DIA 36
Desenhei um astro com as tuas últimas palavras para
que, à sua luz, nenhumas outras nos firam e separem.
O fogo desse astro há-de cauterizar as feridas, aque-
cer o corpo e a língua, e o sangue conhecerá outros
caminhos, outros brilhos e outros assombros.
Escrever-te é como fundar uma estrela, fecundar uma
estrela, e é dádiva, dor, respiração unânime.
Dou-te as minhas palavras como te dou a nudez das
minhas mãos ainda jovens. Nelas encontrarás a maté-
ria ruim da inquietação, o secreto território onde se
despem as noites, mas também os dias claros pelo en-
tusiasmo da luz, e o madrigal da liberdade que é o co-
ro dos pássaros, dos felizes, dos que mastigam alegria.
Dou-te as minhas palavras porque mais não tenho pa-
ra dar-te. E delas faço um hino ao que procuro, através
da fala, através da escrita, através do amor: a minha li-
mitada perfeição.
JOAQUIM PESSOA, in "ANO COMUM"

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