terça-feira, 2 de outubro de 2012

DEIXEM-ME GRITAR AO VENTO





Deixem-me gritar ao vento..

Deixem-me derrubar muros...gritar ao vento a minha vontade
Ser mulher e ser amante...vestida de cetim...ser luar de desejo
Deixem-me escrever um poema sem regras...amar sem idade
Adormecer nos meus lábios o teu corpo...inventar a eternidade

Deixem-me soltar este amor que me prende...que doi e magoa
Hoje quero gritar...extravasar o fogo que meu corpo consome
Deixem-me soltar ao vento este anseio...esta sede...esta fome
Ser mulher sem amarras...saciar o desejo que em mim ecoa

Deixem-me dizer que quero...que desejo...que sou urgência
Que quero o beijo que me queima...o corpo que me chama
Deixem-me gritar bem alto...soltar os diques desta demência
Despir-me desta pele...envolver-te nesta boca que reclama

Deixem-me soltar os sonhos que calei os desejos que amordacei
O amor que não fiz...os beijos que não dei...os braços sem mim
Deixem-me ser a perdida...nas vielas escuras onde me inventei
Na noite onde me enclausurei...me chorei...na mágoa que bebi

Deixem-me ser desejo e loucura...confundir o dia com a noite
Dizer que estou aqui sem hora marcada...ser mulher sem tempo
Deixem-me ...inventar-me e perder-me...caminhar sem norte
Ser anjo e demónio...morrer e renascer...no meu corpo sedento

Deixem-me desprender das minhas mãos os sonhos no céu voar
Escrever desejos no teu corpo...despir-me dos meus cansaços
Deixem-me falar da solidão onde anoiteço...do amor por amar
Dos meus medos...dos segredos...da ternura dos meus braços

Escrito por: ROSA MARIA



Rosa Maria

COMO NUVENS LENTAS DO OUTONO




Foto de José Sottomayor



As confidências demoram-se no céu da boca

como as nuvens lentas do Outono. Sopro-as,

para que o céu se limpe e apenas uma névoa vaga

se cole ao que me queres dizer; mas

encostas-me os lábios ao ouvido e tu, sim,

é que me contas que céu é este, e de onde

vêm as nuvens que o cobrem. Sentimentos,

emoções, paixões, interpõem-se entre

cada frase. Nem há outros assuntos

quando nos encontramos, e me começas a falar,

como se fosse o coração a única

fonte do que dizemos.


NUNO JÚDICE
in POESIA REUNIDA

APERTO A TUA AUSÊNCIA





uma marca indelével penetra-nos o coração
esvai-nos a razão
eterniza o gesto do teu olhar
e a mão que me afagava a melancolia

o teu rosto abraça-me fundo o passeio pelos dias de espuma brilhante
que se retira recolhendo o corpo fluido e vítreo
à beira sol

e aperto a tua ausência contra o peito
e foges na sombra do desespero
deixas-me com os olhos entornados na ternura do teu amor

Fernando de Jesus Ferreira



TÃO CURTO O TEU REGRESSO....


Boa...muito boa...noite...queridos amigos.
Peço desculpa deste tão grande,inesperado e triste... silêncio.
Não é meu hábito...muito menos,meu gosto.
Uma pequena,grande,avalanche de acontecimentos...
deixou-me sem palavras...
o ingrediente da vida que mais aprecio...
sem o qual sou fome...
sem o qual sede sou...

Não estou,
própriamente,
de regresso,
porque
continuo
sem computador
pessoal.

Não posso,
é deixar sem sentido
a vossa maravilhosa expressão de saudade,
o vosso toque carinhoso em mim
que nunca esquecerei.

Logo que puder,
responderei a cada um,
com todos os bocadinhos
que o meu coração saiba explicar

JOSÉ SOTTOMAYOR


DIA 191





Joaquim Pessoa



DIA 191

A música, a arte, a poesia, a esperança, a insónia, não podem
existir sem o amor.  E sem o amor pelo amor.  Como quando
perdemos a nossa mãe e, desesperadamente, por amor, pro-
curamos lembrar a claridade de um rosto que aos poucos vai
perdendo os seus contornos.
O que pode ajudar-nos na busca da maravilhosa transforma-
ção das ideias, nesse útero divino a que chamamos pensamen-
to, é o achamento do Graal, quero eu dizer, a resposta à per-
gunta: o que fazer com o amor?
Em cada caçador existe amor pelo animal caçado.  
Em cada animal sacrificado, mais que resignação, há respeito
pela mão que o executa. Pelo amor à vida, com o amor que a
vida nos reclama. Viver é fazer amor.
Do caminho escolhido, da nossa vontade, dos nossos gestos,
do nosso talento e da nossa capacidade para decidir, serão me-
lhores ou piores os nossos filhos. Tal como nós, os que amam
o amor, os que morrem de amor, e também aqueles que nunca
o encontraram e ainda os que, sendo abençoados por ele, nem
por um momento o souberam reconhecer.


 JOAQUIM PESSOA

in ANO COMUM 

POEMA XX


Pablo Neruda


Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Escrever por exemplo:
A noite está fria e tiritam, azuis, os astros à distância
Gira o vento da noite pelo céu e canta
Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Eu a quis e por vezes ela também me quis
Em noites como esta, apertei-a em meus braços
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito
Ela me quis e as vezes eu também a queria
Como não ter amado seus grandes olhos fixos ?
Posso escrever os versos mais lindos esta noite
Pensar que não a tenho
Sentir que já a perdi
Ouvir a noite imensa mais profunda sem ela
E cai o verso na alma como orvalho no trigo
Que importa se não pode o meu amor guardá-la ?
A noite está estrelada e ela não está comigo
Isso é tudo
A distância alguém canta. A distância
Minha alma se exaspera por tê-la perdido
Para tê-la mais perto meu olhar a procura
Meu coração procura-a, ela não está comigo
A mesma noite faz brancas as mesmas árvores
Já não somos os mesmos que antes havíamos sido
Já não a quero, é certo
Porém quanto a queria !
A minha voz no vento ia tocar-lhe o ouvido
De outro. será de outro
Como antes de meus beijos
Sua voz, seu corpo claro, seus olhos infinitos
Já não a quero, é certo,
Porém talvez a queira
Ah ! é tão curto o amor, tão demorado o esquecimento
Porque em noites como esta
Eu a apertei em meus braços,
Minha alma se exaspera por tê-la perdido
Mesmo que seja a última esta dor que me causa
E estes versos os últimos que eu lhe tenha escrito.

(Pablo Neruda)

DANÇA-ME






DANÇA-ME


dança-me na ponta dos teus dedos
e desabita-me dos meus fantasmas

sussurra-me os segredos das casas brancas

e habita-me na noite de todos os segredos

dança-me. dança-me na ponta dos teus dedos
e remove-me a seda dos olhos e dos medos

habita-me nas zonas escuras das mãos

e leva-me ao sol dos dias e à rosa-chá da emoção

habita-me na noite de todos os segredos

e desabita-me 

de mim 

e do esquisso dos meus medos

susana duarte



Susana Duarte