terça-feira, 27 de dezembro de 2011

QUEDO-ME NESTE SILÊNCIO




QUEDO-ME NESTE SILÊNCIO


Quedo-me neste silêncio
Já não ouço o teu sorrir...
O teu olhar escondeu-se...
O teu sentir disse-me
Cansaço...
E o teu amor gritou-me
Verbos desunidos...
O teu amor...não morreu...
dizes...
O meu também...
Digo...


Quedo-me neste silêncio
Exaurido de saudade
E amorfo de palavras
Peço-te apenas uma gota
Do teu tempo...
Para matar esta sede
D’ hoje!


E a nascente
Deste amar tão nosso
Tem ainda tanto caudal
Tanto correr
Tanta frescura
Que o Éden terá inveja
Deste jardim sem pecado!


Quedo-me neste silêncio
Exaurido de saudade
E amorfo de palavras
Peço-te apenas uma gota
Do teu tempo...
Para matar esta sede
D’ hoje!


Deixa-me hoje cumprimentar
A lua no teu amor...
De mão dada ver nascer o dia
Sequência de vagas
Calendário...
Onde os cálculos assimétricos
Não perfazem fim
Porque somos princípio.


Ferido de saudade
E amorfo de palavras
Peço-te apenas uma gota
Do teu tempo...
Para matar esta sede
D’ hoje!


in "DA JANELA DO MEU (A)MAR - José Luís Outono - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA - MAIO - 2011

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

ESTE NATAL





Este natal - Antes a tua carne perfeita
Não quero a estrela a oriente
mas molhada
em cada uma
das nossas línguas - Cegas de ti
crianças velhas
a esperar em áfrica - Antes o teu silêncio
Que a suas bocas
Em campos
desertas de chuva e o seu grito
que os seus braços
jardins de areia
Antes mãe e pai
de mãos dadas comigo
e ruas que nos trazem de volta
a braços que aleijam de bondade
Este Natal não quero
mais presépio - antes o teu olhar
no cálice dos meus dedos
e o teu rosto dorido na voz
de ave e limbo nas palavras
Ah não quero
a delinquência dos céus
e da terra - antes os teus pés na minha boca
por impróprios labirintos
Só quero a vida
de rio para os teus cabelos
sem pastores com frio nos meus olhos
antes tu connosco
na argila do mundo
Antes o teu fogo!


manuel feliciano

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

domingo, 4 de dezembro de 2011

"MARIA DO MAR DE MIM..."

Foto de José Sottomayor

" Maria do mar de mim..."

repousam os sargaços
na flor da manhã,
na dor da maré vã,
na areia solta
e louca
dos abraços,

onde
fomos e somos
os templos de nós,
as ondas,
a espuma,
a crista dos sonhos,
a voz.

Mas
porque fomos
e somos
assim,

pousados nas areias do tempo,
guardados nas veias de um momento,
escravos de um enfim...

não sei porquê,
Maria do mar de mim...

JOSÉ SOTTOMAYOR

2011/10/27


"LA NUIT DE MA BELLE DAME"


" La nuit de ma belle dame "


O silêncio é cristal na sombra da noite,
os segredos sussuram murmurando as árvores,
as estrelas cintilam as perguntas e as respostas,
os pássaros descansam nos ninhos da incerteza,
e tu,
atravessas,pé ante pé, o quarto do teu quarto,
e és no teu espelho o que vês e o que queres ver,
afagas os cabelos,fechas os olhos e contornas os seios,
e danças na memória dos novos dias que hão-de florir.
e,
na tua cama branca e leve
recordas e inventas
todos os amores
que a tua vida
teve,
e tem.
Faz-se noite e dia,
na noite do meu bem.

JOSÉ SOTTOMAYOR

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

HOJE!!



Hoje!!

Hoje eu percebi!!
Não sou loiraça e nem morenaça!
Não tenho os cabelos presos ao alto
... nem tão pouco os saltos altos.
Hoje eu percebi que não tenho os olhos de serpente
nem tão pouco o sorriso de meretriz,
não sou aquela mulher dos alpes da Suíça
não desfilo na passarela de botas e cachecol.
Hoje eu percebi
não sou o que procuravas.
Sou das letras e dos devaneios
e entre meios
escrevo : o sol, a lua, a saudade e a intensidade!
O olhar, o gesto, a palavra: Sou simples!! Nada Mais!!

Isabel Lemos







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terça-feira, 29 de novembro de 2011

QUARTO CRESCENTE

                    

QUARTO CRESCENTE


vou pintar uma parede de cada cor e encostar-me a cada uma para que cada uma seja o que eu quero construir
mas como só tenho quatro quatro não chega por isso vou lá para fora imaginar paredes para que se façam muros que eu quero cair uns altos e até ao tecto que está a fazer de céu
eu quero pintar o ar como quem pinta paredes para sentir os desafios como um ar que se lhe deu
e vou respirar distâncias para as cheirar mais perto
e vou escalar o areado como quem rasga os dedos e ainda assim sorri porque sobe como quem morre
vou pintar o mundo de uma cor única que são todas
e matizar as pessoas com nuances subtis para que sejam coerentes
mas eu vou ficar transparente para que vejam por mim o que eu não quero que dói muito
só que o ar anda racionado e o homem racionalizado
e dizem-me que o não faça que fique quedo como quem respira só para fazer circular o ar como o polícia que diz do acidente que aqui não há nada para ver
e fecharam-me à chave
e fecharam-me a chave dentro duma gaveta que está lá fora e lá longe
e estou a fazer pequeníssimos quadrados nas paredes do meu quarto para simular a imensidão do mundo
mas não me chega falta-me gente e até pus um anúncio no jornal a pedir gente pequenina em part-time para me inundar as paredes vestidas de quadrados que fazem de muros das casas das pessoas lá fora
e dentro do meu quarto corre bem corre muito bem porque as cores começaram a intrometer-se nas almas umas das outras
e agora nem são quadrados
são manchas que eu nem distingo que eu nem percebo que eu nem sei ao certo
manchas que se misturam como quem nada que viajam como quem corre
como quem escorre do tecto
como quem escorre do chão ao tecto
como quem escorre de fora para dentro
como quem se entranha
como quem se une
como quem se mune de aventuras e segredos que quiseram ser contados para deixarem de existir
e a perfeição do mundo interior é ter as barreiras simples feitas para cair
e a sua única tristeza são as arestas que choram no canto porque separam a mãe do filho e a solidão da aventura
e ao meu quarto só lhe falta ser circular para ser o mundo mas lá fora circula
e um dia hei-de sair para dizer a todos que se espalhem ao comprido e debaixo uns dos outros
como quem ama sem saber como
como quem chama sem saber quem
como quem brinca sem saber a quê
e vou-lhes ensinar a verdadeira linguagem dos afectos que é moldável palpável e daltónica
e o mundo vai ser de uma cor melhor o mundo vai ser de duas cores da minha e da tua


in luto lento, de JOÃO NEGREIROS