quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O TEU RISO


Praia do Furadouro (1971)


O Teu Riso

Tira-me o pão, se quiseres, 
tira-me o ar, mas 
não me tires o teu riso. 

Não me tires a rosa, 
a flor de espiga que desfias, 
a água que de súbito 
jorra na tua alegria, 
a repentina onda 
de prata que em ti nasce. 

A minha luta é dura e regresso 
por vezes com os olhos 
cansados de terem visto 
a terra que não muda, 
mas quando o teu riso entra 
sobe ao céu à minha procura 
e abre-me todas 
as portas da vida. 

Meu amor, na hora 
mais obscura desfia 
o teu riso, e se de súbito 
vires que o meu sangue mancha 
as pedras da rua, 
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos 
como uma espada fresca. 

Perto do mar no outono, 
o teu riso deve erguer 
a sua cascata de espuma, 
e na primavera, amor, 
quero o teu riso como 
a flor que eu esperava, 
a flor azul, a rosa 
da minha pátria sonora. 

Ri-te da noite, 
do dia, da lua, 
ri-te das ruas 
curvas da ilha, 
ri-te deste rapaz 
desajeitado que te ama, 
mas quando abro 
os olhos e os fecho, 
quando os meus passos se forem, 
quando os meus passos voltarem, 
nega-me o pão, o ar, 
a luz, a primavera, 
mas o teu riso nunca 
porque sem ele morreria. 

Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda

SETEMBRO DA MEMÓRIA











Setembro da memória

Vê, como Setembro torna o sol
Mais doce nos meus olhos,
E o hálito mais fresco
Nos teus lábios,
E as minhas mãos mais doceis
No lavrar da pele.

Vê, como em Setembro vindimamos
O mar, com seus peixes de ouro
E respiramos nus a luz filtrada do sol.

Vê, como te canto ao colher as uvas
Que escondes nos teus seios,
Abrindo-te a alva blusa carregada de desejo.

Vê, se não é doirado este chão em que te deito
Feito de palha sôfrega no entrelaçar dos corpos,
Em que, o calor húmido dos beijos
Faz renascer o pão que nos alimenta a alma.

Vê, se não é doce e belo, o Setembro da memória
E, não aquela saudade piegas dos corpos em desuso.

Joaquim MONTEIRO
2012-09-09

domingo, 9 de setembro de 2012

SE ME DERES A MÃO



Ana Fonseca da Luz


Se me deres a mão, para que me levante,
poisarei os meus olhos na tua boca,
e para sempre serei a palavra, 
que teu coração, 
timidamente
me murmura,
quando a minha alma e o meu corpo te comungam
no mais puro êxtase
nas manhãs que morrem,
silenciosas, no teu leito.
Se me deres a tua mão e me ergueres do chão,
deixarei a terra para sempre
e morrerei feliz
e todos os ocasos serão nossos…

Magnólia

MAR




 
Foto de José Manuel Fernandes



MAR




na baía, encontrei uma concha
e os olhos da lua, num pôr do sol distinto e
inscrito na maré baixa, 
onde deixei um pé preso nas algas
e me tornei o sonho de uma sereia que, na praia, 
criou pés e, distraída,caminhou 
em eternos sonhos de orvalho, 
recitados num teatro onde a luminosidade 



estranha



da noite,
a deixou perdida nos recantos do mar.



tornei-me navegante dessa concha,
consciente do tempo passado e futuro,
que pinto e
habito,
como se uma tela me deixasse eternizada



no mar que salgas



e transformas em chuva pálida na manhã serena.



Somos nós, nas marés,
que criamos cenas da vida que escorre na areia
e deixa marcas de pegadas
nos locais onde somos, em cada luar, seres mágicos e



indistintos.
Navegar.......



Navegar é o sonho
cavalgado pela lua cheia



numa onda que não há.



Mar.



susana duarte















Susana Duarte 





DES_ACORDO

Luisa Azevedo
DES_ACORDO


Como vamos fazer amor sem certas letras
que só a mente, e os olhos, pronunciam?
Como contorcer-nos sem acção
no acto, se tantos momentos morreriam?



Como vamos falar do “c” das coisas,
dos cactos, de uma simples erecção?
Como reconhecerá sabores qualquer palato
se em quase tudo há uma excepção?



Como ficar só na oralidade,
se é facto que fazer amor é tão sublime?
E os “p’s” que faltarem na saliva…
até o mais óptimo beijo, se deprime!



Como fazer amor só de olhos fechados
ou pensar que amar já não mais dói?
Como fica a poesia dos amantes,
se tanta grafia desconstrói?



E os dedos, pobres, perdem o caminho,
quando deixam de tactear a pele amada?
As pernas emaranham-se na roupa,
pois se o “pára” não sabemos onde anda!


LUISA AZEVEDO




DESISTIR








sim 
também a mim
por vezes me apetece desistir

mas logo volto atrás 
sabendo que
não está em mim
desistir

mas sim prosseguir
até ao fim

até que (de) contra uma parede
intransponível
bata

e a única que
intransponível existe
é a (da) própria
morte
.
mas mesmo aí
talvez alguém acabe pegando
no pau da minha bandeira
e empunhe a batuta das
minhas palavras
e gestos
.
sim
há sempre alguém que prossegue
o que deixámos
inacabado
.
assim é a humanidade
no seu caminho para
a eterna
(im)
perfeição
.
fj



Filipe Chinita



RUBRA






" Rubra "

É cedo...
para perceber...
que é tarde.

Oferece-me
a manhã imensa...
quando me tocas...
e
infinito
me tornas.

Nas tuas mãos brancas
a minha boca beija...
adormecendo
rubra.

José Sottomayor