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domingo, 26 de agosto de 2012

O MAR, A AREIA, A BRISA, O SOL E ATÉ AS GAIVOTAS






Mar do Furadouro

"...O mar parecia agitado naquele segundo dia de Agosto, contrastando  com uma manhã serena, e com
uma temperatura que, embora não fosse muito alta, era convidativa para um agradável dia de praia. O mar e a areia eram os únicos figurantes de um cenário compatível com a madrugadora oitava hora do dia. Áquela hora, estariam ainda a transbordar de pessoas  todas as casas que tivessem muitos quartos, pois era aí que ainda permaneciam os futuros inquilinos do sol e da areia, ainda por pisar.
Aquela manhã estava a ser a verdadeira benemérita de alguém que, vindo de muito longe, saboreava uma atmosfera completamente diferente da sua. Tudo aqui era diferente: o mar, a areia, a brisa, o sol e até as gaivotas que, numa azáfama  infernal, davam as boas-vindas a este verdadeiro homem do mar, que elas pareciam acolher no seu mundo, reconhecendo-lhe os atributos que a sua fisionomia não conseguia esconder , nem disfarçar. Era um homem com a pele endurecida e bronzeada pelo rigor da maresia, que se passeava com as calças de ganga arregaçadas um pouco por cima do tornozelo e uma t-shirt que, apesar da frescura da manhã, apresentava já algumas manchas de suor, pelo rigor que aplicava ao seu andamento. Aquele homem parecia feliz. Saboreava o enlace das ondas com a areia, não evitando o contacto com a água enquanto caminhava, fazendo com que as suas calças aumentassem de peso e se tornassem mesmo um fardo pesado. Sentia por companhia apenas a água, a areia e as gaivotas, o que lhe transmitia uma agradável sensação de solidão mas, ao mesmo tempo, uma genuína cumplicidade com aquele meio ambiente. Era como uma solidão com companhia, uma solidão provocada, não autêntica. Já cansado de tanto andar, Christian sentou-se na areia, desta vez afastado do rebentar das ondas. Olhava a imensidão do mar. parecia ver por detrás de cada onda a silhueta de Teresa, a mulher que não conseguia esquecer e que o fez apanhar o avião para o Porto, para procurar chegar primeiro do que ela àquela praia para a qual tinha sido convidado. mas que, se não fosse secretamente ajudado pela sua amiga Tânia, nunca ali teria chegado, pois até soletrar a palavra Furadouro sentia dificuldade. Na sua mente passava todo um turbilhão de acontecimentos que na longínqua Dinamarca foram os responsáveis pela conquista de um coração que, parecendo duro, mais não era que um receptáculo de saudade. Sem dar por isso, o tempo foi passando, de tal modo que permitiu que Christian começasse a assistir à chegada dos primeiros amantes de manhãs precoces, crónicos desfrutadores de um sol ainda menino. E ali continuou sentado, atento às pessoas que iam chegando, na esperança de encontrar aquela que o fez viajar da Dinamarca até ali. Quando pareceu acordar daquela letargia, já a praia se encontrava repleta de pessoas, desaparecendo todo um silêncio agradável e retemperador, dando lugar a um ruído ensurdecedor de vozes famintas de liberdade. Levantou-se, pegou nos ténis que estavam todos molhados e dirigiu-se  à esplanada mais próxima para aconchegar o estômago com um pequeno-almoço bem mediterrânico. Apeteceu-lhe perguntar ao empregado se conhecia alguém com as características de Teresa, mas nem se atreveu; primeiro, porque o seu português era paupérrimo e depois porque achava a maior das consequências o empregado ir logo conhecer aquela que procurava. Continuou por isso a manter a forte esperança que, mais cedo ou mais tarde, a iria encontrar, até porque aquela praia não lhe parecia assim tão grande para que as pessoas não se vissem umas às outras com facilidade...."

  Do livro "A Violação" de Oscar Amorim




Óscar Amorim