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| Joaquim Pessoa |
Poema VI
O que perguntas também te interroga.
Os átomos do teu coração são como os átomos
do teu cérebro. O amor é beijado por eles da mesma maneira,
a favor e contra a tua respiração.
A água do teu corpo tem milhões de anos
e todas as razões que tem o sofrimento.
A ciência é a poesia do concreto
nas gotas, nas pílulas, nos medicamentos
que acabas de ingerir. A tua dor
faz versos.
Corre para a luz. Corre para ti
correndo para fora de ti. Em ti está
tudo o que pode ser amado por ti. Abriste
que porta? Esta? Aquela? Porquê? Para quê? Sabes
a resposta não sabendo, a resposta está naquilo
que não sabes, em tudo o que nunca saberás.
Sua excelência o doido, o mais são do que a terra
e a luz, o mais puro que a dúvida,
busca-se em si e procura-se nos outros.
És tu, aquele que do mundo é número e lembrança.
Acorres a ti mesmo com um pássaro no ombro.
És náufrago na pequena ilha da tua rua, da tua cidade,
do teu mundo. E acenas. Acenas. Acenas.
Os barcos reflectidos nos teus olhos não navegam
em nenhum mar, nem sequer do outro lado
da rua. Esses barcos não existem.
Existes tu, a navegar, a correr à tua volta.
Se bem que te não digas, o sofrimento sossega-te,
envolve-te, aconchega-te. Colocas
ambas as mãos à frente do rosto,
espreitas para o interior de uma montra,
para dentro de um peito, para dentro
de uma luz. E perguntas-te: o quê?
E há um poema que é a química de ti.
E há um pensamento que é uma química de ti
E há uma dor que é uma química de ti.
E tu és uma química e uma dor
e um pensamento e um poema.
Tu hás-de compreender.
JOAQUIM PESSOA
in O POUCO É PARA ONTEM,
.

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