Talvez As Horas (obra-prima do fantástico diretor Stephen Daldry) seja o filme mais carregado de dor de toda a última década – quiçá das últimas décadas, provavelmente um dos mais deprimentes já realizados em Hollywood. Baseado no Pulitzer Prize de Michael Cunningham (adaptado pelo competente David Hare), As Horas retrata o íntimo humano sem muitas concessões; e para exteriorizar tais sentimentos, escolhe três protagonistas femininas, uma espécie de opção forçada – o que fortalece a ideia de que a mulher, independentemente do período histórico em que esteja inserida, assume determinado sofrimento com mais bravura; não apenas convive com suas limitações psicológicas, mas procura, de alguma maneira, superá-las.

A primeira delas é a escritora Virginia Woolf (Nicole Kidman interpreta-a com uma sutileza encantadora, e recebeu o Oscar), radicada em Richmond, cidade pacata e vicinal de Londres, após duas tentativas frustradas de suicídio, além do intenso bloqueio criativo. Ela trabalha na construção de seu mais famoso romance, Mrs. Dalloway, e é dele que parte todo o argumento de As Horas; canais são estabelecidos entre a narrativa e a própria existência das três personagens, cada qual afetada de maneira idêntica, embora alocadas em situações absolutamente distintas. Virginia, que em vida fora esquizofrênica e bissexual, encontra na escrita a forma de descarregar os ombros e aliviar as desgraças pessoais. O que provavelmente confunde o espectador é a calmaria aparente da vida da escritora, bem como a devoção desmedida que recebe do esposo, Leonard; perguntamos, a cada instante, o que de fato aflige a mulher, a ponto de impeli-la, logo na primeira sequência, a provocar a própria morte. A mente de Virginia é um verdadeiro labirinto, que ninguém, nem mesmo a irmã e pintora Vanessa, consegue ultrapassar. Seus surtos são frequentes e variáveis, inexplicáveis, incompreensíveis, e a única maneira que encontra para libertar-se dos fantasmas e atingir a paz pode chocar pela crueza.

A segunda personagem é Laura Brown, uma esposa que, após a Segunda Guerra Mundial, ocupa seu tempo na tentativa forçosa e quase desesperada de agradar o marido – este fato se condensa no dia do aniversário do homem, com Laura determinada a provar seu talento conjugal: ela confecciona, ao lado do filho Richie, um bolo para a comemoração. Atrás da aparente calma dos subúrbios, porém, existem detalhes que insistem em passar despercebidos (ou pela asserção da sociedade ou mesmo pela insistência de Laura em manter ocultos segredos que julga inconfessáveis). Ela luta consigo mesma, contrariando a natureza de seus sentimentos e persistindo na ideia de que, precisa, invariavelmente, honrar o compromisso que o destino lhe impôs. O resultado é o vazio emocional desolador, que a empurra em direção ao abismo – ela lê Mrs. Dalloway e se identifica com as falsas aparências da protagonista, um estímulo sinistro para a concretização de seus impulsos suicidas.

Clarissa Vaughn, a última (que carrega o mesmo nome da personagem de Virginia) está envolvida, coincidentemente, com uma festa, tal qual sua homônima: o melhor amigo, Richard, gay e aidético está prestes a receber um importante prêmio de poesia, e ela decide homenageá-lo, reunindo muitas pessoas que supostamente o admiram, numa confraternização. Richard, porém, carrega consigo fantasmas tão assustadores quanto aqueles de Virginia Woolf, e sua relação com Clarissa, que se estende há anos (e é ligeiramente malfadada), contamina a mulher e a aproxima de sua loucura. Clarissa, que viveu 50 anos anulando seus planos para buscar a harmonia com seus pares – Sally, a companheira lésbica, Julia, a filha de proveta e Richard, o amante bissexual (?) improvável – é colocada, repentinamente, numa encruzilhada, onde uma decisão definitiva será exigida pelas circunstâncias.

O que une as três narrativas e aproxima-as fantasticamente é a imagem imaculada que, nós, seres humanos, procuramos desenvolver – na intenção altruísta de recebermos carinho e aceitação. A incapacidade que as três mulheres encontram em lidar com as prórpias vidas é de uma intensidade massacrante, e nos atinge de modo certeiro; é difícil não se identificar com o sofrimento que pulsa da tela, a nos perguntar se somos ou não portadores dos mesmos males, e pior, se como elas, procuramos censurá-los. Curiosamente, contudo, As Horas pode ser encarado como uma redenção, uma subsversão, uma rebeldia – deliberada ou providencial. Encontramos a solução de nossos problemas às custas de que outros os absorvam? A resposta não é clara. O que soa translúcido é apenas a certeza de que, para estarmos em harmonia com nós mesmos, páginas precisam ser viradas, dores superadas, e novos caminhos desbravados – pareçam eles condenáveis ou não.
NOTA
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