FALA-ME!
Fala-me do tempo
em que o poema descia
degraus de estrofes nascidas
em vulcões ignotos de alvoroço.
Fala-me do tempo
em que rasgados os silêncios,
as palavras antecipavam
a batalha das línguas.
Fala-me do tempo
em que as horas se pediam
rotação de eixo único
num centro alheio do mundo.
Fala-me do tempo
em que os corpos não se gastavam
e a noite era uma travessia
a que nos ancorávamos.
Fala-me do tempo
para que não me esqueça
desse tempo que nos esquece!
João Costa
a imagem turva-se
mas a visão tem o alcance do mais longo abraço.
de olhos fechados recupero o aroma do teu corpo,
sinto o toque das tuas mãos no intervalo dos meus dedos,
chego a ouvir-te falar sobre a minha almofada
...enquanto descanso os cabelos nos teus ombros,
e as palavras dão tantas vezes lugar aos beijos
entremeados de sílabas estonteadas e húmidas,
entre sorrisos,
entre o mordiscar dos lábios que, quando sangram,
ruborizam o deseja e atiçam nas línguas a vontade de toda uma boca caber na outra boca.
continua a falar enquanto beijas
para que nunca esqueça a tua voz.
Luisa Azevedo
sussurro códigos duma língua
enquanto dissolvo palavras num beijo
humedecem-se os lábios por tocar
e descubro uma nova voz
em sílabas roucas que as mãos preenchem.
João Costa
pede-se o toque
ao de leve,
de longe... ilusão!
a pele delicada da boca
...fala a cor das nuvens
que procuram um céu
rosado
molhado
onde a língua possa perder-se no voo.
Luisa Azevedo

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