quarta-feira, 13 de julho de 2011

SINTO-ME AMADO

        Foto de Rui Videira

É  dentro do teu corpo, solto e aprumado


nesse canto à luz do luar


que me sinto amado.


É no espaldar das tuas costas. frias, nuas


que deixo os meus dedos acariciar


...o teu corpo suado.


É O sentir apressado desse bater a descompasso


em que o entrelaçar dos dedos


nos conduz ao abraço.


É, não sendo, a fortuna da vida


ou da morte frívola,


fingida, agressiva,


mas certa...


Gil Fernando Milheiro


(Agosto 2010)

FUI MARCADA POR RUI VIDEIRA NESTA FOTO

Maria Antónia Anacleto was tagged in Rui Videira's photo.


Foto de Rui Videira



Obrigada, Rui. Esta foto diz tudo....ternura, sensibilidade, felicidade,amor, amizade, vida.... 


Silva Escura; Portugal;

sábado, 9 de julho de 2011

NAQUELE JARDIM



Foto de Rui Videira

NAQUELE JARDIM 


Danosa a árvore
Danosa é aquela árvore do Éden
Naquele jardim, situado na fronteira
Do ser, e do querer ser, fruto
No maduro ventre, luminoso,
De lábios incandescentes.


A palavra reformulou os hábitos
E a maçã não é aquela
Onde o poeta ia beber o sol
E semear as sementes no coração
De todas as mulheres maduras,
Abertas à luminosidade do poema,
À doçura dum tempo novo,
De seios iluminando o mundo.
Amamentando, com a sagaz ferocidade
De aves protegendo o ninho.


Danosa árvore de fruto ardiloso
Que na sublimação dos gestos
Se compraz na malícia dos lábios.


Joaquim Monteiro

MASTURBAÇÂO



MASTURBAÇÃO




Eis o centro do corpo
o nosso centro
onde os dedos escorregam devagar
e logo tornam onde nesse
centro
os dedos esfregam - correm
e voltam sem cessar


e então são os meus
já os teus dedos


e são meus dedos
já a tua boca


que vai sorvendo os lábios
dessa boca
que manipulo - conduzo
pensando em tua boca


Ardencia funda
planta em movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde


E todo o corpo
é esse movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde


E todo o corpo
é esse movimento
em torno
em volta
no centro desses lábios


que a febre toma
engrossa
e vai cedendo a pouco e pouco
nos dedos e na palma


MARIA TERESA HORTA

         Maria Teresa Horta


sexta-feira, 8 de julho de 2011

EU SOU A MINHA POESIA

Maria Teresa Horta
POEMA/ AGRADECIMENTO



“Costumo dizer:
eu sou a minha poesia.


Mesmo fogo e lago, mesma chama na teima de ser voo na
atadura dos versos, como se quisesse abismar-me numa rosa,
palavras matizadas de espinhos e de estrelas, de queda, com
cintilações de luz.
Mesma paixão e mão que escreve, mesmo imaginário,
a criar o poema.


Eu sou os meus poemas.


No arder do excesso.
No tumulto da beleza.
Nas vozes que me nomeiam e me inventam – ou eu me invento
e me entrego,
através da escrita.


Portanto, ao atribuírem um prémio a “Poesia Reunida”, que
une e enlaça – entrelaça quase toda a minha obra poética editada
até hoje, estão a premiar-me a vida.


Porque
a minha poesia.
Sou eu.


Sobretudo e também por isso.
Obrigada.


NARIA TERESA HORTA


quinta-feira, 7 de julho de 2011

NADA ME FALTARÁ

Maria José Nogueira Pinto (faleceu a 06/07/2011)
 
NADA ME FALTARÁ


Acho que descobri a política - como amor da cidade e do seu bem - em casa. Nasci numa família com convicções políticas, com sentido do amor e do serviço de Deus e da Pátria. O meu Avô, Eduardo Pinto da Cunha, adolescente, foi combatente monárquico e depois emigrado, com a família, por causa disso. O meu Pai, Luís, era um patriota que adorava a África portuguesa e aí passava as férias a visitar os filiados do LAG. A minha Mãe, Maria José, lia-nos a mim e às minhas irmãs a Mensagem de Pessoa, quando eu tinha sete anos. A minha Tia e madrinha, a Tia Mimi, quando a guerra de África começou, ofereceu-se para acompanhar pelos sítios mais recônditos de Angola, em teco-tecos, os jornalistas estrangeiros. Aprendi, desde cedo, o dever de não ignorar o que via, ouvia e lia.


Aos dezassete anos, no primeiro ano da Faculdade, furei uma greve associativa. Fi-lo mais por rebeldia contra uma ordem imposta arbitrariamente (mesmo que alternativa) que por qualquer outra coisa. Foi por isso que conheci o Jaime e mudámos as nossas vidas, ficando sempre juntos. Fizemos desde então uma família, com os nossos filhos - o Eduardo, a Catarina, a Teresinha - e com os filhos deles. Há quase quarenta anos.


Procurei, procurámos, sempre viver de acordo com os princípios que tinham a ver com valores ditos tradicionais - Deus e a Pátria -, mas também com a justiça e com a solidariedade em que sempre acreditei e acredito. Tenho tentado deles dar testemunho na vida política e no serviço público. Sem transigências, sem abdicações, sem meter no bolso ideias e convicções.


Convicções que partem de uma fé profunda no amor de Cristo, que sempre nos diz - como repetiu João Paulo II - "não tenhais medo". Graças a Deus nunca tive medo. Nem das fugas, nem dos exílios, nem da perseguição, nem da incerteza. Nem da vida, nem na morte. Suportei as rodas baixas da fortuna, partilhei a humilhação da diáspora dos portugueses de África, conheci o exílio no Brasil e em Espanha. Aprendi a levar a pátria na sola dos sapatos.


Como no salmo, o Senhor foi sempre o meu pastor e por isso nada me faltou -mesmo quando faltava tudo.


Regressada a Portugal, concluí o meu curso e iniciei uma actividade profissional em que procurei sempre servir o Estado e a comunidade com lealdade e com coerência.


Gostei de trabalhar no serviço público, quer em funções de aconselhamento ou assessoria quer como responsável de grandes organizações. Procurei fazer o melhor pelas instituições e pelos que nelas trabalhavam, cuidando dos que por elas eram assistidos. Nunca critérios do sectarismo político moveram ou influenciaram os meus juízos na escolha de colaboradores ou na sua avaliação.


Combatendo ideias e políticas que considerei erradas ou nocivas para o bem comum, sempre respeitei, como pessoas, os seus defensores por convicção, os meus adversários.


A política activa, partidária, também foi importante para mim. Vivi--a com racionalidade, mas também com emoção e até com paixão. Tentei subordiná-la a valores e crenças superiores. E seguir regras éticas também nos meios. Fui deputada, líder parlamentar e vereadora por Lisboa pelo CDS-PP, e depois eleita por duas vezes deputada independente nas listas do PSD.


Também aqui servi o melhor que soube e pude. Bati- -me por causas cívicas, umas vitoriosas, outras derrotadas, desde a defesa da unidade do país contra regionalismos centrífugos, até à defesa da vida e dos mais fracos entre os fracos. Foi em nome deles e das causas em que acredito que, além do combate político directo na representação popular, intervim com regularidade na televisão, rádio, jornais, como aqui no DN.


Nas fraquezas e limites da condição humana, tentei travar esse bom combate de que fala o apóstolo Paulo. E guardei a Fé.


Tem sido bom viver estes tempos felizes e difíceis, porque uma vida boa não é uma boa vida. Estou agora num combate mais pessoal, contra um inimigo subtil, silencioso, traiçoeiro. Neste combate conto com a ciência dos homens e com a graça de Deus, Pai de nós todos, para não ter medo. E também com a família e com os amigos. Esperando o pior, mas confiando no melhor.




Seja qual for o desfecho, como o Senhor é meu pastor, nada me faltará.




Por MARIA  JOSÉ NOGUEIRA PINTO (último artigo escrito)

A MÃE

Eu estava na barriga da minha Mãe (Praia de Espinho)

A Mãe (Poema LIX)



A Mãe está onde está a camisa púrpura
e onde a tempestade sacode a espuma dos gerânios.
Onde se apagou a lareira e esse fogo bom
na parede dos ossos. Está no musgo que cresce
nos velhos pinheiros de onde a noite pende.
A Mãe está nas arestas do corpo onde
o toiro respira e se espreguiça a andorinha.
Onde a ansiedade apoquenta, onde resvala
o coração sujo de melancolia, negro,
negro como o motor de um corvo. Está
no Livro da Morfina, nos tocadores de viola
com grandes pés de anjo e nos operários construindo
paredes de lume em andaimes de cinza.
A Mãe está onde o moinho escondido
trabalha no peito com a roda do olhar.
Onde ainda arde a madeira verde das estrelas.
Onde o tiro parte e se agita o vento. A Mãe
está na noite que vaza as veias por uma ferida
no ventre. No parto dos pássaros. No som
dos ossos quando partem. A Mãe está nua
interrogando-se como um navegador sem sexo
onde o cão lambe o medo desses peixes azuis.
Na insatisfação e no martírio de uma água inteira.
Nas margens da minha cabeça. No aroma fixo
dos espelhos. A Mãe está na viagem das semanas.
No pólen e na rede. Na pedra parada. E na pedra que voa.
Está na paixão dos olhos. Nos bosques do sangue, nas
clareiras do sangue, na chuva em catedral.
A Mãe está no crime dos heróis. Nos joelhos
do rio. Na cama, na doce cama dos salgueiros.
Nos riachos do orvalho. No lume da cebola.
A Mãe está nos ombros de cada um dos meus instantes.
Onde a emoção se diz e se suspende. Onde
a noite e a língua se observam. Onde nascem
equilíbrios. Onde os crânios e as lâmpadas arriscam.
A Mãe esta nos pulmões do meu abismo. Está
no lenço rasgado das roseiras. E na ira do frio.
No chicote das palavras. No silvo. No sítio
do poema. Onde tudo é brusco e arde. Aí,
nessa carne da dúvida, sem dúvida, está a Mãe.
 

JOAQUIM PESSOA




in O POUCO É PARA ONTEM, Litexa, 2008;