Nunca mais ouvirei o teu latir calmo como quando me estavas a chamar ou a querer dizer-me que sentiste a minha presença.
Nunca mais enxugarás as minhas lágrimas com a tua língua no meu rosto.
Nunca mais me farás companhia aqui em casa sózinha
Sentirei a tua falta no quintalzinho,
quando sempre me acompanhavas passo a passo
e ninguém na rua poderia chegar perto da rede.
A Mia era tua propriedade
Os teus olhos brilhavam quando estavas comigo e sorrias, sorrias muito.
Ninguém, nem mesmo o Nando poderia falar alto para mim.
Tu ladravas forte e determinado porque ninguém me podia magoar.
Quantas férias de calor e nós na cave. Eu, a ler e tu estendido a refrescar-te na tijoleira,
sempre com o teu ar de protecção que me fazia tão bem.
De vez em quando vinhas lamber-me a mão que esquecida estava estendida e eu fazia-te uma festa.
Todos os dias de manhã de manhãzinha, da janela do meu quarto,
E porque julgava que o mundo era só nosso eu gritava bem alto: "Bom dia, Jagger".
Um dia alguém me chamou a atenção e eu foi deixando de dar-te os bons dias....
Até isto tão simples me foi proibido.
Pensava que só eu e tu existias neste pequeno espaço da nossa casa.
Depois, veio o Afonso. Eu receava por ti, pelo amor tão grande que sentia por ele e que tu poderias não compreender.
Mas não, lambias-lhe os dedinhos e os pézinhos e eu quando falava contigo e mencionava o nome de Afonso - o bébé - tua abanavas o rabo e sorrias.
Ontem estive contigo - era mais um sábado e era costume estarmos juntos.
Eu lia e tu estavas deitado ao meu lado. Mas ontem, estavas diferente...
Por isso não li só olhava para ti. Afagava a tua cabeça até aos olhos e tu fechavas-os e tornavas a abri-los, mas tristes, terrívelmente tristes...
Nunca mais te verei sorrir...
Nunca mais ouvirei o teu latir calmo como quando me estavas a chamar ou a querer dizer-me que sentiste a minha presença...
Nunca mais enxugarás as minhas lágrimas.....