terça-feira, 1 de novembro de 2011

ANO COMUM


DIA 36






Desenhei um astro com as tuas últimas palavras para


que, à sua luz, nenhumas outras nos firam e separem.


O fogo desse astro há-de cauterizar as feridas, aque-


cer o corpo e a língua, e o sangue conhecerá outros


caminhos, outros brilhos e outros assombros.


Escrever-te é como fundar uma estrela, fecundar uma


estrela, e é dádiva, dor, respiração unânime.


Dou-te as minhas palavras como te dou a nudez das


minhas mãos ainda jovens. Nelas encontrarás a maté-


ria ruim da inquietação, o secreto território onde se


despem as noites, mas também os dias claros pelo en-


tusiasmo da luz, e o madrigal da liberdade que é o co-


ro dos pássaros, dos felizes, dos que mastigam alegria.


Dou-te as minhas palavras porque mais não tenho pa-


ra dar-te. E delas faço um hino ao que procuro, através


da fala, através da escrita, através do amor: a minha li-


mitada perfeição.


JOAQUIM PESSOA, in "ANO COMUM"

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