sábado, 8 de dezembro de 2012

NETOS

Afonso Manuel



NETOS

Pequenos,
Lindos,
Sapecas...
Capazes de gerar ondas borbulhantes,
De extrema felicidade,
De amor e de paz,
Quando falam minha avó...
Ou simplesmente vó...
Vó é palavra mágica,
Feita de favos de mel,
Por fadas do bem querer.
Ser avó é ter desejos de mudanças,
Aceitar pacificamente as mudanças dos desejos...
É quebra de paradigmas.
Conquista de novos olhares,
São diferentes visões de mundo,
Num mundo mais colorido,
Feito de pura emoção que segue a cada momento,
A cada dia a explodir de prazer o coração,
De excesso de emoção...
As avós sabem que,
Netos não podem sofrer...
Também não podem chorar...
Mas,
Como fazê-los crescer?
Amadurecer?
O limite tem a dimensão de refrear o que é inadequado, o que é indevido.
Limite é palavra dolorida, mas tem relação com a boa educação.
Limitar é educar.
Mas, como permitir o apropriado, o limitante, sem partir o coração?
Vó...
Palavra que corrompe as certezas incondicionais,
Que anula a percepção sobre:
O que é certo?
O que é errado?
Vó...
É palavra indescritível.
Amar os netos faz-nos enxergar os erros educativos como acertos do coração.
Fazem-nos transgredir sem nenhuma reflexão, sem nenhuma intimidação,
Ser avó serve para despedaçar a autoridade dos pais sem a menor cerimônia.
Vó...
Quando as avós avistam os netos, esquecem como educaram os filhos.
Afinal, não são filhos, são netos.
Eles beijam, abraçam e dizem com toda sinceridade...
-Minha avó linda... Eu estava com saudades de você, viu vó?...
Acredito que todos os netos foram criados pelas Mãos Divinas
Num momento de traquinagem de Deus.


Maria José Azevedo Araújo

sábado, 24 de novembro de 2012

HABITAS-ME

Foto de Francesco Izzo




De um só quarto
No alto de uma falésia;
Como a ventania


Irrompe na floresta, cavando clareiras
Ou devagar vai esculpindo luas
Nas areias.


FERNANDO DE JESUS FERREIRA





Fernando De Jessus Ferreira

UM RESTO DE DIA LINDO

Foto de Pedro Sottomayor

Um resto de dia lindo.....

na Granja...
praia da.....

esse mar agreste,
desses rochedos forma.formatando.....


do Eça essa prosa imensa brotando,
da Sophia os sentimentos enormes de falando.amando...


de mim,

um simples beijo...celebrando...

a linda Granja,

guardando as seus belos tão seres,

nesse mar agreste.justo,
desses seres tão belos...infindos...


JOSÉ SOTTOMAYOR

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

SER CRIANÇA





Foto de Acácio Costa

SER CRIANÇA

Sorri, sorri
Guarda a tua lança
Sorri, sorri
Eu sou uma criança!...

Tu és adulto!...
Olha o meu sorriso rasgado,
Olha nos meus olhos
Esbugalhados clamando
Pelo teu amor
Que às vezes me é negado!...

Tu és adulto!..
Eu sou criança!...
Somos iguais
Desde a nascença
Com uma diferença:

Tu dependes de ti
Eu dependo de ti
Do teu alimento
Que me deixes viver
Com os meus direitos
De poder crescer,
Brincar, aprender
Ter o teu respeito
E o devido sustento!...

Sorri, sorri
Eu não tenho lança
Sorri, sorri
Eu sou só uma criança!...

( Acácio Costa)

DESPERTA-ME DE NOITE







Desperta-me de noite
O teu desejo
Na vaga dos teus dedos
Com que vergas
O sono em que me deito

É rede a tua língua
Em sua teia
É vício as palavras
Com que falas

A trégua
A entrega
O disfarce

E lembras os meus ombros
Docemente
Na dobra do lençol que desfazes

Desperta-me de noite
Com o teu corpo
Tiras-me do sono
Onde resvalo

E eu pouco a pouco
Vou repelindo a noite
E tu dentro de mim
Vai descobrindo vales.

MARIA TERESA HORTA, in Poesia Reunida (D. Quixote, 2000)

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

É OUTONO



O meu filho


POSTAL

Chovem pais e filhos sobre os campos,
terrenos de árvores húmidas, outono.
Os pais tentam sempre proteger os filhos,
essa é a natureza que corre nas árvores,
essa é a lei e esse é o sentido. É outono
e não poderia ser outra estação, começou
o frio e a fome, olho a força dos campos
pela janela submersa deste último outono
e compreendo por fim a minha idade:
chovem pais e filhos de mãos dadas.
Lá longe, sou pai. Lá longe, sou filho.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)




Foto do Zito

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O OUTONO




Foto do Zito

O OUTONO


Eu gosto do Outono. Gosto por inúmeras razões mas sempre que tento individualizá-las a beleza da estação esvazia-se e perde aquilo que eu denomino de alma-outonal. É deste conjunto que o constituem, que eu me alimento, me invento e me comovo.O Outono assemelha-se bastante com a vida. Há nele uma espécie de sabedoria e experiência.A precariedade do Outono é uma lição de seriedade pelo retrato que nos dá da fragilidade da vida e da não estabilidade da mãe-natureza. O Outono ainda floresce mas o seu elemento excepcional é a cor e a penumbra, os efeitos e os matizes da luz quebrada no entardecer...Há um silêncio que murmura, há vozes sussurradas, palavras ciciadas saídas talvez das folhas que agora são dança em jeito de despedida, dançarinas de cores. E nós olhamos uma árvore e outra e outra e todas elas na sua majestade, sentadas nos seus tronos reais, deixam passar a brisa, deixam bailar as folhas, deixam-se ser...São as atitudes anímicas do Outono que nos prendem através da cor, são os sons da sensualidade na dança das folhas quando sem aviso e quase perdido de tamanho êxtase, o sol se passeia vestido de uma luz de cristal em cores púrpuras de seda brilhante...O Outono é especial - ilumina a alma.

Maria Antónia





Maria Antónia