sábado, 14 de maio de 2011

sexta-feira, 13 de maio de 2011

PRÉMIO CAMÕES - 2011 - MANUEL ANTÓNIO PINA

Manuel António Pina
A ferida


Real, real, porque me abandonaste?
E, no entanto, às vezes bem preciso
de entregar nas tuas mãos o meu espírito
e que, por um momento, baste


que seja feita a tua vontade
para tudo de novo ter sentido,
não digo a vida, mas ao menos o vivido,
nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade.


Oh, juntar os pedaços de todos os livros
e desimaginar o mundo, descriá-lo,
amarrando-me ao mastro mais altivo


do passado! Mas onde encontrar um passado?




MANUEL ANTÓNIO PINA

O NADA, O ABSURDO E A MINHA IGNORÃNCIA



O NADA, O ABSURDO E A MINHA IGNORÃNCIA


Alguém me disse que é nada
sem saber o que nada é realmente

...Não acreditei.

Porque se ser-se nada fosse possível,
nada seria eu certamente.


...Ahh como queria eu ser nadaporque sou nada sem o ser.


Tudo, pelo menos tudo o que julgo ver,
encerra em si o pecado original do absurdo.
Não são só as palavras, ou os actos,
É a essência do próprio homem.


Da verdade, da pura verdade...
esperava-se que fosse definitiva e absoluta,
mas que tem de definitiva e absoluta a verdade conhecida,
quando esta se faz a si mesma
de tornar inverdadeira
outra verdade?


Que maior absurdo podemos encontrar
senão a aspiração do homem à unidade
face ao intransponível dualismo do espírito
e da natureza?


E que dizer deste impulso...
...Desta vontade de eternidade,
e a irremediável finitude da existência?


...Da preocupação constante enfim,
e a inutilidade de todo este esforço sem nexo?


E por isto tudo, eu queria ser nada
...ou então tudo.


Sou consciência atormentada
que afronta o mundo,
...Enquanto animal puro
sou parte do mundo, sou o mundo
...como a árvore, a flor
e as andorinhas...
Mas como homem,
sou consciência que se opõe.
...Busco uma ordem menor
numa ordeira desordem maior
que é este mundo em mim.


Com isto tudo,
como dizer-se que se é nada?
Haverá nada verdadeiramente?
Não sei


Miguel Braancamp de Mancellos

TÃO TÉNUE É A SOMBRA


TÃO TÉNUE É A SOMBRA

Sobre a fina linha


Sei da alta claridade
Pela ausência do corpo
Na sombra
O desejo paira, sobre
A fina linha
Sobre o ponto, onde,
Os dedos
Incendeiam o tecido.


O peito arde
Os ombros na luz, são enormes
Reflectem a leveza dos lábios
O alto voo das aves
A inocência
A lágrima juvenil
O grito insustentável.


Puro o rosto, no esplendor
Das águas
Em círculos nascem os frutos
No sorriso
Inteiramente leve a sombra
Nos seios
Porque o algodão doce pega
Os lábios
Os mesmos lábios que imploram
A mente
A subtil sedução da voz.


Há uma ponte muito curta
Entre as bocas
O arco é perfeito
Sólidas as palavras, ligam
A saliva às margens
Flutuantes e elásticos
Os momentos.


Neste tempo, o cardo floriu
Já as sombras passaram
No leve romper do véu.
As cigarras cantam os últimos
Acordes
E os nossos dedos, são vaga-lumes
No caminho do sonho.




Joaquim Monteiro

INSANO

INSANO

recordo ainda ínfimas pétalas,
botões instalados no interior de um véu quase lácteo,
a florirem em estiramentos agradavelmente dolorosos.
quão frutífera é esta dor que cresce de dentro
e alimento, alimento…
esta dor a quem mato sede e fome
para que me nutra a alma,
me escorra sanguínea em tinta ainda morna.
esta dor rubra,
que azulo no ventre
e risco sempre em ondas de ternura.

LUISA AZEVEDO

quarta-feira, 11 de maio de 2011

VARIAÇÕES SOBRE UM...BEIJO


Escultura de Constantin brancusi "O beijo"

VARIAÇÕES SOBRE UM… BEIJO


Basta-me o teu beijo,
Aquele vento azul
que me incendeia.


Quero-te assim;
inteira no sentir,
a estremecer na claridade
alta do desejo
Os lábios ardem nas pedras
assustadas da tua boca,
a língua que procura nichos e
recantos
onde a labareda é mais quente
.
O trigo que procuro, vivo,
emerge desse vulcão
de aves incandescentes e nocturnas
Quero-te e volto-me para tocar os silêncios,
nus pela ausência, transparentes,
onde sinto o tecido das tuas longas mãos,
côncavas de desejo.


Sim, quero aquele pão doce
e fumegante
das madrugadas rubras, empoleiradas
no raiar dos pássaros de vidro.


Esse é o beijo
que me basta.
Pão que me alimenta,
transborda da minha fome demorada,
habita os meus sonhos diurnos.
Hoje, só hoje.


Lília Tavares e Joaquim Monteiro

SOLIDARIEDADE

ABEL ANTUNES ANTUNES


Com uma grande paixão pessoal, me dedico ao estudo de todos os felinos, nomeadamente os meusirmãos gatos que adoro. Quem sempre teve gato desde a cinqüenta anos, estabeleceu com eles uma relação que só os que estão nestas condições podem bem perceber que se vão tornando bem mais qualquer coisa do que gatos: têm uma individualidade e personalidade bem vincada. Autônomos, não precisam de nós como, por vezes, nós precisamos deles. Com o tempo um gato entra, e com o decorrer dos anos vai-se tornando a alma dessa casa.


Mas, meus amigos e irmãos deste face, devo confessar-vos que os meus interesses mais nobres se fragmentam por ações muito mais importantes: como todas as noites levar uma palavra de esperança e comida aos sem abrigo que vão, cada vez mais, enchendo ar arcadas dos prédios e outros locais mais esconsos.


Sempre que posso, vou visitar aqueles que abandonam nos hospitais e lares duvidosos, para levar-lhes uma palavra amiga e, às vezes um ramo de flores. Apesar de eu achar que a vida e uma paixão inútil,a minha consciência diz-me para não desistir dos meus irmãos e da miséria que todos os dias os sufoca.
    
Abel Antunes Antunes