quinta-feira, 30 de agosto de 2012

BASTAVA-NOS AMAR. E NÃO BASTAVA





Luisa Azevedo



BASTAVA-NOS AMAR. E NÃO BASTAVA

Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.

Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.

Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.

E bastava. Bastava respirar
a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.


Joaquim Pessoa

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

FADOS




Luisa Azevedo


fados


se esse teu jeito fugidio,
faz de mim menina na certeza
tão inocente, é o fazer-se frio,
tão certo, ser eu a tua presa!

corre acelerado como um rio
meu sangue, uma fogueira acesa
junto os medos nos olhos e sorrio,
mancho-me em teu corpo com pureza!

cumpra-se a terra, cumpra-se o desejo…
a fome, a sede, o sangue, a virgindade
se tanto é em ti que me revejo!

e cumpra-se o pão da boca nos teus dedos
que minha boca convocam para o beijo…
pra nela te desvendar os meus segredos!

Luisa Azevedo

FUGA

Foto de Rui Videira



FUGA

Na música do encontro, bailam as notas da melodia

que, presas no mel da noite, e tocadas na luz do dia, 
se desprendem de uma gota de chuva alheada do sol, 

e se tocam nos ombros da tarde onde, lesta, se move
a pressa de sonhar. ( A pressa de ter a tarde no rosto).

A vontade de mosto, em tarde de Setembro. O doce 
suor de Maio, uma chuva de Novembro. (De onde és?)

Na uva sacarina de uma música que se sobrepõe a mim,
A fuga é o contraforte de sons abertos ao dia. (Melodia).

Notas que fogem de outras, em alegre consonância, 
na alegria com que derramas a voz no toar da Canção.
Diafragma de uma debandada de aves inscrita na noite.

Apóstrofo de um diálogo. Ave solta. (Céu azul. E Evasão.)

susana duarte



Susana Duarte



domingo, 26 de agosto de 2012

O MAR, A AREIA, A BRISA, O SOL E ATÉ AS GAIVOTAS






Mar do Furadouro

"...O mar parecia agitado naquele segundo dia de Agosto, contrastando  com uma manhã serena, e com
uma temperatura que, embora não fosse muito alta, era convidativa para um agradável dia de praia. O mar e a areia eram os únicos figurantes de um cenário compatível com a madrugadora oitava hora do dia. Áquela hora, estariam ainda a transbordar de pessoas  todas as casas que tivessem muitos quartos, pois era aí que ainda permaneciam os futuros inquilinos do sol e da areia, ainda por pisar.
Aquela manhã estava a ser a verdadeira benemérita de alguém que, vindo de muito longe, saboreava uma atmosfera completamente diferente da sua. Tudo aqui era diferente: o mar, a areia, a brisa, o sol e até as gaivotas que, numa azáfama  infernal, davam as boas-vindas a este verdadeiro homem do mar, que elas pareciam acolher no seu mundo, reconhecendo-lhe os atributos que a sua fisionomia não conseguia esconder , nem disfarçar. Era um homem com a pele endurecida e bronzeada pelo rigor da maresia, que se passeava com as calças de ganga arregaçadas um pouco por cima do tornozelo e uma t-shirt que, apesar da frescura da manhã, apresentava já algumas manchas de suor, pelo rigor que aplicava ao seu andamento. Aquele homem parecia feliz. Saboreava o enlace das ondas com a areia, não evitando o contacto com a água enquanto caminhava, fazendo com que as suas calças aumentassem de peso e se tornassem mesmo um fardo pesado. Sentia por companhia apenas a água, a areia e as gaivotas, o que lhe transmitia uma agradável sensação de solidão mas, ao mesmo tempo, uma genuína cumplicidade com aquele meio ambiente. Era como uma solidão com companhia, uma solidão provocada, não autêntica. Já cansado de tanto andar, Christian sentou-se na areia, desta vez afastado do rebentar das ondas. Olhava a imensidão do mar. parecia ver por detrás de cada onda a silhueta de Teresa, a mulher que não conseguia esquecer e que o fez apanhar o avião para o Porto, para procurar chegar primeiro do que ela àquela praia para a qual tinha sido convidado. mas que, se não fosse secretamente ajudado pela sua amiga Tânia, nunca ali teria chegado, pois até soletrar a palavra Furadouro sentia dificuldade. Na sua mente passava todo um turbilhão de acontecimentos que na longínqua Dinamarca foram os responsáveis pela conquista de um coração que, parecendo duro, mais não era que um receptáculo de saudade. Sem dar por isso, o tempo foi passando, de tal modo que permitiu que Christian começasse a assistir à chegada dos primeiros amantes de manhãs precoces, crónicos desfrutadores de um sol ainda menino. E ali continuou sentado, atento às pessoas que iam chegando, na esperança de encontrar aquela que o fez viajar da Dinamarca até ali. Quando pareceu acordar daquela letargia, já a praia se encontrava repleta de pessoas, desaparecendo todo um silêncio agradável e retemperador, dando lugar a um ruído ensurdecedor de vozes famintas de liberdade. Levantou-se, pegou nos ténis que estavam todos molhados e dirigiu-se  à esplanada mais próxima para aconchegar o estômago com um pequeno-almoço bem mediterrânico. Apeteceu-lhe perguntar ao empregado se conhecia alguém com as características de Teresa, mas nem se atreveu; primeiro, porque o seu português era paupérrimo e depois porque achava a maior das consequências o empregado ir logo conhecer aquela que procurava. Continuou por isso a manter a forte esperança que, mais cedo ou mais tarde, a iria encontrar, até porque aquela praia não lhe parecia assim tão grande para que as pessoas não se vissem umas às outras com facilidade...."

  Do livro "A Violação" de Oscar Amorim




Óscar Amorim




Poema VI




Joaquim Pessoa

Poema VI


O que perguntas também te interroga.
Os átomos do teu coração são como os átomos
do teu cérebro. O amor é beijado por eles da mesma maneira,
a favor e contra a tua respiração.
A água do teu corpo tem milhões de anos
e todas as razões que tem o sofrimento.

A ciência é a poesia do concreto
nas gotas, nas pílulas, nos medicamentos
que acabas de ingerir. A tua dor
faz versos.

Corre para a luz. Corre para ti
correndo para fora de ti. Em ti está
tudo o que pode ser amado por ti. Abriste
que porta? Esta? Aquela? Porquê? Para quê? Sabes
a resposta não sabendo, a resposta está naquilo
que não sabes, em tudo o que nunca saberás.
Sua excelência o doido, o mais são do que a terra
e a luz, o mais puro que a dúvida,
busca-se em si e procura-se nos outros.
És tu, aquele que do mundo é número e lembrança.
Acorres a ti mesmo com um pássaro no ombro.
És náufrago na pequena ilha da tua rua, da tua cidade,
do teu mundo. E acenas. Acenas. Acenas.

Os barcos reflectidos nos teus olhos não navegam
em nenhum mar, nem sequer do outro lado
da rua. Esses barcos não existem.
Existes tu, a navegar, a correr à tua volta.
Se bem que te não digas, o sofrimento sossega-te,
envolve-te, aconchega-te. Colocas
ambas as mãos à frente do rosto,
espreitas para o interior de uma montra,
para dentro de um peito, para dentro
de uma luz. E perguntas-te: o quê?

E há um poema que é a química de ti.
E há um pensamento que é uma química de ti
E há uma dor que é uma química de ti.
E tu és uma química e uma dor
e um pensamento e um poema.

Tu hás-de compreender.

JOAQUIM PESSOA

in O POUCO É PARA ONTEM,





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SOPRO DO CORAÇÂO


Luisa Azevedo

sopro do coração

meu coração fez-se ao mar
sem embarcação, sem ventos,
sem marés para o levar
perdido em seus pensamentos.

sôfrego de navegar
na saliva dos teus beijos
e em tua boca aportar
a fome de sentimentos.

lençol azul maresia,
desfralda-se no meu peito.
tonto... vagueia à deriva!

assoprado em agonia,
vela, pano insatisfeito
que de teu amor me priva.

LUISA AZEVEDO

SOMBRA






Luisa Azevedo

sombra


de novo alma perdida neste vento

que do teu silêncio chega carregada.

na brisa ecoa este lamento,

nos olhos, tristeza enevoada.



porque me deste a paz por um segundo

e logo a levaste entre beijos, nos teus lábios?

pensava entrar num lugar profundo

nos teus olhos serenos e não dúbios.



nunca a noite se pôs assim escura

perante tanta estrela cintilante

que por breves momentos foram cura



mas nos dias que passaram adiante

voltou a mim a solidão mais dura

de não mais te saber por tão distante!


LUISA AZEVEDO