOTTOMAYOR





José Sottomayor


PÁTIO INTERIOR

José Ribeiro Marto

PÁTIO INTERIOR


Eu procuro sempre a poesia . Hoje encontrei esta pérola sem querer . Trata- do livro Pátio Interior , de Isabel Fraga . Li poema a poema , demorei -me , sem nunca sentir sede na companhia meditativa das suas palavras exactas , puras, limpas . E , o poema que abre o livro , murmurei-o , e parti para longe .




Dentro de mim


Está escrita uma paisagem .
Impressa como a página de um livro .
Cada palavra é uma folha de árvore .
Cada ponto final uma ramagem .
Cada parágrafo uma margem de rio .
Só para mim têm sentido as frases .
Têm o som do sol no horizonte .
A luz das pedras em que passei os dedos .
È o tal livro que nunca será escrito.
não têm forma , nem estilo, nem saber .
Todos os verbos estão no infinito .
O índice é o indìcio da percepção das coisas
Que só as árvores podem, vagamente ,entende

Isabel Fraga


.POR JOSÉ RIBEIRO MARTO

terça-feira, 6 de setembro de 2011

SE EU GOSTO DE POESIA?



SE EU GOSTO DE POESIA?


"Se eu gosto de poesia? Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor. Acho que a poesia está contida nisso tudo."


Carlos Drummond de Andrade


Por JORGE XARÁ DIAS



Jorge Xará Dias (filho da minha professora Cidália)