MEMÓRIAS
DE MENINO E MOÇO
Alameda
que conduzes ao paraíso
De
meus sonhos de infância
Abre-me
de par em par os teus portões trancados
E
deixa-me sorver essa fragrância
De
rosas mil e cravos avermelhados.
Deixa-me
lembrar as manhãs claras
Radiosas
de luz e cor quando partia
Para
aveludados prados verdejantes
Onde
gotas de orvalho, jóias raras
Dardejavam
raios cintilantes.
Duas
ovelhas de neve iam tosando
Tenros
rebentos de erva, longamente,
E
o ribeiro em baixo trauteando
A
canção da natureza triunfante
Sobre
as lisas lajes dos poçais.
Ternas
rolas brancas namoradas
Roçagavam
asas sobre mim aos ais
E
eu como que envolto por mãos fadas
Ia
cantando meus sonhos tão leves!
E
lestos coelhos, de orelhas espetadas,
Ia-me
escutando, sorrindo, nas sebes.
O
vento entoava a velha canção,
Embalando
ninhos, beijando trigais.
E
só quando a lua rompia serena,
Despejando
leite sobre os pinheirais,
Se
deitavam as rolas, se calava a avena
E
só coruja e mocho choravam seus ais!
Hermenegildo
Borges, Mafra, 1970

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