domingo, 9 de outubro de 2011

AH! SE EU PUDESSE

Foto de Rui Videira

Ah! Se eu pudesse...


Serias o rio calmo que desce pelas colinas


serias as águas translucidas que nele passeiam


e mergulhava em ti


como serpentinas


como cobras de águas doces


subia e descia quando queria


mais de ti


e mais doce!!!




D'Aquino Correia


Ricardo Nuno Correia







sábado, 8 de outubro de 2011

O OUTONO VISTO PELA JANELA, in "A VERDADE DÓI E PODE ESTAR ERRADA"

                      

João Negreiros
 




PRÉMIO NOBEL DA PAZ 2011

                 Tawakkul Karman                   Ellen Johnson Sirleaf                  Leymah Gbowee


"Não podemos alcançar a democracia e a paz duradoura no mundo se as mulheres não tiverem as mesmas oportunidades que os homens de influenciar o desenvolvimento em todos os níveis da sociedade", justificou o Comité Nobel, ao anunciar que o prémio da Paz este ano vai ser dividido em partes iguais entre três mulheres, pela sua "luta não violenta pela segurança das mulheres e pelo direito das mulheres de participar num trabalho de construção da paz".




Ellen Johnson Sirleaf é a primeira mulher democraticamente eleita presidente. Desde a sua eleição, em 2006, explica o Comité Nobel, contribuiu para a paz na Libéria, assim como para a promoção do desenvolvimento económico e social do país.




Já Leymah Gbowee destacou-se pela mobilização das mulheres de várias etnias e religiões na Libéria contra a longa guerra no país.




Tawakkul Karman teve um "papel preponderante na luta pelos direitos das mulheres e pela democracia e paz no Iémen", tanto "antes como durante a Primavera Árabe" .




In Revista "Visão"

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

TOMAS TRANSTROMER - PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA 2011

Tomas Transtromer


LISBOA




No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes.


Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões.


Acenavam através das grades.


Gritavam que lhes tirassem o retrato.




“Mas aqui!”, disse o condutor e riu à sucapa como se cortado ao meio,


“aqui estão políticos”. Vi a fachada, a fachada, a fachada


e lá no cimo um homem à janela,


tinha um óculo e olhava para o mar.




Roupa branca no azul. Os muros quentes.


As moscas liam cartas microscópicas.


Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa:


“será verdade ou só um sonho meu?”






Tomas Tranströmer


Tradução de Vasco Graça Moura

terça-feira, 4 de outubro de 2011

AUSÊNCIA


Sophia de Mello Breyner Andresen

AUSÊNCIA




Num deserto sem água


Numa noite sem lua


Num país sem nome


Ou numa terra nua




Por maior que seja o desespero


Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.




Sophia de Mello Breyner Andresen

QUE MÚSICA ESCUTAS TÃO ATENTAMENTE



Que música escutas tão atentamente


que não dás por mim?


Que bosque, ou rio, ou mar?


Ou é dentro de ti


que tudo canta ainda?


Queria falar contigo,


dizer-te apenas que estou aqui,


mas tenho medo,


medo que toda a música cesse


e tu não possas mais olhar as rosas.


Medo de quebrar o fio


com que teces os dias sem memória.


Com que palavras


ou beijos ou lágrimas


se acordam os mortos sem os ferir,


sem os trazer a esta espuma negra


onde corpos e corpos se repetem,


parcimoniosamente, no meio de sombras?


Deixa-te estar assim,


ó cheia de doçura,


sentada, olhando as rosas,


e tão alheia


que nem dás por mim.




EUGÉNIO DE ANDRADE


LUTOS



LUTOS




A minha mãe era triste


Tinha olhos de acender luzes


 na escuridão da morte


 e era triste




Inscrevia as horas nas paredes


com o tamanho dos seus olhos


Eles cresciam nos meus


eram os dela e os meus


e eram tristes




Havia sempre um luto corrido nos dias


Era uma pequena cor no casaco


a chorar de escuridão em mim


e o mundo à volta era triste




Uma pertença longínqua


trazia-me unido à morte


sem que eu rodeasse muito os vivos


A casa tinha eternidade


era triste


II


Os meus irmãos habitavam o longe


Eu olhava a minha mãe


quando ela vinha do quarto dos mortos


Ela descontava silenciosamente


o riso de medo que nos sustinha


O mundo era magoado


A minha mãe era triste




Eu tinha as marcas de luto que me uniam à morte


num jogo áspero de soluço escasso


Os meus irmãos resguardavam – se dos retratos


festejavam os dias num jogo disputado


Eram tristes




Contava eu os velhos como surpresas junto de velas


nas nossas tão veladas brincadeiras


a que a mãe vinha assistir com cuidados


nos olhos enormes de lembranças


idades lutos e exangues pertenças


A vida tinha a morte


Era triste




Publicada por JOSÉ RIBEIRO MARTO no blogue VÁ ANDANDO