sexta-feira, 28 de outubro de 2011

CANÇÃO DE AMOR





Óleo sobre tele: The Lovrs, de Leonardo De Amicis Carapucci
CANÇÃO DE AMOR 


Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
faria amor, assim, com as palavras.
Eu cantaria mesmo que tu não existisses
porque haveria de doer-me a tua ausência.


Por isso canto. Alegre ou triste,canto.
Como se, cantando, tocasse a tua boca,
ainda antes da tua presença.
Direi mesmo, depois da tua morte.


Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
ó minha amiga, doce companheira.
Eu festejo o teu corpo como um rio,
onde, exausto, chegarei ao mar.


Sim, eu cantaria mesmo que tu não existisses,
porque nada eu direi sem o teu nome.
Porque nada existe além da tua vida,
da tua pele macia, dos teus olhos magoados.


Assim quero cantar-te meu amor,
para além da morte, para além de tudo.




JOAQUIM PESSOA, in CANÇÕES DE EX-CRAVO E MALVIVER (Moraes Ed.,1977)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

TENHO QUE REENCONTRAR-TE

 
Luisa Azevedo


TENHO QUE REENCONTRAR-TE


tenho que reencontrar-te,


saber se os teus beijos são assim, reais,


como a minha boca conta por dentro


e se os teus dedos percorreram em mim


labirintos, teus!


... tenho que reencontrar-te,


olhar-te,


tocar-te,


cheirar-te de novo,


saber se o teu sabor é este néctar


que me corre na voz.
 

 LUISA AZEVEDO

UM OUTRO POEMA DE AMOR


                   Pintura de MONTSERRAT GUDIOL, firmada y dedicada a Jordi Sarsanedas


UM OUTRO POEMA DE AMOR




No fundo, as relações entre mim e ti
... cabem na palma da mão:
onde o teu corpo se esconde e
de onde,
quando sopro por entre os dedos,
foge como fumo
um pequeno pássaro,
ou um simples segredo
que guardávamos para a noite.






NUNO JÚDICE, in O MOVIMENTO DO MUNDO, ( Quetzal, 1997)

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

NASCIDA DA LUA

Foto de Jorge Ribeiro
NASCIDA DA LUA


nascida da noite e da tempestade de chuvas antigas e noites esquecidas,
vim de ti. vim das névoas das dúvidas dos corpos dos braços
e de mil embaraços que residem nos olhares nos sentires no amar.
nascida da lua crescente luzente de poeiras marinhas e de sonhos,
olho-te redonda e sei que as etéreas aragens das nuvens me flutuam
e navegam. vejo-te crescente, lua eterna e indigente de solares noites,
onde saúdas o mar e te sabes Mulher. lua incandescente, de brilho
opalescente e nú. vejo-te os ombros de dama encantada e percebo a alva
aurora de rosa inflamada. sei de onde venho. venho das noites onde és
inclemente na luz que emanas eterna potente LUA onde o sonho
flutua e me toca os seios e me toca os dedos e me toca os dedos e
me toca os olhos e me beija os olhos e me sabe os segredos.
plenilúnio de canteiros de flores amarrotadas por um beijo amarrotadas
pelo desejo de encontrar, em ti, um leito onde possa .ficar.


Susana Duarte



Susana Duarte

domingo, 23 de outubro de 2011

DESPI-ME DE ATITUDES

  

Foto de José Luís Outono

DESPI-ME DE ATITUDES...




Despi-me de atitudes
Voei no teu olhar terno
E doei-te um manto azul
No frio quebrado
Do teu corpo entregue
Até à alvorada foz.


Desafiaste o colorido
Da quietude embalo
E cinzelaste o momento
Como árvore sôfrega de fruto
Como vereda ansiosa de caminho
Como rio sem margens insaciável.


Hoje aviva-me apenas o pontão
Onde mondaste olhares e carpires
Químicas alteradas corporais
E escreveste nos lábios procura
Quase testamento uniforme
Um beijo hoje não é sinal de amanhã!
 


JOSÉ LUÍS OUTONO






José Luís Outono

CALÇADAS

Foto de Ivano Cetta

CALÇADAS




caminho sobre os passos anteriores a mim. neles, oiço as vozes e as dores
e as vidas e as cores e os passos pressentidos, caminhados, vividos. horas
e horas de diálogos e monólogos, de pessoas e casais e sociólogos e poetas
e horas negras e horas abertas, de estranhos encantamentos de descobertas
e saias de fadistas. oiço o canto das viúvas, que oram aos céus, e as luzes
das noites escuras de gatos sozinhos, onde as viúvas passam os seus dedos
e sentem o terno bater de um coração pequenino que tolhe lágrimas e solidões
de peitos sós. ternas são as pedras dos caminhos anteriores a mim. flores.


flores crescem, amarelas, por entre as pedras dos passos das vozes que ouvi
e das nozes que mastiguei em noites anteriores. crescem oblíquas e nascem
despercebidas, reais-pisadas-esquecidas e desmembradas pelos pés que escrevi
nas flores das noites de cereja onde te pressenti. nasceste em mim pelas mãos
de uma noite, terna-eterna-sonhada e sentida. por entre as rosas da noite,
soube, através de ti, onde estava. por onde ia. para onde iria. onde seria eu.
.florescem as pedras. florescem as noites. florescem lágrimas guiadas por cabelos
negros-rubros resplandecentes de luzes das imagens que amámos e deixámos
espalhadas pelas pedras, onde os nossos pés criaram flores e as mãos...
sonhámos delícias de mãos entrelaçadas, inscritas em ti, inscritas em mim, escritas nas calçadas das ruas
eternas das cidades onde, ternas, as mãos se tocaram....


SUSANA DUARTE






Susana Duarte

SENDA

Luisa Azevedo

SENDA




sabes… tantas vezes me apetece imaginar que nada foi?


passou um vulto que me ocupou o olhar, o tempo.


mas mantém-se no horizonte um navio que me segue os passos,


rumando a nenhures.


por vezes cai na fenda do sol


e amanhece nos meus sonhos de rosto queimado,


recordando-me a texturas das velas,


o aroma da noite,


as paredes da casa,


recordando-me qualquer coisa de ti!


quase sempre o último beijo,


quase sempre!


e eu fico depois a saborear-te em todos os outros beijos,


dentro dos meus.




LUISA AZEVEDO