quarta-feira, 16 de novembro de 2011

É POSSÍVEL GOSTAR DOS OUTROS SEM GOSTARMOS DE NÓS?

Foto de José Manuel Fernandes
POR MANUEL XARÁ



É POSSÍVEL GOSTAR DOS OUTROS SEM GOSTARMOS DE NÓS?


Às vezes apetece-me estar junto das estrelas, abro os olhos, a lua nova não fere, e com o sussurro das ondas, contemplo-as e brinco com elas .


Às vezes apetece-me voar, cerro os olhos, sonho, e de repente aí está ela, volteando graciosamente numa relação misteriosa e fascinante com o vento, a gaivota paira, como o sonho e segue o mesmo caminho, o depósito de lixo o mesmo onde depositamos os sonhos.


Às vezes apetece-me odiar, mas ainda não cresci o suficiente, vou naquela parte de amar, o que no momento actual não dá jeito nenhum e ainda por cima está fora de moda, aliás, esteve sempre fora de moda, do amor não reza a história. É claro que isso dá um jeito bestial para fazer telenovelas, canções, manifestações, ONGS, movimentos de solidariedade em nome do amor pelos outros etc. E no entanto todos os dias as expressões de ódio nas suas mais diversas formas rodeiam-nos e mais do que isso submergem-nos num sentimento de quase fatalidade de que o mundo é mesmo assim. E não será?


É possível gostar dos outros sem gostarmos de nós ?


Sem narcisismos penso que não, quanta humildade e autenticidade são precisas para gostarmos de nós, quanta sensibilidade e tolerância são necessárias para gostarmos dos outros e quanto do nosso tempo dedicamos a pensar nisso? Nenhum. O que em última análise é bem comprovativo de que os tempos não são de afectos, antes de utilizações. Quer dizer, entre conviver com um idiota que vê as estrelas e um outro que é a estrela (pode ser a do Mercedes), há uma esmagadora tendência poética a favor do primeiro e uma absoluta envolvência com o segundo.


Acredito que o maior sucesso da clonagem vai ser a produção de seres descartáveis, disponíveis em qualquer prateleira de supermercado, poderemos escolher a cada momento quem mais e porquê nos convém amar e depois desfazermo-nos deles quando já não servirem para coisa nenhuma. Acabei de escrever isto e a única coisa estranha é que ainda não estavam disponíveis nas tais prateleiras do supermercado, em tempo de inovação é uma falta imperdoável a ausência de um projecto destes, alguém que lance o alerta a um desses génios que por aí abundam com ou sem diploma.


Cá por mim nunca gostei de entrar em supermercados, sinto-me uma ovelha dentro do redil e depois venho com a lã e sou tosquiado num corredor feito à medida para uma ovelha de cada vez, antes ao ar livre com a lã ao vento, vendo as estrelas, cheirando as flores e partilhar isso com quem amo e depois juntos, escolhermos o momento, o lugar, a forma e por quem queremos ser tosquiados. Talvez ovelhas, mas livres e únicas, jamais deixaremos fazer uma Dolly, é tão bom morrer quando se viveu feliz!


Eu continuo a viver mais feliz, mais livre, mais velho, mais infantil, mas mais triste porque outros, demais, só continuam a viver, com o fato e gravata mais conveniente ou com a camisa fora das calças nos momentos de lazer, um ar de abandono e distância das coisas simplesmente terrenas e preparados para mudarem o mundo todos os dias, obviamente mudando para o mesmo é por isso que são conhecidos pela geração do ângulo raso ou volta inteira (360 graus), essa concepção geométrica da vida que lhes diz que a distância mais curta entre dois pontos é uma recta e no entanto aqui estou eu para provar que isso é mentira e que a geometria é um contributo insignificante para a resolução de um desafio matemático complexamente simples chamado vida, e aí, essa coisa das rectas costuma dar grandes curvas .


Não sei quem disse mas de facto a Arca foi construída por um criador de animais e navegou por entre tempestades nunca vistas, parece ter aterrado no cimo de um monte qualquer. O Titanic foi feito por profissionais e aterrou no fundo do mar.


Conclusão : entre a arca e o Titanic a diferença residiu no conceito, a primeira foi feita para ajudar numa causa, o segundo para servir a vaidade humana. Tenho aqui uma arca em casa com tamanho suficiente para nela caberem quem tem causas, está aberta, entrem e sirvam-se . Aos outros desejo-lhes a viagem possivel no Titanic, tenham cuidado e não se esqueçam dos coletes de salvação.


De qualquer modo não vou chorar por vós, posso sempre corromper-me, ir ao supermercado e comprar por bom preço outros iguais .




CARLOS GUELHIN


Manuel Xará



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