quarta-feira, 11 de junho de 2014

MEMÓRIAS DE MENINO E MOÇO

MEMÓRIAS DE MENINO E MOÇO

Alameda que conduzes ao paraíso
De meus sonhos de infância
Abre-me de par em par os teus portões trancados
E deixa-me sorver essa fragrância
De rosas mil e cravos avermelhados.


Deixa-me lembrar as manhãs claras
Radiosas de luz e cor quando partia
Para aveludados prados verdejantes
Onde gotas de orvalho, jóias raras
Dardejavam raios cintilantes.


Duas ovelhas de neve iam tosando
Tenros rebentos de erva, longamente,
E o ribeiro em baixo trauteando
A canção da natureza triunfante
Sobre as lisas lajes dos poçais.


Ternas rolas brancas namoradas
Roçagavam asas sobre mim aos ais
E eu como que envolto por mãos fadas
Ia cantando meus sonhos tão leves!

E lestos coelhos, de orelhas espetadas,
Ia-me escutando, sorrindo, nas sebes.
O vento entoava a velha canção,
Embalando ninhos, beijando trigais.


E só quando a lua rompia serena,
Despejando leite sobre os pinheirais,
Se deitavam as rolas, se calava a avena
E só coruja e mocho choravam seus ais!



Hermenegildo Borges, Mafra, 1970

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