quinta-feira, 30 de junho de 2011

A MENINA DO MAR

Sophia de Mello Breyner Andresen

O SOL BRILHAVA"Era uma vez uma casa branca nas dunas, junto a uma praia grande e deserta onde morava um rapazinho. Nesta praia havia rochedos maravilhosos que o rapaz adorava e passava a sua vida a brincar aqui, principalmente quando a maré estava vazia. Numa noite de Setembro houve uma tempestade tremenda, mas, de manhã, a calmaria voltara e o sol brilhava..."

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

in " A MENINA DO MAR"





terça-feira, 28 de junho de 2011

DIA 301

Joaquim Pessoa

DIA 301

Uma coisa. Outra coisa? A mesma coisa? Que coisa? Onde
está essa coisa? Na minha língua? No meu sapato? No meu
silêncio? Ou na minha coragem? Onde está? Onde mora?
Onde espera por mim? Onde quer que a encontre? Essa coi-
sa é milagre? Essa coisa é contágio? E que quer essa coisa?
Quanto mede essa coisa? Quanto vale essa coisa? Mastigo
essa coisa? Respiro essa coisa? Amo essa coisa? Será minha
essa coisa? Será rica essa coisa? Será erva, será canto, será
fome, será triste, essa coisa? Será vento, e fábula, e castigo,
essa coisa? Será fuga, delírio, desprezo, caminho, verdade,
jogo? Qual é a coisa, afinal? Uma coisa simples? Uma sim-
ples coisa? A coisa certa? Uma certa coisa? Coisa boa? Coisa
estranha? Coisa rápida? A melhor coisa? A pior coisa? Coisa
amiga, coisa boa, ou coisa que embaraça, coisa vingativa,
coisa tola, coisa pobre, coisa frágil? Não sei da coisa, não co-
nheço a coisa, nada posso dizer da coisa.
Seja esta coisa o que for, esteja esta coisa onde estiver, faça
esta coisa o que fizer, terrível ou fantástica, meu Deus, que
coisa esta!

JOAQUIM PESSOA

(Do livro a publicar, ANO COMUM)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

QUANDO TE AMO



Foto de Rui Videira
Amo-te. Basta-me um pássaro,
uma árvore
para me transportar ao jardim
de ti — um livro, uma palavra, o peso
do silêncio
para me levarem ao poço de ti,
aos teus olhos que ofuscam
o cristal da manhã; à tua boca
aproximando-se da minha pele
como se regressasse a casa.
Cantar-te é desfazer o nevoeiro da minha vida,
desfiar uma chama, ardendo lenta,
que não se via. E basta-me um vinho
ou a tua língua,
ou a memória dela
para que em mim disparem águas
trémulas — ainda são — por isso
quando te amo
sou um pouco essa montanha que tece com o vento
uma combustão muito lenta muito paciente
como se todo o fulgor da vida


se concentrasse nos vales e nos rios do teu corpo.


Casimiro de Brito

AMAR A VIDA INTEIRA



De AMAR A VIDA INTEIRA  (livro recentemente publicado)

Sento-me à beira da cama
que nos acolheu: um rio.
Nadas em teu sono. Ontem à noite
...disseste: Acorda-me quando acordares.
Não tive coragem. Mas o sol começou a entrar
nos lençóis onde fomos espuma excitação.
E a minha boca não deixou que o sol
entrasse sozinho. Quando acordaste
já eu navegava. As tuas árvores sorriam
balançavam.




Casimiro de Brito

domingo, 26 de junho de 2011

NINHO

[foto © Megan Owens]

NINHO

Roubei
de um ninho de palavras
o poema
que faço teu,
a palavra mãe
vem perturbada
recuperar seu filho,
desconhece
que o coração ao abrir-se
deixa voar a escrita.

JOÃO COSTA

sexta-feira, 24 de junho de 2011

...TENHO TANTA PENA DE PERDER UM INSTANTE DOS TEUS CABELOS

Foto de Rui Videira


                                    «A tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.
não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.
aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.
mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho
tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.
aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os
teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver
e para não chorar.»

José Luís Peixoto

...QUANDO A TERNURA FOR A ÚNICA REGRA DA MANHÃ

Foto de Rui Videira

Um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, acordarei entre os teus braços, a tua pele será talvez demasiado bela e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor. Um dia, quando a chuva secar na memória, quando o Inverno for tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da nossa janela, sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar a perfeição da felicidade.


José Luís Peixoto
de Abro Páginas Encontro Espelhos

O MURO RUIU...

Foto de Rui Videira


De repente, sem dar por isso, o muro ruiu...
Chovem sons e mágoas,
lágrimas de riso e dor pelo ar


Meu mar interior galgou as margens,
...descobriu novas rotas, íngremes, ao teu encontro...
e das labaredas refulgiu a tua voz,
meu farol e meu imenso mar...


(Junho 2011 - No Conforto das Palavras)

Gil Fernando Milheiro

...ORFÃO DE TI E DE UMA AVENTURA SUSPENSA...



Que morte é a sombra deste retrato
onde eu assisto ao dobrar dos dias,
órfão de ti e de uma aventura suspensa?


Tu não eras só este perfil.
Tu não eras só este sossego aconchegado
nas mãos como num regaço.
Tu não eras apenas
este horizonte de areia com árvores distantes.


Falta aqui tudo o que amámos juntos,
o teu sorriso com as ruas dentro,
o secreto rumor das tuas veias
abrindo sulcos de palavras fundas
no rosto da noite inesperada.


Falta sobretudo à roda dos teus olhos
a pura ressonância da alegria.


Lembro-me de uma noite em que ficámos nus
para embalar um beijo ou uma lágrima,
lutando, de mãos cortadas, até romper o dia,
largo, intacto,
nas pálpebras molhadas dos lírios.


Tu não eras ainda este perfil
com uma rosa de cinza na mão direita.
Eu andava dentro de ti
como um pequeno rio de sol
dentro da semente,
porque nós – é preciso dizê – lo –
tínhamos nascido dentro do outro
naquela noite.


Esse é o teu rosto verdadeiro;
aquele rosto que vou juntando ao teu retrato
como quando era pequeno:
recortando aqui,
colando ali,
até que uma fonte rasgue a tua boca
e a noite fique transbordante de água.

Eugénio de Andrade
De abro Páginas encontro Espelhos

HÁ PALAVRAS



Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.


Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.


De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.


(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)


Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre O'Neill

domingo, 19 de junho de 2011

NÃO AGRADEÇO


Foto do José Manuel Fernandes 

Não agradeço!!!!
Peço Amor como o que dou...
Sou pássaro de berço...
Mas sei para onde vou!!!

Mas palavras belas sabem bem
Como beijos nas madrugadas...mesmo já depois de cem...
dias de noites frustradas!!!
E do amor nem falo...
que anda em mim e de mim foge!!!
é bicho é fado...
vem e vai...
mas sempre se esconde!!!


Beijos minha Linda (este foi só para ti)...D'aquino Correia

PALAVRAS



Pelos olhos profundos
e alma,
da Maria Antónia Anacleto,

esculpo
...palavras
de um passado....

Eramos sós,
da vida
e do nada,

a ternura irremediável,
na despedida das palavras,

no roubo das pisadas,

nos incêndios da alma.

Palavras.

Silêncio

JOSÉ SOTTOMAYOR

SOZINHO NA MULTIDÃO

Foto de Rui Videira
SOZINHO NA MULTIDÃO


Sozinho estou
O que eu faço para isso acabar
Existe varias pessoas em meu redor
Mas nem todas são especiais
Para ser certo
Nenhuma é especial

Sozinho eu caminho Um andar com pouca pressão
Quase morrendo
Porque estou vivo, se eu não sou especial em nada?
Já sei!
Sou mais um na terra
Que deve ser lixo
Ou ate mesmo
Peças perdidas de Deus
Bonecos quebrados


Estou sozinho
Não vejo ninguém
Não sinto ninguém
Já senti! De perto de longe
Com aqueles olhos eu sentia!
Mas quem não sentiu?
Não quero ficar mais só
Mas se for mal acompanhado
Mim deixa só
Sozinho já estou


Sozinho ficarei.......




JONAS ARCELINO DE MACEDO

sábado, 18 de junho de 2011

sabedoria para pular, de João Negreiros

                       

UMA SÓ PALAVRA

Foto de Rui Videira
Uma só palavra….


Uma só palavra incendiará o mundo.
Será nela que todas as catedrais
arderão solicitas.


Todo o legado musical, resumir-se-á
a uma única sinfonia, mesmo essa,
arderá nos últimos acordes dos violinos.


Todos os tratados, filosofias e poemas
darão uma bela pira, para iluminar as trevas.


Todas as macieiras, laranjeiras e outras
não chegarão para redimir, todas as bocas,
para atenuar a raiva de todos os dentes.


Todo o caos se renderá, à harmonia dos sentidos
e esses arderão, nas veias dos amantes.


Todas as crianças ficarão crianças.
Seus risos e canções se ouvirão, até que,
as cinzas assentem nas pálpebras do homem.


A terra no seu estertor, vomitará o húmus,
que se propunha purificar.


Nada será como dantes, depois das chuvas,
lavarem o tecido das giestas,
em rios de acesos lírios.


Nada será igual: -até no sexo redescoberto
nos amantes infinitos.


Uma só palavra incendiará o mundo
e nascerá nova vida: Amor.
A única
A eterna.


Joaquim MONTEIRO, in reflexões

sexta-feira, 17 de junho de 2011

MENSAGEM DE MADRE TERESA DE CALCUTÁ

Madre Teresa de Calcutá


A coisa mais fácil: errar.
O maior obstáculo: o medo
A raiz de todos os males: O egoísmo.
A distração mais bela: o trabalho.
Os melhores professores: as crianças.
 ...O maior mistério: a morte
A pessoa mais perigosa: A mentirosa.
O pior sentimento: o rancor.
O presente mais belo: o perdão.
O protetor mais eficaz: O sorriso
A força mais poderosa do mundo: a fé
A mais bela de todas: o Amor.

 MADRE TERESA DE CALCUTÁ




Por: Jose Nicolau da Costa

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O RASTO DO AMOR



O RASTO DO AMOR por Rogério Edgardo Xavier




Esta janela que não abre
Este quarto escuro
Onde o sol permanece no fundo do mar
Como um coral à espera dos dedos
Em devaneios por longínquos cabelos
Abrindo o seu perfume no coração da terra
Vem-me um silêncio a álcool ardendo nos lábios
Na loucura de um pássaro dardejante
Escavando nas pálpebras a humidade dos astros
Onde a semente verte na montanha de carne
E o degredo nasce por entre a cratera da boca
Suspiro um beijo teu que me devolva a vida!


Manuel Feliciano, in "Uma Flor ao Luar"

quarta-feira, 15 de junho de 2011

AS HORAS



 AS HORAS

Querido Leonard.

Encarar a vida pela frente, Sempre encarar a vida pela frente.


E vê-la como ela é. Entendê-la, finalmente. E amá-la do jeito que ela é, e então, deixá-la partir.


...Leonard. Sempre os anos entre nós.


Sempre os anos.


Sempre o amor.


Sempre as horas


 
 




 Mas ainda restam as horas, certo? Passa uma, depois outra, você atravessa uma, mas aí tem outra. Estou cansado.




(Michal Cunningham / As horas)


 
 
 




AS HORAS

Talvez As Horas (obra-prima do fantástico diretor Stephen Daldry) seja o filme mais carregado de dor de toda a última década – quiçá das últimas décadas, provavelmente um dos mais deprimentes já realizados em Hollywood. Baseado no Pulitzer Prize de Michael Cunningham (adaptado pelo competente David Hare), As Horas retrata o íntimo humano sem muitas concessões; e para exteriorizar tais sentimentos, escolhe três protagonistas femininas, uma espécie de opção forçada – o que fortalece a ideia de que a mulher, independentemente do período histórico em que esteja inserida, assume determinado sofrimento com mais bravura; não apenas convive com suas limitações psicológicas, mas procura, de alguma maneira, superá-las.



A primeira delas é a escritora Virginia Woolf (Nicole Kidman interpreta-a com uma sutileza encantadora, e recebeu o Oscar), radicada em Richmond, cidade pacata e vicinal de Londres, após duas tentativas frustradas de suicídio, além do intenso bloqueio criativo. Ela trabalha na construção de seu mais famoso romance, Mrs. Dalloway, e é dele que parte todo o argumento de As Horas; canais são estabelecidos entre a narrativa e a própria existência das três personagens, cada qual afetada de maneira idêntica, embora alocadas em situações absolutamente distintas. Virginia, que em vida fora esquizofrênica e bissexual, encontra na escrita a forma de descarregar os ombros e aliviar as desgraças pessoais. O que provavelmente confunde o espectador é a calmaria aparente da vida da escritora, bem como a devoção desmedida que recebe do esposo, Leonard; perguntamos, a cada instante, o que de fato aflige a mulher, a ponto de impeli-la, logo na primeira sequência, a provocar a própria morte. A mente de Virginia é um verdadeiro labirinto, que ninguém, nem mesmo a irmã e pintora Vanessa, consegue ultrapassar. Seus surtos são frequentes e variáveis, inexplicáveis, incompreensíveis, e a única maneira que encontra para libertar-se dos fantasmas e atingir a paz pode chocar pela crueza.



A segunda personagem é Laura Brown, uma esposa que, após a Segunda Guerra Mundial, ocupa seu tempo na tentativa forçosa e quase desesperada de agradar o marido – este fato se condensa no dia do aniversário do homem, com Laura determinada a provar seu talento conjugal: ela confecciona, ao lado do filho Richie, um bolo para a comemoração. Atrás da aparente calma dos subúrbios, porém, existem detalhes que insistem em passar despercebidos (ou pela asserção da sociedade ou mesmo pela insistência de Laura em manter ocultos segredos que julga inconfessáveis). Ela luta consigo mesma, contrariando a natureza de seus sentimentos e persistindo na ideia de que, precisa, invariavelmente, honrar o compromisso que o destino lhe impôs. O resultado é o vazio emocional desolador, que a empurra em direção ao abismo – ela lê Mrs. Dalloway e se identifica com as falsas aparências da protagonista, um estímulo sinistro para a concretização de seus impulsos suicidas.





Clarissa Vaughn, a última (que carrega o mesmo nome da personagem de Virginia) está envolvida, coincidentemente, com uma festa, tal qual sua homônima: o melhor amigo, Richard, gay e aidético está prestes a receber um importante prêmio de poesia, e ela decide homenageá-lo, reunindo muitas pessoas que supostamente o admiram, numa confraternização. Richard, porém, carrega consigo fantasmas tão assustadores quanto aqueles de Virginia Woolf, e sua relação com Clarissa, que se estende há anos (e é ligeiramente malfadada), contamina a mulher e a aproxima de sua loucura. Clarissa, que viveu 50 anos anulando seus planos para buscar a harmonia com seus pares – Sally, a companheira lésbica, Julia, a filha de proveta e Richard, o amante bissexual (?) improvável – é colocada, repentinamente, numa encruzilhada, onde uma decisão definitiva será exigida pelas circunstâncias.





O que une as três narrativas e aproxima-as fantasticamente é a imagem imaculada que, nós, seres humanos, procuramos desenvolver – na intenção altruísta de recebermos carinho e aceitação. A incapacidade que as três mulheres encontram em lidar com as prórpias vidas é de uma intensidade massacrante, e nos atinge de modo certeiro; é difícil não se identificar com o sofrimento que pulsa da tela, a nos perguntar se somos ou não portadores dos mesmos males, e pior, se como elas, procuramos censurá-los. Curiosamente, contudo, As Horas pode ser encarado como uma redenção, uma subsversão, uma rebeldia – deliberada ou providencial. Encontramos a solução de nossos problemas às custas de que outros os absorvam? A resposta não é clara. O que soa translúcido é apenas a certeza de que, para estarmos em harmonia com nós mesmos, páginas precisam ser viradas, dores superadas, e novos caminhos desbravados – pareçam eles condenáveis ou não.





NOTA

terça-feira, 14 de junho de 2011

A ESCOLHA DE SOFIA

Meryl Streep


                              

Ela não teve escolha.


A escolha de Sofia, baseado na novela de mesmo título de William Styron, foi o filme que consagrou Meryl Streep; com uma irretocável atuação, ela ganhou o Oscar e todos os outros prêmios disponíveis, como uma mãe que tem que fazer uma terrível escolha. O trabalho de Meryl Streep já se mostra genial neste filme, a grande emoção do dilema, que ela faria diferente em As Pontes de Madson; o capricho no sotaque, que ela faria em outra língua em A Casa dos Espíritos. E a vivência; quando um ator consegue nos passar a vivência do personagem (vida anterior), ele atingiu a perfeição do seu trabalho. A sua Sofia é linda, muito frágil, muito carente, sorri e dança. Mas sempre percebemos sob esse arcabouço, um grande peso. Cada olhar de Sofia denuncia sutilmente esse segredo. E ela apenas segue vivendo do momento, como que sem propósitos. Tem por companheiros seu amante Nathan e o amigo dos dois, o jovem escritor Stingo. Os três são amantes de literatura e citam autores americanos importantes, durante o filme. Há uma cena muito bem feita e interpretada pela Meryl, que me causou certo desgosto: Sofia, incipiente com a língua inglesa, se encanta pela poesia de Emily Dickinson (maior poetisa norte-americana; corram para conhecê-la). Ela vai à biblioteca e pergunta ao bibliotecário onde fica o catálogo dos grandes poetas americanos de século XIX, pois gostaria de encontrar Dickens “Emily Dickens”. O bibliotecário azedo, lhe aponta o caminho, mas lhe diz que ela não encontrará nenhum Dickens lá, pois Dickens é inglês (Charles Dickens). Ele sabe muito bem o que Sofia procura, mas em vez de lhe orientar, prefere ser ignóbil e desdenhá-la. Este fato lamentavelmente acontece de verdade nas bibliotecas e eu fico desgostoso porque sou um bibliotecário. Algo parecido acontece no filme Simplesmente Feliz, com um livreiro azedo. As cenas de Auschwitz devem ter servido de fonte, onde muitos filmes de hoje sobre o holocausto beberam. O filme tem uma ótima trilha sonora, tem um momento em que Nathan, meio ensandecido, rege o finalzinho da nona sinfonia de Beethoven. A fotografia é um primor, que favorece o clima de intimismo que ronda os três personagens. Belo filme; bela direção do Alan J. Pakula. No fim do filme, Stingo, vendo os dois amigos inanimados na cama, lê o seguinte trecho de Emily Dickinson:


Façam ampla esta cama.


Façam esta cama com temor;


Nela esperem até o dia do Juízo Final


Excelente e claro.


Seja direito o colchão,


Seja redondo o travesseiro;


Não deixem o alarido que causa o amarelado nascer do sol


Perturbar este solo. (Tradução minha)


A cena mostra a folha de rosto do livro. É uma preciosidade nos dias atuais. Uma edição dos SELECTED POEMS of EMILY DICKINSON. Com introdução de Conrad Aiken. Editado por THE MODERN LIBRARY, New York.


Danilo Ator

segunda-feira, 13 de junho de 2011

MÃE! GOSTAS DE MIM?

O Zito

Sinto o que sentes




Mãe! Gostas de mim?
Humm... deixa-me pensar!
Deixa-me comer um bocadinho do teu braço! Deixa-me cheirar o teu pescoço! Dar um beijinho de passarinho na tua barriga! Deixa-me apertar-te num abraço, para ver o que sinto, meu amor!
Mãe, o que é o amor?
O amor... o amor é tão simples e tão complicado de explicar!
Explica-me o... o simples!
O amor faz-te sorrir... faz-te chorar,
faz-te respirar... e tira-te o ar!
Sem chocolates comer a barriga faz doer
e, por amar, consegues sentir dentro do corpo borboletas a voar!
Ó Mãe! Estás a complicar...
Se não for assim não to sei explicar!
Então encosta o teu calor no meu calor, para eu sentir o que é amor!


Luisa Azevedo



Luisa Azevedo







A VOZ


A VOZ

A voz liberta-se

Só o tempo marca as palavras
E com ele leremos os sinais.
As tuas formas, e as minhas juntas,
bastarão, para o livro se abrir,
para alcançar a luminosidade da boca.




Nada, nem o espaço no tempo se confina
Às vozes balizadas pela fala.
Só o grito é livre nas memórias.
Por isso tão próximo do devir.


Próximo; tão próximo do orgasmo.
Rente à pele, mas tão fundo no sentir,
de fecundar a liberdade do ventre,
e chamar a lua, p´ro fundo dos olhos.
-já mortiços nas falas desgastadas.


Só a aurora, nos dá a capacidade de amar
e de falar, ao mesmo tempo que o dia.


Joaquim MONTEIRO
2011-06-13

AS PONTES DE MADISON COUNTY

Clint Eastwood e Meryl Streep



AS PONTES DE MADISON COUNTY

Comentário : Um filme fascinante...o esporádico encontrar da essência do que concebemos nosso verdadeiro amor...o perder do mesmo em esquinas de instantes...nas lágrimas de chuva que pulsam nos semáforos de viver...as interrogações que deixamos,permanentemente,interrogadas nas rugas e nos fulgores da nossa alma.Não é bem um simples filme...é um poema lindíssimo...eternamente marcante.

POR JOSÉ SOTTOMAYOR
  (Fotos de José Sottomayor captadas através do filme)


Meryl Streep

Clint Eastwood



domingo, 12 de junho de 2011

MY FAVOURITE STAR

José Sottomayor
" My favourite star "

Ao teu lado,
na brancura branda
de um fim
de um dia,
aconchego-te,
afago-te os olhos
para adormeceres,
adoço a tua alma
pausada a voz
pousado o beijo.
repousado
o desejo.
Conto-te
uma das minhas histórias...
Era uma vez
a minha estrela favorita........


Quando olho a noite
e dela o negro retiro.
as estrelas envergonham-se
de eu ter escolhido
a parte do meu céu,

mas recurso não há
quando os olhos vêem,
nem mesmo a condescendência
de te pousar na memória,
os momentos
dos nossos momentos,


curtos
que belos e singelos
fizeram o florir
(dos novos pensamentos)
ao cair da tarde sem data,
as folhas brancas encantam-se
nas tuas vozes únicas e raras,
intento ouvir-te
no nevoeiro das tuas palavras
escritas nas pedras,


elas falam sensatas,
elas estão semeadas
e são searas


elas são palavras,
amadas,
sementes
plantas
de nós,
ternas-eternas.


nas minhas folhas brancas,
uma lágrima negra,
sorridente,
escorreu,
meigamente,
e desenhou
a linha do teu corpo,


e,
no negro fino
da maior certeza,


pousou,
desenhou,
a tua alma,


a tua sempre,
nossa,
branca e negra.
beleza.

Já dormes.......dorme bem.

José Sottomayor

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O AMOR IRÁ ACONTECER

Luisa Azevedo

Luísa Azevedo ‎...



sei que um dia,
um dia sem destino,
nesse dia há-de acordar
...enlaçada num caloroso olhar
e um dia, um dia sem saber,
esse seu amor irá acontecer.

obrigada!


beijinhos
Luisa Azevedo num comentário para mim
no facebook

O AVESSO DA VIDA

Curitiba,O/T de Edgardo Xavier

O AVESSO DA VIDA

Estavas ali, na minha frente, trinta anos depois. De ti só restavam os olhos, ainda brilhantes, aflorando das rugas que te marcam o rosto. Ainda elegante, com restos de uma sensualidade antiga, abriste-me os braços . Esperei décadas por este momento e, no turbilhão de sentimentos e emoções, tudo foi diferente. Não havia juventude para validar o abraço, nem esperança para promover o futuro ou perdão para renovar antigas propostas. De súbito, apesar de juntos neste amplexo de afectos, éramos como dois estranhos à procura de si próprios. Náufragos das circunstâncias, dirias a seguir.
No teu rosto vi a minha decrepitude e tu, no meu olhar, hás-de ter encontrado a mulher gasta em que te tornaste depois de teres cumprido o teu destino. De comum, já nada achámos para partilhar e as palavras, a rasgar a garganta, eram expressões de revolta, de saudade, de desespero face ao deserto em que nos tornámos. Chorámos. A mágoa do que vivemos isolados, a impotência e, sobretudo, o facto de termos histórias que só agora voltam a tocar-se, não para uma conjugação merecida, mas para ratificar o afastamento.
Nos escaninhos da memória, porém, ainda há belos dias de sonho, momentos de uma paixão indelével que talvez possam perdurar para ilustrar o nosso tempo. Lembras-te? Foi esse fio que começou, então, a ligar dias solenes e velhas manifestações dos sentidos. Trouxe aromas de prado e flores, estrelas ao breu da noite, poemas que ficaram por dizer...
De novo a guerra e a partida. O pranto que humanizou os vivos, o silêncio em que sepultamos tudo o que acabou por já não ter razão nem vez. Reviver, talvez seja sofrer em dobro mas também é, acredito, voltar a sentir o calor do teu corpo jovem, a humidade da tua boca sempre ávida, os teus dedos a dedilhar fantasias no meu sexo. A mim me basta fechar os olhos para te fazer regredir no tempo e no espaço. E quero fazê-lo para o resto dos meus dias. Quero que voltes aos teus risos, que acendas o teu coração. Que voltes para lá, para o tempo em que a felicidade tinha gosto de fruta madura e cheiro de terra molhada, no cacimbo.
Claro que não posso manter os olhos fechados muito mais tempo, recordas-me. Abro-os, finalmente, e de novo a tua figura me arrasta para este presente cheio de realidades difíceis. Falas de filhos, de um marido que se cansou de só ser, ao teu lado, um amigo tolerado. Duro é viver-se uma paixão pela pessoa errada. É como amar uma pedra, confirmaste. Pedir-lhe, depois de tanto tempo à espera, que continuasse contigo seria exigir ainda mais a quem já tinha dado tudo. Vida, conforto, família. Ficaste só quando seria importante que alguém te dissesse que continuavas bela, que te mantinhas atraente mesmo quando, da cabeça aos pés, das emoções ao pensamento, tudo persistia em envelhecer. Essa era a mais grave faceta da tua melancolia, um caso sem solução, um incontornável problema, uma angústia que ninguém poderia resolver.
Ninguém? Foi, nessa altura, que eu voltei ao teu pensamento. Retiraste-me do mais fundo da memória e admitiste que talvez ainda fosse possível regressar ao passado. Estaria, eu também, a sofrer os efeitos da idade e, portanto, quem sabe se, reunidos todos os pedaços da nossa história comum, não poderíamos voltar a ser felizes? Nunca esperaste ver, no meu lugar, um velho e gentil senhor assim como eu jamais contei que estivesses transformada nessa frágil dama encanecida. Definitivamente, já nada temos para dizer um ao outro. A amizade perdura quando a cultivamos e nós deixámos que os anos embotassem a beleza dos nossos registos. Receio que não me seja possível voltar a conviver contigo. Hei-de tentar esquecer que nos reencontrámos para me ser possível recuperar-te como eras nos meus sonhos.


Edgardo Xavier
Publicado no Recanto das Letras
Código do texto: T1756608

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A ALMA DE OUTREM É O UNIVERSO

Foto de Rui Videira

A ALMA DE OUTREM É O UNIVERSO

"É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!


Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.


Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo."


Fernando Pessoa

sábado, 4 de junho de 2011

SEGREDOS EM DEGREDO

Foto de Paul Anderson

SEGREDOS EM DEGREDO

Deixei pelo chão
ilhas de segredos,
pequenos rochedos
num trilho para o meu coração.
Ofereci-te as horas
para trepares a minha muralha
e encheres de presença
o meu tempo.
Confiei-te as chaves
para me [re]abrires em futuro
e fiz dos dias teu soalho
para ser sombra do teu corpo.
Construíste-te castelo dentro de mim,
d’amurada da tua vontade
lanças-te em cordas para te salvar,
mas deixas que correntes te prendam
em esconderijos por desvendar,
lúgubres espaços ocultos,
fragmentos de vida a que não pertenço,
destino dos sorrisos em degredo.

João Costa

sexta-feira, 3 de junho de 2011

ARTE POÉTICA

Foto de Rui Videira

ARTE POÉTICA


o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é uma palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.


José Luís Peixoto, in A Criança em Ruínas

AMOR

Foto de Rui Videira

AMOR

Fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre

sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.


eu sei exactamente o que é o amor. o amor é saber


que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.


o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte


de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.


o amor é ter medo e querer morrer.

In “A Criança Em Ruínas”, José Luís Peixoto


quinta-feira, 2 de junho de 2011

AGORA SIM


JOSÉ SOTTOMAYOR


Agora sim,
em pleno,
nos íntimos
do íntimo.


...(o piano soa longe,perdido,errante,sofrido,....out "off" the record)


Beijavas-me,
acendias-me os olhos,
incendiavas-me as mãos,
apagavas o fogo
no meu corpo.


Beijo-te,
o teu olhar,
as tuas mãos,


percorro o teu corpo,
danço o lume
de nós.


Morro,
vértice,
de ti.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

DIA DA CRIANÇA

Os meus netos

POEMA DEDICADO AOS MEUS NETOS AFONSO e MANUEL

Já fui sonho... projecto ... feto...
Hoje, sou como o raiar de um novo dia,
O brotar de uma semente,
O desabrochar de uma flor!
Sou como uma doce melodia,
Com autor e partitura,
Só preciso que me "toquem" com ternura,
Para que eu possa ser gente!
Do bem, quero ser sempre contexto,
Não nasci para ser avesso!
Sou portador de sol,
Trago luz,
Alegria e esperança,
Afinal sou criança,

Walter Pimentel 
Isabel Guerreiro



CURA


CURA


No teu corpo
abandonado,
deito o meu
magoado,
nas tuas feridas
curo minhas chagas,
no teu deserto
deposito minha sede
e em fome
és-me alimento.
Quando a solidão anoitece
na pele que despes,
são minhas
as carícias que acordas
para te vestir de prazer
a vontade que acompanho!


JOÃO COSTA