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terça-feira, 1 de novembro de 2011

DANÇA DAS HORMONAS

Fo identificada nesta foto por quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen

DANÇA DAS HORMONAS


Diniz: A música deu-me pinceladas de cor nos olhos enquanto a via chupar um rebuçado de menta que lhe refrescava a boca e apaladava a língua. Os seus beijos semearam então frescura pelo meu peito afora, aventuraram-se na subida do meu ventre e descaíram pelo valado até ao meu sexo. Os seus beijos pareciam mais jovens, porque a sua boca apaixonadamente quente, se tornara de repente apaixonadamente fresca. Então ela parou, bebeu da taça de champanhe e mergulhou em mim de novo. E a língua em gelo, mentolada, com o espumante a borbulhar-me no sexo guindado ao céu da sua boca, inflamava-me os sentidos. E sentia-me cada vez mais quente naquele beijo frio, que descia e subia, decalcando com os lábios as minhas veias, densas, em estado de guerra.




Num derradeiro afago de lábios, a sua boca encheu-se de mim e semeei de branco a campina húmida da sua língua. Noite fora, o meu corpo ressurgiu altivo por dentro dela, como se fosse o nascer do sol numa selva, húmida e quente, onde tudo parece selvagem. Assim me pareceu Dora nessa noite.


A sedução começa com um olhar. E num momento altera-se o batimento do peito e até o cheiro que exalamos. Apesar da evolução, temos sempre uma veia animal que nos denuncia. Uma matriz primária que nos leva aos rituais mais básicos como os do acasalamento. Somos machos e fêmeas numa lendária dança de hormonas.


A Dora sempre me aqueceu o sangue. Mas depois de divorciada mudou o seu olhar e o seu cheiro. No meu instinto de animal predador, sabia que tinha chegado a hora…




JOÃO MORGADO, in DIÁRIO DOS INFIÉIS (Oficina do Livro, 2010)

Together in eternity, by Elizabeth Silk