terça-feira, 14 de junho de 2011

A ESCOLHA DE SOFIA

Meryl Streep


                              

Ela não teve escolha.


A escolha de Sofia, baseado na novela de mesmo título de William Styron, foi o filme que consagrou Meryl Streep; com uma irretocável atuação, ela ganhou o Oscar e todos os outros prêmios disponíveis, como uma mãe que tem que fazer uma terrível escolha. O trabalho de Meryl Streep já se mostra genial neste filme, a grande emoção do dilema, que ela faria diferente em As Pontes de Madson; o capricho no sotaque, que ela faria em outra língua em A Casa dos Espíritos. E a vivência; quando um ator consegue nos passar a vivência do personagem (vida anterior), ele atingiu a perfeição do seu trabalho. A sua Sofia é linda, muito frágil, muito carente, sorri e dança. Mas sempre percebemos sob esse arcabouço, um grande peso. Cada olhar de Sofia denuncia sutilmente esse segredo. E ela apenas segue vivendo do momento, como que sem propósitos. Tem por companheiros seu amante Nathan e o amigo dos dois, o jovem escritor Stingo. Os três são amantes de literatura e citam autores americanos importantes, durante o filme. Há uma cena muito bem feita e interpretada pela Meryl, que me causou certo desgosto: Sofia, incipiente com a língua inglesa, se encanta pela poesia de Emily Dickinson (maior poetisa norte-americana; corram para conhecê-la). Ela vai à biblioteca e pergunta ao bibliotecário onde fica o catálogo dos grandes poetas americanos de século XIX, pois gostaria de encontrar Dickens “Emily Dickens”. O bibliotecário azedo, lhe aponta o caminho, mas lhe diz que ela não encontrará nenhum Dickens lá, pois Dickens é inglês (Charles Dickens). Ele sabe muito bem o que Sofia procura, mas em vez de lhe orientar, prefere ser ignóbil e desdenhá-la. Este fato lamentavelmente acontece de verdade nas bibliotecas e eu fico desgostoso porque sou um bibliotecário. Algo parecido acontece no filme Simplesmente Feliz, com um livreiro azedo. As cenas de Auschwitz devem ter servido de fonte, onde muitos filmes de hoje sobre o holocausto beberam. O filme tem uma ótima trilha sonora, tem um momento em que Nathan, meio ensandecido, rege o finalzinho da nona sinfonia de Beethoven. A fotografia é um primor, que favorece o clima de intimismo que ronda os três personagens. Belo filme; bela direção do Alan J. Pakula. No fim do filme, Stingo, vendo os dois amigos inanimados na cama, lê o seguinte trecho de Emily Dickinson:


Façam ampla esta cama.


Façam esta cama com temor;


Nela esperem até o dia do Juízo Final


Excelente e claro.


Seja direito o colchão,


Seja redondo o travesseiro;


Não deixem o alarido que causa o amarelado nascer do sol


Perturbar este solo. (Tradução minha)


A cena mostra a folha de rosto do livro. É uma preciosidade nos dias atuais. Uma edição dos SELECTED POEMS of EMILY DICKINSON. Com introdução de Conrad Aiken. Editado por THE MODERN LIBRARY, New York.


Danilo Ator

segunda-feira, 13 de junho de 2011

MÃE! GOSTAS DE MIM?

O Zito

Sinto o que sentes




Mãe! Gostas de mim?
Humm... deixa-me pensar!
Deixa-me comer um bocadinho do teu braço! Deixa-me cheirar o teu pescoço! Dar um beijinho de passarinho na tua barriga! Deixa-me apertar-te num abraço, para ver o que sinto, meu amor!
Mãe, o que é o amor?
O amor... o amor é tão simples e tão complicado de explicar!
Explica-me o... o simples!
O amor faz-te sorrir... faz-te chorar,
faz-te respirar... e tira-te o ar!
Sem chocolates comer a barriga faz doer
e, por amar, consegues sentir dentro do corpo borboletas a voar!
Ó Mãe! Estás a complicar...
Se não for assim não to sei explicar!
Então encosta o teu calor no meu calor, para eu sentir o que é amor!


Luisa Azevedo



Luisa Azevedo







A VOZ


A VOZ

A voz liberta-se

Só o tempo marca as palavras
E com ele leremos os sinais.
As tuas formas, e as minhas juntas,
bastarão, para o livro se abrir,
para alcançar a luminosidade da boca.




Nada, nem o espaço no tempo se confina
Às vozes balizadas pela fala.
Só o grito é livre nas memórias.
Por isso tão próximo do devir.


Próximo; tão próximo do orgasmo.
Rente à pele, mas tão fundo no sentir,
de fecundar a liberdade do ventre,
e chamar a lua, p´ro fundo dos olhos.
-já mortiços nas falas desgastadas.


Só a aurora, nos dá a capacidade de amar
e de falar, ao mesmo tempo que o dia.


Joaquim MONTEIRO
2011-06-13

AS PONTES DE MADISON COUNTY

Clint Eastwood e Meryl Streep



AS PONTES DE MADISON COUNTY

Comentário : Um filme fascinante...o esporádico encontrar da essência do que concebemos nosso verdadeiro amor...o perder do mesmo em esquinas de instantes...nas lágrimas de chuva que pulsam nos semáforos de viver...as interrogações que deixamos,permanentemente,interrogadas nas rugas e nos fulgores da nossa alma.Não é bem um simples filme...é um poema lindíssimo...eternamente marcante.

POR JOSÉ SOTTOMAYOR
  (Fotos de José Sottomayor captadas através do filme)


Meryl Streep

Clint Eastwood



domingo, 12 de junho de 2011

MY FAVOURITE STAR

José Sottomayor
" My favourite star "

Ao teu lado,
na brancura branda
de um fim
de um dia,
aconchego-te,
afago-te os olhos
para adormeceres,
adoço a tua alma
pausada a voz
pousado o beijo.
repousado
o desejo.
Conto-te
uma das minhas histórias...
Era uma vez
a minha estrela favorita........


Quando olho a noite
e dela o negro retiro.
as estrelas envergonham-se
de eu ter escolhido
a parte do meu céu,

mas recurso não há
quando os olhos vêem,
nem mesmo a condescendência
de te pousar na memória,
os momentos
dos nossos momentos,


curtos
que belos e singelos
fizeram o florir
(dos novos pensamentos)
ao cair da tarde sem data,
as folhas brancas encantam-se
nas tuas vozes únicas e raras,
intento ouvir-te
no nevoeiro das tuas palavras
escritas nas pedras,


elas falam sensatas,
elas estão semeadas
e são searas


elas são palavras,
amadas,
sementes
plantas
de nós,
ternas-eternas.


nas minhas folhas brancas,
uma lágrima negra,
sorridente,
escorreu,
meigamente,
e desenhou
a linha do teu corpo,


e,
no negro fino
da maior certeza,


pousou,
desenhou,
a tua alma,


a tua sempre,
nossa,
branca e negra.
beleza.

Já dormes.......dorme bem.

José Sottomayor

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O AMOR IRÁ ACONTECER

Luisa Azevedo

Luísa Azevedo ‎...



sei que um dia,
um dia sem destino,
nesse dia há-de acordar
...enlaçada num caloroso olhar
e um dia, um dia sem saber,
esse seu amor irá acontecer.

obrigada!


beijinhos
Luisa Azevedo num comentário para mim
no facebook

O AVESSO DA VIDA

Curitiba,O/T de Edgardo Xavier

O AVESSO DA VIDA

Estavas ali, na minha frente, trinta anos depois. De ti só restavam os olhos, ainda brilhantes, aflorando das rugas que te marcam o rosto. Ainda elegante, com restos de uma sensualidade antiga, abriste-me os braços . Esperei décadas por este momento e, no turbilhão de sentimentos e emoções, tudo foi diferente. Não havia juventude para validar o abraço, nem esperança para promover o futuro ou perdão para renovar antigas propostas. De súbito, apesar de juntos neste amplexo de afectos, éramos como dois estranhos à procura de si próprios. Náufragos das circunstâncias, dirias a seguir.
No teu rosto vi a minha decrepitude e tu, no meu olhar, hás-de ter encontrado a mulher gasta em que te tornaste depois de teres cumprido o teu destino. De comum, já nada achámos para partilhar e as palavras, a rasgar a garganta, eram expressões de revolta, de saudade, de desespero face ao deserto em que nos tornámos. Chorámos. A mágoa do que vivemos isolados, a impotência e, sobretudo, o facto de termos histórias que só agora voltam a tocar-se, não para uma conjugação merecida, mas para ratificar o afastamento.
Nos escaninhos da memória, porém, ainda há belos dias de sonho, momentos de uma paixão indelével que talvez possam perdurar para ilustrar o nosso tempo. Lembras-te? Foi esse fio que começou, então, a ligar dias solenes e velhas manifestações dos sentidos. Trouxe aromas de prado e flores, estrelas ao breu da noite, poemas que ficaram por dizer...
De novo a guerra e a partida. O pranto que humanizou os vivos, o silêncio em que sepultamos tudo o que acabou por já não ter razão nem vez. Reviver, talvez seja sofrer em dobro mas também é, acredito, voltar a sentir o calor do teu corpo jovem, a humidade da tua boca sempre ávida, os teus dedos a dedilhar fantasias no meu sexo. A mim me basta fechar os olhos para te fazer regredir no tempo e no espaço. E quero fazê-lo para o resto dos meus dias. Quero que voltes aos teus risos, que acendas o teu coração. Que voltes para lá, para o tempo em que a felicidade tinha gosto de fruta madura e cheiro de terra molhada, no cacimbo.
Claro que não posso manter os olhos fechados muito mais tempo, recordas-me. Abro-os, finalmente, e de novo a tua figura me arrasta para este presente cheio de realidades difíceis. Falas de filhos, de um marido que se cansou de só ser, ao teu lado, um amigo tolerado. Duro é viver-se uma paixão pela pessoa errada. É como amar uma pedra, confirmaste. Pedir-lhe, depois de tanto tempo à espera, que continuasse contigo seria exigir ainda mais a quem já tinha dado tudo. Vida, conforto, família. Ficaste só quando seria importante que alguém te dissesse que continuavas bela, que te mantinhas atraente mesmo quando, da cabeça aos pés, das emoções ao pensamento, tudo persistia em envelhecer. Essa era a mais grave faceta da tua melancolia, um caso sem solução, um incontornável problema, uma angústia que ninguém poderia resolver.
Ninguém? Foi, nessa altura, que eu voltei ao teu pensamento. Retiraste-me do mais fundo da memória e admitiste que talvez ainda fosse possível regressar ao passado. Estaria, eu também, a sofrer os efeitos da idade e, portanto, quem sabe se, reunidos todos os pedaços da nossa história comum, não poderíamos voltar a ser felizes? Nunca esperaste ver, no meu lugar, um velho e gentil senhor assim como eu jamais contei que estivesses transformada nessa frágil dama encanecida. Definitivamente, já nada temos para dizer um ao outro. A amizade perdura quando a cultivamos e nós deixámos que os anos embotassem a beleza dos nossos registos. Receio que não me seja possível voltar a conviver contigo. Hei-de tentar esquecer que nos reencontrámos para me ser possível recuperar-te como eras nos meus sonhos.


Edgardo Xavier
Publicado no Recanto das Letras
Código do texto: T1756608