terça-feira, 1 de novembro de 2011

AS ÚLTIMAS VONTADES

David Mourão Ferreira

Por PAULA MARINA COSTA




AS ÚLTIMAS VONTADES


Deixa ficar a flor,
a morte na gaveta,
o tempo no degrau.
Conheces o degrau:
o sétimo degrau
depois do patamar;
o que range ao passares;
o que foi esconderijo
do maço de cigarros
fumado às escondidas...
Deixa ficar a flor.
E nem murmures. Deixa
o tempo no degrau,
a morte na gaveta.
Conheces a gaveta:
a primeira da esquerda,
que se mantém fechada.
Quem atirou a chave
pela janela fora?
Na batalha do ódio,
destruam-se, fechados,
sem tréguas, os retratos!
Deixa ficar a flor.
A flor? Não a conheces.
Bem sei. Nem eu. Ninguém.
Deixa ficar a flor.
Não digas nada. Ouve.
Não ouves o degrau?
Quem sobe agora a escada?
Como vem devagar!
Tão devagar que sobe...
Não digas nada. Ouve:
é com certeza alguém,
alguém que traz a chave.




DAVID MOURÃO FERREIRA in "Os Quatro Cantos do Tempo"




Paula Marina Costa

O RELATO DO LUTO

José Luís Peixoto
MORRESTE-ME



"Dorme, pequenino, que foste tanto. E espeta-se-me no peito nunca mais te poder ouvir ver tocar. Pai, onde estiveres, dorme agora. Menino. Eras um pouco muito de mim. Descansa, pai. Ficou o teu sorriso no que não esqueço, ficaste todo em mim. Pai. Nunca esquecerei."
 


JOSÉ LUÍS PEIXOTO
 


Morreste-me: o relato da morte do pai, o relato do luto, uma homenagem...

FIZ-ME AO MAR

Luisa Azevedo

FIZ-ME AO MAR


Tremem-me os lábios, adejam
velas assopradas por teu fogo.
Em labaredas minhas naus navegam
tua língua, onde a minha vogo!

Náufragas caravelas, tombam
meus braços… No teu ventre afogo!
Baia de águas que mareiam,
tempestuoso o mar que arrogo!

E na tua calma me alimento,
meu dorso velejo no teu curso
para alcançar praia… Tu, nem tentas!

Em ti embalo o meu tormento,
invento o verso mais extenso.
Do nada… tudo me prometas!


LUISA AZEVEDO

ANO COMUM


DIA 36






Desenhei um astro com as tuas últimas palavras para


que, à sua luz, nenhumas outras nos firam e separem.


O fogo desse astro há-de cauterizar as feridas, aque-


cer o corpo e a língua, e o sangue conhecerá outros


caminhos, outros brilhos e outros assombros.


Escrever-te é como fundar uma estrela, fecundar uma


estrela, e é dádiva, dor, respiração unânime.


Dou-te as minhas palavras como te dou a nudez das


minhas mãos ainda jovens. Nelas encontrarás a maté-


ria ruim da inquietação, o secreto território onde se


despem as noites, mas também os dias claros pelo en-


tusiasmo da luz, e o madrigal da liberdade que é o co-


ro dos pássaros, dos felizes, dos que mastigam alegria.


Dou-te as minhas palavras porque mais não tenho pa-


ra dar-te. E delas faço um hino ao que procuro, através


da fala, através da escrita, através do amor: a minha li-


mitada perfeição.


JOAQUIM PESSOA, in "ANO COMUM"

DANÇA DAS HORMONAS

Fo identificada nesta foto por quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen

DANÇA DAS HORMONAS


Diniz: A música deu-me pinceladas de cor nos olhos enquanto a via chupar um rebuçado de menta que lhe refrescava a boca e apaladava a língua. Os seus beijos semearam então frescura pelo meu peito afora, aventuraram-se na subida do meu ventre e descaíram pelo valado até ao meu sexo. Os seus beijos pareciam mais jovens, porque a sua boca apaixonadamente quente, se tornara de repente apaixonadamente fresca. Então ela parou, bebeu da taça de champanhe e mergulhou em mim de novo. E a língua em gelo, mentolada, com o espumante a borbulhar-me no sexo guindado ao céu da sua boca, inflamava-me os sentidos. E sentia-me cada vez mais quente naquele beijo frio, que descia e subia, decalcando com os lábios as minhas veias, densas, em estado de guerra.




Num derradeiro afago de lábios, a sua boca encheu-se de mim e semeei de branco a campina húmida da sua língua. Noite fora, o meu corpo ressurgiu altivo por dentro dela, como se fosse o nascer do sol numa selva, húmida e quente, onde tudo parece selvagem. Assim me pareceu Dora nessa noite.


A sedução começa com um olhar. E num momento altera-se o batimento do peito e até o cheiro que exalamos. Apesar da evolução, temos sempre uma veia animal que nos denuncia. Uma matriz primária que nos leva aos rituais mais básicos como os do acasalamento. Somos machos e fêmeas numa lendária dança de hormonas.


A Dora sempre me aqueceu o sangue. Mas depois de divorciada mudou o seu olhar e o seu cheiro. No meu instinto de animal predador, sabia que tinha chegado a hora…




JOÃO MORGADO, in DIÁRIO DOS INFIÉIS (Oficina do Livro, 2010)

Together in eternity, by Elizabeth Silk

BASTAVA-NOS AMAR

Foto de Joaquim Pessoa
BASTAVA-NOS AMAR


Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.
Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.
Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar
a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.




JOAQUIM PESSOA

URGENTEMENTE

Foto de Rui Videira

URGENTEMENTE


É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.


É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.


É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras


Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.




EUGÉNIO DE ANDRADE