domingo, 6 de julho de 2014

PORQUE....PORQUÊ?

porque

porquê ?

as palavras envergonhadas
correm o papel perdendo madrugadas.....

porque

matando
o meu país
me vais.nos
matando sonhos
e
o direito a ser feliz
perdendo as vezes mais amadas......

porque

vais esburacando
as mais lindas
esperanças
das nossas almas

e as queres acorrentadas.....

porque

porquê ?


José Sottomayor

sexta-feira, 4 de julho de 2014

A ESPANTOSA REALIDADE DAS COISAS

A espantosa realidade das coisas É a minha descoberta de todos os dias. Cada coisa é o que é, E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra, E quanto isso me basta. Basta existir para se ser completo. Tenho escrito bastante poemas. Hei de escrever muitos mais. Naturalmente. Cada poema meu diz isto, E todos os meus poemas são diferentes, Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto. Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra. Não me ponho a pensar se ela sente. Não me perco a chamar-lhe minha irmã. Mas gosto dela por ela ser uma pedra, Gosto dela porque ela não sente nada. Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo. Outras vezes ouço passar o vento, E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido. Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto; Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo, Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar; Porque o penso sem pensamentos Porque o digo como as minhas palavras o dizem. Uma vez chamaram-me poeta materialista, E eu admirei-me, porque não julgava Que se me pudesse chamar qualquer coisa. Eu nem sequer sou poeta: vejo. Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho: O valor está ali, nos meus versos. Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.


Alberto Caeiro

quinta-feira, 3 de julho de 2014

PARTIU HOJE PARA O INFINITO O FILHO QUE ME DESTE

MEU DEUS E MEU PAI

"DESFEITO EM ÁTOMOS DE ÁGUA, PARTIU HOJE PARA O TEU INFINITO O FILHO QUE ME DESTE. GEREI-O COM AMOR, CRIEI-O COM CARINHO E EDUQUEI-O O MELHOR QUE SOUBE. FOI MEU COMPANHEIRO E MEU ARRIMO NAS MUITAS TEMPESTADES QUE TENHO ATRAVESSADO.
HOJE NÃO TENHO NADA.
O MUITO QUE TINHA FOI PARA JUNTO DE TI. A SUA ALMA DE MENINO E O QUE RESTOU DO SEU CORPO DE ANJO TAMBÉM JÁ FOI DESFEITO EM FUMO.
ESTOU SÓ.
TERRIVELMENTE SÓ.
SÓ COMO HÁ SÉCULOS QUANDO A TUA MÃE, NOSSA SENHORA, TE ACOLHEU NO REGAÇO DEPOIS DE TE DESPREGAREM DA CRUZ NO CALVÁRIO.
EU AGORA NADA TENHO.
NAS DISTORCIDAS IMAGENS QUE OS MEUS OLHOS RASOS DE LÁGRIMAS SALGADAS E JÁ SECAS, VEJO, NITIDAMENTE, O TEU ROSTO DE PAI MISERICORDIOSO.
NO PLANO INFINITO DA ETERNIDADE JÁ ESTÁ A TEU LADO O MEU MENINO. TAPA-O COM O TEU MANTO DIVINO QUE AS NOITES SÃO FRIAS PARA LÁ DO UNIVERSO,
ELE É UM BOM MENINO.
O MEU MENINO!
E SE VIRES QUE PODE MERECER ALGUMA COISA DA DOR DESTA PERDA SEM REMÉDIO, ROGO-TE, MEU PAI, QUE PRONTO ME LEVES A VÊ-LO, QUE NESTES DIAS AS SAUDADES APERTAM MAIS ESTE MEU CORAÇÃO TRESPASSADO PELA DOR.
EU SÓ FUI MÃE DESTE FILHO.
HOJE, JÁ NÃO SOU MAIS MÃE DE NINGUÉM."

JUDITE DE SOUSA


terça-feira, 1 de julho de 2014

NO FUNERAL DO ANDRÉ - PALAVRAS DA MÃE

"Perdi o meu filho. O meu único filho. A luz que dava sentido à minha vida. O meu santo que tantas alegrias me deu. Bom filho, bom estudante, inteligente. Com uma carreira de sucesso. Não sei como vou ultrapassar esta dor. O que sei é que uma parte de mim morreu com o meu André. Interrogo-me sobre o sentido da minha vida. As minhas escolhas, a minha vida focada no trabalho, na escrita, tendo sempre presente que o meu filho era quem mais se orgulhava do que eu fiz e construí ao longo da minha vida. Fiz tudo para que nada faltasse ao meu André, mas não consegui salvar-lhe a vida. Um fracasso e uma tragédia. Estranha vida a minha! Realizada profissionalmente, dramática pessoalmente. O último ano foi penoso. Apenas existia o meu André que me dizia muitas vezes: " Mãe, não vais ficar sozinha". E eu acreditava. Acreditava. Eram palavras ditas pelo meu filho, um jovem ponderado e sensato.

"Uma parte de mim morreu com o meu André"

Pouco tempo depois de se ter despedido do filho, Judite Sousa quis agradecer aos muitos amigos...e fê-lo assim.....
Judite e o filho André

segunda-feira, 30 de junho de 2014

BLUES FÚNEBRE

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e abafem o tambor
Tragam o caixão, deixem passar a dor.

Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe nos pescoços das pombas da região,
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.

Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
O meu meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: “não tinha razão”.

Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Emalem a lua e desmantelem o sol;
Despejem o oceano e varram a floresta;
Pois agora nada mais de bom nos resta.

W.H. Auden

sexta-feira, 20 de junho de 2014

PERDI A VONTADE DE SORRIR PARA QUEM...QUER RETIRAR-ME O SORRISO

Já não tenho paciência para algumas coisas, não porque me tenha tornado arrogante, mas simplesmente porque cheguei a um ponto da minha vida em que não me apetece perder mais tempo com aquilo que me desagrada ou fere. Já não tenho pachorra para cinismo, críticas em excesso e exigências de qualquer natureza. Perdi a vontade de agradar a quem não agrado, de amar quem não me ama, de sorrir para quem ...quer retirar-me o sorriso. Já não dedico um minuto que seja a quem me mente ou quer manipular. Decidi não conviver mais com pretensiosismo, hipocrisia, desonestidade e elogios baratos. Já não consigo tolerar eruditismo selectivo e altivez académica. Não compactuo mais com bairrismo ou coscuvilhice. Não suporto conflitos e comparações. Acredito num mundo de opostos e por isso evito pessoas de carácter rígido e inflexível. Na Amizade desagrada-me a falta de lealdade e a traição. Não lido nada bem com quem não sabe elogiar ou incentivar. Os exageros aborrecem-me e tenho dificuldade em aceitar quem não gosta de animais. E acima de tudo já não tenho paciência nenhuma para quem não merece a minha paciência."


Meryl Streep

quarta-feira, 11 de junho de 2014

ESCREVO O CORPO

Escrevo o corpo

Escrevo o meu desejo
desenho a alma,
e danço o sonho,
e balanço a calma.

Eu sou a bailarina cristalina
de braços enlaçados no futuro
eu sou a mão de Deus que faz a vida
a dança que nos céus faz este mundo...

A dança que eu te canto não tem nome
tem a cor do encanto e nunca dorme,
acorda as madrugadas , colorida
é a dança dos dias , é a dança da vida.

Escrevo o meu desejo
num passo de alegria,
com um passo de dança
desenho a fantasia.


Teresa Horta

In Inquietude



MEMÓRIAS DE MENINO E MOÇO

MEMÓRIAS DE MENINO E MOÇO

Alameda que conduzes ao paraíso
De meus sonhos de infância
Abre-me de par em par os teus portões trancados
E deixa-me sorver essa fragrância
De rosas mil e cravos avermelhados.


Deixa-me lembrar as manhãs claras
Radiosas de luz e cor quando partia
Para aveludados prados verdejantes
Onde gotas de orvalho, jóias raras
Dardejavam raios cintilantes.


Duas ovelhas de neve iam tosando
Tenros rebentos de erva, longamente,
E o ribeiro em baixo trauteando
A canção da natureza triunfante
Sobre as lisas lajes dos poçais.


Ternas rolas brancas namoradas
Roçagavam asas sobre mim aos ais
E eu como que envolto por mãos fadas
Ia cantando meus sonhos tão leves!

E lestos coelhos, de orelhas espetadas,
Ia-me escutando, sorrindo, nas sebes.
O vento entoava a velha canção,
Embalando ninhos, beijando trigais.


E só quando a lua rompia serena,
Despejando leite sobre os pinheirais,
Se deitavam as rolas, se calava a avena
E só coruja e mocho choravam seus ais!



Hermenegildo Borges, Mafra, 1970

quarta-feira, 7 de maio de 2014

A MULHER É O SER LINDO QUE TE.NOS.GERA

o dia vai morrendo
escorrendo amargura
e
perseguindo esperança
nas ânsias do brilho dos teus olhos...

aproveitando
a brisa
blowing...

a mulher
é o ser lindo
que te.nos.gera...

a ti
a nós
e a quimera...

com ela dormes e amas e te completas

e quase
julgas que na alma tocas...


mas,

mesmo
tocando corpo
roçando a alma e o céu

nunca

ou talvez

o seu âmago amado

será teu....................

(good night,
pretty woman)


José Sottomayor

terça-feira, 29 de abril de 2014

SÓ NA TUA BOCA

Só na tua boca

encontro a paz,

nesse piano imenso

em que és a tecla, nesse navio

que não parte

e que limita,na alma,a imensidão

do mar.

Mas,foi em ti,que a paz encontrei

e guardei.

Como se fosses tu,a tecla,do meu piano imenso.


José Sottomayor







terça-feira, 22 de abril de 2014

ACORDAR EM TI O MELHOR DE MIM

e
vou
continuar a vida
como se fosses aquilo que és em mim

e
vou
desenhar a casa
do meu coração
com as tuas mãos tocando-me tanto assim

e
vou
acender a luz
para apagar a dor
e acender o amor

para
acordar
em ti.....



o melhor de mim.....

José Sottomayor
Foto de Luisa Azevedo

sábado, 1 de março de 2014

AMIGO


Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.
festa!

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande



Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'

sábado, 15 de fevereiro de 2014

O SILÊNCIO


Quando a ternura

parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,

inda demora,

quando azuis irrompem

os teus olhos

e procuram

nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras

desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

Eugénio de Andrade, in "obscuro Silêncio"


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

TERIA

teria

que ser mesmo azul
o mar azul
da felicidade do azul dos meus olhos...

não te questiono

sei que me amas sem limites

sei também que te amo muito...
sem quaisquer limites...
bordando-te...da maior ternura...

teria

que ser mesmo muito azul...
o mar que nos juntou...
o mar que nos amou...

o mar.de.nós...

José Sottomayor

Foto de José Manuel Fernandes

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

VESTIDA DE DESEJO....



Deixa-me mergulhar no teu corpo...nua...tua...vestida de desejo
Vem acender o meu fogo...aquecer o meu sangue...sem pudor
Sobre a minha pele escaldante...deixa a seiva doce do teu beijo
Onde morro e renasço e o teu corpo derrama a semente do amor

Tece fios de madrugada no meu ventre...desejos na minha boca
Em ti me perco...em mim te abres na incandescência da loucura
No delírio dos corpos...nos desvarios da paixão...toma-me louca
Quando num êxtase de volúpia...saciado te derramas em ternura

Por um instante...vem e bebe do meu corpo a volúpia do prazer
Neste rio de lava ardente que por mim corre...que em ti deságua
Vem...dá-me o teu corpo...morde a minha boca...possui o meu ser
Na ansia de ser tua...na vontade de ser lua...na sede de estar nua

Bebe-me meu amor...como um vinho de Outono...lentamente
Faz do meu corpo a tua taça...saboreia-me inteira dentro de ti
Percorre a minha pele sedenta...deixa-me abrir em flor e sente
Esta febre que me devora...este perfume de cio a abrir em mim

Deixa a tua boca na minha...sacia esta sede louca e desvairada
Beija o meu corpo nu...embriaga-te deste orgasmo que te dou
Bebe-me inteira...apaga a tua chama na minha boca orvalhada
Que a minha nudez te encendei no fogo que meu corpo guardou

Rasga a seda que cobre o meu corpo...faz-me gemer de prazer
Em vermelha sedução faz-me tua...sedenta e a ti abandonada
Morde o meu beijo...incendeia o meu corpo no desejo a arder
Deixa que as minhas mãos te afaguem febris até de madrugada

Que a tua boca seja o beijo entre os meus seios...o sabor do mel
Na nudez dos nosso corpos...prende-me em ti insaciável e louca
Desliza suavemente os teus dedos pelo meu desejo de mulher
E deixa-me morrer por um instante no fogo ardente da tua boca

Deixa-me afogar no sabor do teu cio...por entre ondas de prazer
Deita o teu no meu corpo...deixa-me mergulhar na lava ardente
Deixa-me beber-te lentamente...até ao mais profundo do meu ser
Deixa-me morrer e renascer nos teus braços...voluptuosamente

Toma-me...nua...pétala de rosa perfumada...de desejo vestida
Desliza as tuas mãos na minha pele...acende a noite em mim
Cobre-me com a nudez do teu corpo...doida enlouquecida
Despe-me meu amor lentamente o profano vestido de carmim

Deixa-me ser o teu lençol de cetim...o teu desejo mais ardente
Mulher perdida na ondulação dos desejos..indecente e pura
Deixa sentir a volúpia das tuas mãos afagando o meu ventre
Deixa-me ser o véu da madrugada...o teu poente de loucura


Escrito por : RosaMaria

sábado, 8 de dezembro de 2012

NETOS

Afonso Manuel



NETOS

Pequenos,
Lindos,
Sapecas...
Capazes de gerar ondas borbulhantes,
De extrema felicidade,
De amor e de paz,
Quando falam minha avó...
Ou simplesmente vó...
Vó é palavra mágica,
Feita de favos de mel,
Por fadas do bem querer.
Ser avó é ter desejos de mudanças,
Aceitar pacificamente as mudanças dos desejos...
É quebra de paradigmas.
Conquista de novos olhares,
São diferentes visões de mundo,
Num mundo mais colorido,
Feito de pura emoção que segue a cada momento,
A cada dia a explodir de prazer o coração,
De excesso de emoção...
As avós sabem que,
Netos não podem sofrer...
Também não podem chorar...
Mas,
Como fazê-los crescer?
Amadurecer?
O limite tem a dimensão de refrear o que é inadequado, o que é indevido.
Limite é palavra dolorida, mas tem relação com a boa educação.
Limitar é educar.
Mas, como permitir o apropriado, o limitante, sem partir o coração?
Vó...
Palavra que corrompe as certezas incondicionais,
Que anula a percepção sobre:
O que é certo?
O que é errado?
Vó...
É palavra indescritível.
Amar os netos faz-nos enxergar os erros educativos como acertos do coração.
Fazem-nos transgredir sem nenhuma reflexão, sem nenhuma intimidação,
Ser avó serve para despedaçar a autoridade dos pais sem a menor cerimônia.
Vó...
Quando as avós avistam os netos, esquecem como educaram os filhos.
Afinal, não são filhos, são netos.
Eles beijam, abraçam e dizem com toda sinceridade...
-Minha avó linda... Eu estava com saudades de você, viu vó?...
Acredito que todos os netos foram criados pelas Mãos Divinas
Num momento de traquinagem de Deus.


Maria José Azevedo Araújo

sábado, 24 de novembro de 2012

HABITAS-ME

Foto de Francesco Izzo




De um só quarto
No alto de uma falésia;
Como a ventania


Irrompe na floresta, cavando clareiras
Ou devagar vai esculpindo luas
Nas areias.


FERNANDO DE JESUS FERREIRA





Fernando De Jessus Ferreira

UM RESTO DE DIA LINDO

Foto de Pedro Sottomayor

Um resto de dia lindo.....

na Granja...
praia da.....

esse mar agreste,
desses rochedos forma.formatando.....


do Eça essa prosa imensa brotando,
da Sophia os sentimentos enormes de falando.amando...


de mim,

um simples beijo...celebrando...

a linda Granja,

guardando as seus belos tão seres,

nesse mar agreste.justo,
desses seres tão belos...infindos...


JOSÉ SOTTOMAYOR

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

SER CRIANÇA





Foto de Acácio Costa

SER CRIANÇA

Sorri, sorri
Guarda a tua lança
Sorri, sorri
Eu sou uma criança!...

Tu és adulto!...
Olha o meu sorriso rasgado,
Olha nos meus olhos
Esbugalhados clamando
Pelo teu amor
Que às vezes me é negado!...

Tu és adulto!..
Eu sou criança!...
Somos iguais
Desde a nascença
Com uma diferença:

Tu dependes de ti
Eu dependo de ti
Do teu alimento
Que me deixes viver
Com os meus direitos
De poder crescer,
Brincar, aprender
Ter o teu respeito
E o devido sustento!...

Sorri, sorri
Eu não tenho lança
Sorri, sorri
Eu sou só uma criança!...

( Acácio Costa)

DESPERTA-ME DE NOITE







Desperta-me de noite
O teu desejo
Na vaga dos teus dedos
Com que vergas
O sono em que me deito

É rede a tua língua
Em sua teia
É vício as palavras
Com que falas

A trégua
A entrega
O disfarce

E lembras os meus ombros
Docemente
Na dobra do lençol que desfazes

Desperta-me de noite
Com o teu corpo
Tiras-me do sono
Onde resvalo

E eu pouco a pouco
Vou repelindo a noite
E tu dentro de mim
Vai descobrindo vales.

MARIA TERESA HORTA, in Poesia Reunida (D. Quixote, 2000)