| Joaquim Pessoa |
DIA 301
Uma coisa. Outra coisa? A mesma coisa? Que coisa? Onde
está essa coisa? Na minha língua? No meu sapato? No meu
silêncio? Ou na minha coragem? Onde está? Onde mora?
Onde espera por mim? Onde quer que a encontre? Essa coi-
sa é milagre? Essa coisa é contágio? E que quer essa coisa?
Quanto mede essa coisa? Quanto vale essa coisa? Mastigo
essa coisa? Respiro essa coisa? Amo essa coisa? Será minha
essa coisa? Será rica essa coisa? Será erva, será canto, será
fome, será triste, essa coisa? Será vento, e fábula, e castigo,
essa coisa? Será fuga, delírio, desprezo, caminho, verdade,
jogo? Qual é a coisa, afinal? Uma coisa simples? Uma sim-
ples coisa? A coisa certa? Uma certa coisa? Coisa boa? Coisa
estranha? Coisa rápida? A melhor coisa? A pior coisa? Coisa
amiga, coisa boa, ou coisa que embaraça, coisa vingativa,
coisa tola, coisa pobre, coisa frágil? Não sei da coisa, não co-
nheço a coisa, nada posso dizer da coisa.
Seja esta coisa o que for, esteja esta coisa onde estiver, faça
esta coisa o que fizer, terrível ou fantástica, meu Deus, que
coisa esta!
JOAQUIM PESSOA
(Do livro a publicar, ANO COMUM)
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