Mostrar mensagens com a etiqueta A MINHA MÃE ERA TRISTE. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta A MINHA MÃE ERA TRISTE. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 4 de outubro de 2011

LUTOS



LUTOS




A minha mãe era triste


Tinha olhos de acender luzes


 na escuridão da morte


 e era triste




Inscrevia as horas nas paredes


com o tamanho dos seus olhos


Eles cresciam nos meus


eram os dela e os meus


e eram tristes




Havia sempre um luto corrido nos dias


Era uma pequena cor no casaco


a chorar de escuridão em mim


e o mundo à volta era triste




Uma pertença longínqua


trazia-me unido à morte


sem que eu rodeasse muito os vivos


A casa tinha eternidade


era triste


II


Os meus irmãos habitavam o longe


Eu olhava a minha mãe


quando ela vinha do quarto dos mortos


Ela descontava silenciosamente


o riso de medo que nos sustinha


O mundo era magoado


A minha mãe era triste




Eu tinha as marcas de luto que me uniam à morte


num jogo áspero de soluço escasso


Os meus irmãos resguardavam – se dos retratos


festejavam os dias num jogo disputado


Eram tristes




Contava eu os velhos como surpresas junto de velas


nas nossas tão veladas brincadeiras


a que a mãe vinha assistir com cuidados


nos olhos enormes de lembranças


idades lutos e exangues pertenças


A vida tinha a morte


Era triste




Publicada por JOSÉ RIBEIRO MARTO no blogue VÁ ANDANDO