domingo, 1 de maio de 2011

DÁ-TE



DÁ-TE

creio na luz das tardes sombrias.
também as flores sentem embaraço!
antes de separar os seus braços em pétalas,
desdobram-se como a língua dentro do beijo,
onde a saliva são minúsculas gotas de orvalho,
e só depois se entregam…
entregam-se como eu,
na tua boca.

LUISA AZEVEDO

MÃE

A minha mãe

MÃE


Estou só...
Sinto dentro do meu peito a dor imensa de te ter perdido, mãe.
Sinto a tua falta.Preciso tanto de ti...
Como é duro sobrevivermos a quem mais amamos.
Queria beijar-te
Abraçar-te
E neste abraço dizer-te tanto do meu amor,
da minha dor e da minha solidão.
Preciso de ti, mãe
Estou só...

PARA TI

Foto de Rui  Videira

PARA TI

ia escrever letras de fogo
com as lágimas da saudade
que alimentam a fornalha da vontade.
ia escrever!
ia escrever o teu nome no pulsar do tempo.
mas não escrevo.
não escrevo porque sou o teu nome!

Vicente Ferreira da Silva
.

VEM COMIGO


vem comigo


se me desses tempo,
se atrasasses o teu passo... pelo meu passo
se o espaço fosse amplo para a distância do abraço,
a brisa soprasse quente,
me levasse fios de cabelos aos lábios
para tu os afastares com a passagem dos dedos.
se deixasses que o orvalho pingasse em nosso beijo,
quando a madrugada acorda os lençóis baunilhados do leito,
para a minha boca se derreter na tua
e os teus olhos cumprirem a promessa da noite.
se me desses tempo,
apenas esse tempo,
o que os teus olhos precisam para acordar.
se me desses tempo...


Luisa Azevedo


tomo
o tempo que me queres
como vento
que me leva em febres,
não sei se de Verão
...se de paixão,
esse vento
em que me tento
e derreto
no leito que te prometo
será feito
do teu vento
e do teu tempo
… meu alento

João Costa




dar-me-ias tempo sabendo-me a maior das ventanias?
posso levantar areias no deserto,
soltar as amarras do teu barco.
posso ser onda em mar sem água,
duna sem praia sem vigia.
...posso ser o corpo que dança no escuro
prendendo o teu corpo ao meu com um simples beijo


Luisa Azevedo


o escuro
prende-se ao brilho das estrelas
para em segredo
lhe roubar trilhos imaginados,
amarro palavras
...ao limo das profundezas
para sentir tua boca
arrebatar-me raízes.
... sinto tua luz
ser a minha noite.

João Costa

roubo-te os gestos,

danço na minha a tua pele.
será sempre um segredo o trajecto da noite
e as estrelas calarão sua boca,
fecharão seus olhos,
...alongarão seus braços
para, juntos, sermos uma nova constelação
em qualquer hemisfério.

Luisa Azevedo

TERNURA

O Afonso e o Manuel

"Um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,


acordarei entre os teus braços.


a tua pele será talvez demasiado bela.


e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.


um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for


tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada


de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da


nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso


será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi


nem uma palavra, nem o príncipio de uma palavra, para não estragar


a perfeição da felicidade."




José Luís Peixoto

ABANDONO



abandono




no jardim que criei plantei esperanças!
regueia-as,
catei-lhe as ervas daninhas,
os parasitas,
distribuí aromas pelas esquinas apertadas,
afugentei três topeiras com uma velha meia
que enterrei na terra,
algo popular que por vezes resulta,
soltei todos os pássaros,
e, para eles, plantei uma cerejeira.
o tempo foi passando,
a terra foi sendo minha cúmplice
e ali me guardei,
fechada no tempo.
tanto, que quando aos teus braços voltei
e contigo quis voltar para preservar este jardim
não sabia a senha para entrar

Luisa Azevedo

TARDE DE MAIS

Epifania

TARDE DE MAIS


Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...


Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!


Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!


E há cem anos que eu era nova e linda!...
E a minha boca morta grita ainda:
Por que chegaste tarde, ó meu Amor?!...


FLORBELA ESPANCA