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| Amália Rodrigues |
DIA 175 (PENSANDO AMÁLIA)
Podia ouvir-te cantar a noite toda.
... Como se fosses um desejo, como se fosses a minha
respiração, o resultado do encantamento que só os
sapos têm pelas estrelas maiores.
Não há pássaros na tua voz. Terrenos, ou celestes.
Despertadas e misteriosas aves de qualquer paraíso.
Nada disso. Apenas laranjas, sombra, solidão, e a pro-
funda tristeza das casas abandonadas.
Ainda que vivos, os que te ouvimos, já morremos, fan-
tasmas a quem emprestaste a tua luz.
A tua presença repousa em mim, os teus olhos ainda
percorrem com um pouco de amargura os caminhos
do rio, as nossas comprometidas margens, afinal o pal-
co da pouca memória, coberto ainda de rosas, de feri-
das e troféus.
Não sei o que aconteceu para que tivesses de morrer.
JOAQUIM PESSOA
