quinta-feira, 30 de junho de 2011

A MENINA DO MAR

Sophia de Mello Breyner Andresen

O SOL BRILHAVA"Era uma vez uma casa branca nas dunas, junto a uma praia grande e deserta onde morava um rapazinho. Nesta praia havia rochedos maravilhosos que o rapaz adorava e passava a sua vida a brincar aqui, principalmente quando a maré estava vazia. Numa noite de Setembro houve uma tempestade tremenda, mas, de manhã, a calmaria voltara e o sol brilhava..."

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

in " A MENINA DO MAR"





terça-feira, 28 de junho de 2011

DIA 301

Joaquim Pessoa

DIA 301

Uma coisa. Outra coisa? A mesma coisa? Que coisa? Onde
está essa coisa? Na minha língua? No meu sapato? No meu
silêncio? Ou na minha coragem? Onde está? Onde mora?
Onde espera por mim? Onde quer que a encontre? Essa coi-
sa é milagre? Essa coisa é contágio? E que quer essa coisa?
Quanto mede essa coisa? Quanto vale essa coisa? Mastigo
essa coisa? Respiro essa coisa? Amo essa coisa? Será minha
essa coisa? Será rica essa coisa? Será erva, será canto, será
fome, será triste, essa coisa? Será vento, e fábula, e castigo,
essa coisa? Será fuga, delírio, desprezo, caminho, verdade,
jogo? Qual é a coisa, afinal? Uma coisa simples? Uma sim-
ples coisa? A coisa certa? Uma certa coisa? Coisa boa? Coisa
estranha? Coisa rápida? A melhor coisa? A pior coisa? Coisa
amiga, coisa boa, ou coisa que embaraça, coisa vingativa,
coisa tola, coisa pobre, coisa frágil? Não sei da coisa, não co-
nheço a coisa, nada posso dizer da coisa.
Seja esta coisa o que for, esteja esta coisa onde estiver, faça
esta coisa o que fizer, terrível ou fantástica, meu Deus, que
coisa esta!

JOAQUIM PESSOA

(Do livro a publicar, ANO COMUM)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

QUANDO TE AMO



Foto de Rui Videira
Amo-te. Basta-me um pássaro,
uma árvore
para me transportar ao jardim
de ti — um livro, uma palavra, o peso
do silêncio
para me levarem ao poço de ti,
aos teus olhos que ofuscam
o cristal da manhã; à tua boca
aproximando-se da minha pele
como se regressasse a casa.
Cantar-te é desfazer o nevoeiro da minha vida,
desfiar uma chama, ardendo lenta,
que não se via. E basta-me um vinho
ou a tua língua,
ou a memória dela
para que em mim disparem águas
trémulas — ainda são — por isso
quando te amo
sou um pouco essa montanha que tece com o vento
uma combustão muito lenta muito paciente
como se todo o fulgor da vida


se concentrasse nos vales e nos rios do teu corpo.


Casimiro de Brito

AMAR A VIDA INTEIRA



De AMAR A VIDA INTEIRA  (livro recentemente publicado)

Sento-me à beira da cama
que nos acolheu: um rio.
Nadas em teu sono. Ontem à noite
...disseste: Acorda-me quando acordares.
Não tive coragem. Mas o sol começou a entrar
nos lençóis onde fomos espuma excitação.
E a minha boca não deixou que o sol
entrasse sozinho. Quando acordaste
já eu navegava. As tuas árvores sorriam
balançavam.




Casimiro de Brito

domingo, 26 de junho de 2011

NINHO

[foto © Megan Owens]

NINHO

Roubei
de um ninho de palavras
o poema
que faço teu,
a palavra mãe
vem perturbada
recuperar seu filho,
desconhece
que o coração ao abrir-se
deixa voar a escrita.

JOÃO COSTA

sexta-feira, 24 de junho de 2011

...TENHO TANTA PENA DE PERDER UM INSTANTE DOS TEUS CABELOS

Foto de Rui Videira


                                    «A tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.
não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.
aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.
mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho
tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.
aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os
teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver
e para não chorar.»

José Luís Peixoto

...QUANDO A TERNURA FOR A ÚNICA REGRA DA MANHÃ

Foto de Rui Videira

Um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, acordarei entre os teus braços, a tua pele será talvez demasiado bela e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor. Um dia, quando a chuva secar na memória, quando o Inverno for tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da nossa janela, sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar a perfeição da felicidade.


José Luís Peixoto
de Abro Páginas Encontro Espelhos