terça-feira, 4 de outubro de 2011

QUE MÚSICA ESCUTAS TÃO ATENTAMENTE



Que música escutas tão atentamente


que não dás por mim?


Que bosque, ou rio, ou mar?


Ou é dentro de ti


que tudo canta ainda?


Queria falar contigo,


dizer-te apenas que estou aqui,


mas tenho medo,


medo que toda a música cesse


e tu não possas mais olhar as rosas.


Medo de quebrar o fio


com que teces os dias sem memória.


Com que palavras


ou beijos ou lágrimas


se acordam os mortos sem os ferir,


sem os trazer a esta espuma negra


onde corpos e corpos se repetem,


parcimoniosamente, no meio de sombras?


Deixa-te estar assim,


ó cheia de doçura,


sentada, olhando as rosas,


e tão alheia


que nem dás por mim.




EUGÉNIO DE ANDRADE


LUTOS



LUTOS




A minha mãe era triste


Tinha olhos de acender luzes


 na escuridão da morte


 e era triste




Inscrevia as horas nas paredes


com o tamanho dos seus olhos


Eles cresciam nos meus


eram os dela e os meus


e eram tristes




Havia sempre um luto corrido nos dias


Era uma pequena cor no casaco


a chorar de escuridão em mim


e o mundo à volta era triste




Uma pertença longínqua


trazia-me unido à morte


sem que eu rodeasse muito os vivos


A casa tinha eternidade


era triste


II


Os meus irmãos habitavam o longe


Eu olhava a minha mãe


quando ela vinha do quarto dos mortos


Ela descontava silenciosamente


o riso de medo que nos sustinha


O mundo era magoado


A minha mãe era triste




Eu tinha as marcas de luto que me uniam à morte


num jogo áspero de soluço escasso


Os meus irmãos resguardavam – se dos retratos


festejavam os dias num jogo disputado


Eram tristes




Contava eu os velhos como surpresas junto de velas


nas nossas tão veladas brincadeiras


a que a mãe vinha assistir com cuidados


nos olhos enormes de lembranças


idades lutos e exangues pertenças


A vida tinha a morte


Era triste




Publicada por JOSÉ RIBEIRO MARTO no blogue VÁ ANDANDO

domingo, 2 de outubro de 2011

VINHAS


Foto de João Costa

VINHAS


Trazias nas mãos o essencial : a flor do lume , a pedra rubra
Um canto outonal na folha verde , no provável fruto
E um vento ligeiro zoava na brisa um véu de chuva
Ainda entretinhas palavras com a música do verão



Era outono, o fruto rente à haste
colhido numa sílaba de água a dizer boca
A festa de um dia cheia do marulhar dos pinheiros
As casas dispersas no longe fugiam soltas
Trazias nas mãos o essencial : a flor do lume , a pedra rubra




José Ribeiro Marto , Antologia de Ouro , Museu Nacional daPoesia,2010 ,Belo Horizonte , Brasil




José Ribeiro Marto

CANSAÇO

Isabel Lemos
Por Isabel Lemos


Cansaço O que há em mim é sobretudo cansaço —


Não disto nem daquilo,


Nem sequer de tudo ou de nada:


Cansaço assim mesmo, ele mesmo,


Cansaço.






A subtileza das sensações inúteis,


As paixões violentas por coisa nenhuma,


Os amores intensos por o suposto em alguém,


Essas coisas todas —


Essas e o que falta nelas eternamente —;


Tudo isso faz um cansaço,


Este cansaço,


Cansaço.






Há sem dúvida quem ame o infinito,


Há sem dúvida quem deseje o impossível,


Há sem dúvida quem não queira nada —


Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:


Porque eu amo infinitamente o finito,


Porque eu desejo impossivelmente o possível,


Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,


Ou até se não puder ser...






E o resultado?


Para eles a vida vivida ou sonhada,


Para eles o sonho sonhado ou vivido,


Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...


Para mim só um grande, um profundo,


E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,


Um supremíssimo cansaço,


Íssimno, íssimo, íssimo,


Cansaço...






Álvaro de Campos, in "Poemas"

A_BRAÇOS



a_braços



leva-me a tua casa!
abre todas as portas, todas as janelas.
deixa que o sol encharque o soalho
enquanto a luz dos seus braços rompe,
a uma velocidade estonteante, a malha secreta das cortinas.




pega-me ao colo!
deita-me nos lençóis onde já adormecemos…
tantas vezes sonhei com eles…


leva-me a tua casa, meu amor!
vamos inquietar o dia
fazendo-o perder o fôlego, avermelhar,
querer fechar os olhos, tal o espanto.
vamos fazer anoitecer!
tu nos meus braços e eu…
eu achada,
contigo dentro!
nós...
nos braços um do outro.
vamos...?
levas-me...?
é que tudo se passa nessa casa,
quando abres as portas,
as janelas,
mesmo que o sol se esqueça de acordar.


leva-me… para casa, meu amor!

Luisa Azevedo


Luisa Azevedo

FOGE-ME O CÉU

gostava que lesses no meu rosto a promessa de paz
e nos olhos encontrasses um rio seguro
onde a tua alma quisesse aproar.
Luisa Azevedo
.
FOGE-ME O CÉU

por muito que aguarde
sei que os teus olhos desertores não trarão tuas mãos,
ou elas, vazias de nós, não mais virão.
continuo a querer tocar a lua enquanto o céu se afasta,
te afastas
e visão nocturna se nubla de leitosas estrelas,
mareantes dos ares,
tripulantes de todas as barcas de todos os amantes.
e eu, navego sozinha para lá da chegada!




aproarei numa ilha que o mar não banha,
uma ilha onde no coração das conchas não há cânticos,
e não há poemas escritos nas rochas,
ou nalguma língua de areia
uma ilha onde a brisa é o frio silêncio a que me entrego
perguntando-me… que fiz eu ao amor?

LUISA AZEVEDO

DOR (IDA)

Ninianamar Portugal
Dor(ida)




Dói-me o cabelo
(não a cabeça)
mas o cabelo que cai sem ser Outono
chuva em meadas de fios (a)dourados pelo tempo
que os teus dedos já não penteiam
em suaves sobressaltos embaraçados pelo vento
cabelos livres
cabelos lisos, tão lisos
searas de trigo amadurecidas pelo teu beijo (a)guardado
rios de luz que o sol reflecte
águas revoltas no amar de corpos
cabelos meus e teus em toques de almas
cabelos que se perdem no tempo
em que as carícias
escasseiam
escorregam
pelos cabelos alinhados
finos
ralos
penteio-me no outro lado do espelho
onde
permanecem inquebráveis
os cabelos
com que te revolvo os dedos
as mãos
o olhar
o corpo até ao coração.
Sorrio aos fios dourados
com que teço gestos
de sim (n)em não

NINIANAMAR PORTUGAL