quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O OUTONO




Foto do Zito

O OUTONO


Eu gosto do Outono. Gosto por inúmeras razões mas sempre que tento individualizá-las a beleza da estação esvazia-se e perde aquilo que eu denomino de alma-outonal. É deste conjunto que o constituem, que eu me alimento, me invento e me comovo.O Outono assemelha-se bastante com a vida. Há nele uma espécie de sabedoria e experiência.A precariedade do Outono é uma lição de seriedade pelo retrato que nos dá da fragilidade da vida e da não estabilidade da mãe-natureza. O Outono ainda floresce mas o seu elemento excepcional é a cor e a penumbra, os efeitos e os matizes da luz quebrada no entardecer...Há um silêncio que murmura, há vozes sussurradas, palavras ciciadas saídas talvez das folhas que agora são dança em jeito de despedida, dançarinas de cores. E nós olhamos uma árvore e outra e outra e todas elas na sua majestade, sentadas nos seus tronos reais, deixam passar a brisa, deixam bailar as folhas, deixam-se ser...São as atitudes anímicas do Outono que nos prendem através da cor, são os sons da sensualidade na dança das folhas quando sem aviso e quase perdido de tamanho êxtase, o sol se passeia vestido de uma luz de cristal em cores púrpuras de seda brilhante...O Outono é especial - ilumina a alma.

Maria Antónia





Maria Antónia






domingo, 14 de outubro de 2012

TEORIA SENTADA







TEORIA SENTADA

Um lento prazer esgota a minha voz. Quem
canta empobrece nas frementes cidades
revividas. Empobrece com a alegria
por onde se conduz, e então é doce
e mortal. Um lento
prazer de escrever, imitando
cantar. E vendo a voz disposta
nos seus sinais, revelada entre a humidade
dos corpos e a sua
glória secular. Uma dor esgota
a idade, com cravos, da minha voz.
E eu escrevo como quem imita uma vida e a vida
de uma inconcebível
magnitude. Ou somente de uma
voz. Um lento desprazer, uma
solidão verde, ou azul, esgota por dentro e para cima,
como um silêncio, o antigo
de minha voz.

O que digo é rápido, e somente o modo
de sofrer
é lento e lento. É rapidamente fácil e mortal
o que agora digo, e só
as mãos lentamente levantam o alcool
da canção e a formosura
de um tempo absorvido. Digo tudo o que é
mais fácil da vida, e o fácil
é duro e batido pela paciência.
Porque a terra dorme e acorda de uma
para outra estação.

Porque vi crianças alojadas nos meus
melhores instantes, e vi
pedaços celestes fulminados na minha
paixão, e vi
textos de sangue marcados desordenadamente
pelo ouro. Porque vi e vi, na saída
de um dia para o começoda primeira noite, e no despadaçar da noite.
E porque me levantei para sorrir
e ser cândido. E porque então
estremeci com a rapidez das palavras e a quente
morosidade
da vida. Eu disse o que era fácil
para dizer e eu tão
dificilmente havia reconhecido. Porque eu disse:
um prazer, um pesado prazer de cantar
a vida, consome a única voz
de uma vida mais sombria e mais funda.
E eu mudo sobre este campo parado
de cravos, quando a lua
rebenta, quando
sóis e raios crescem para todos os lados do seu
fulminante país.

Alguém se debruça para gritar e ouvir os meus
vales
o eco, e sentir a alegria de sua expressa
existência. Alguém chama por si próprio,
sobre mim, em seus terríficos confins.
E eu tremo de gosto, ardo, consumo
o prnsamento, ressuscito
dons esgotados. Escrevo à minha volta,
esquecido de que é fácil, crendo
só no antigo gesto que alarga a solidão contra
a solidão do amor.
Escrevo o que bate em mim - a voz
fria, a alarmada malícia
das vozes, os ecos de alegria e a escuridão
das gargantas lascadas. Para os lados,
como se abrisse, com a doçura de um espelho
infiltrado na sombra. Fiel
como um punhal voltado para o amor
total de quem o empunha.

Alguém se procura dentro do meu ardor
escuro, e reconhece as noites
espantosas do seu próprio silêncio. E eu falo,
e vejo as mudanças e o imóvel
sentido do meu amor, e vejo
minha boca aberta contra minha própria boca
numj amargo fundo de vozes
universais.

Alguém procura onde eu estou só, e encontra
o campo desbaratado
e branco da sua
solidão.


HERBERTO HELDER




Herberto Helder

A VIDA É RESISTIR E VIVER





Rua da Saudade de José Sottomyor


A vida
não é ter feito,
é fazer.

A vida
já não é exisistir
existido,
é resistir
e viver.

Desnudando,

Se eu pudesse
guardava-te,

aconchegada,

...no meio
das minhas mãos,

essas mãos
com que escrevo
as páginas
do meu caminho,

essas mãos
com que afago
a luz do dia...

Se eu pudesse,
que posso,

guardo-te,
quentinha
e feliz,

na nossa próxima alegria

José Sottomayor



José Sottomayor

PRECE





Prece...

Quando a voz em mim se cala...há no meu olhar uma prece
Que murmuro em silêncio...que solto á noite e grito à vida
Quando no meu frio corpo...tristemente a saudade anoitece
Choro por mim...choro-me de tão vazia...tão só e perdida

Aproxima-se a noite...solto os meus medos...afago a solidão
Tateio o meu rosto na madrugada...procuro-me nos poentes
Minuto a minuto...amortalho a vida no desvanecer da ilusão
Sepulto as pétalas que escorrem dos meus braços dormentes

Fui acomulando pedras no caminho...fui polindo as mágoas
Esculpindo silêncios na noite...sarando as feridas dia a dia
Procurando-me no tempo...bebi em segredo todas as lágrimas
Arrastei-me nas margens do abismo...de corpo e alma vazia

Guardo a mágoa no peito...os desenganos nos sonhos perdidos
Prendo o vazio nas mãos...as tempestades no corpo dormente
Caminho à deriva...voo sem rumo por entre ecos adormecidos
Sou o resto dum destino incerto...dum futuro de mim ausente

No grito de todos os silêncios...em tristes versos me escrevo
A preto e branco me desnudo...me entrego de corpo e alma
Num cálice de solidão...me derramo em poesia...me bebo
Perdida e sem rumo...vagueio na escuridão da noite calma

No meu corpo jaz um poema...um eterno poema de amor
Vestido de solidão...amortalhado e enterrado no meu peito
Entre a sombra e o silêncio...canto neste verso a minha dor
Escrevo o que de mim restou...canto a noite onde me deito

 ROSAMARIA





RosaMaria

SE EU PUDESSE






Se eu pudesse,


o mundo

não teria

paredes,

abismos

e bombas,



as crianças

correriam

saltando

sempre

como anjos,



as lágrimas seriam proibidas,



e até mesmo viver

seria obrigatório.


José Sottomayor

terça-feira, 2 de outubro de 2012

ABRAÇA-ME









Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele
e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos.
Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser
este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida
na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos
para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas.
Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti
eu possa buscar o sentido dos sentidos, o sentido da vida.
Procura-me com os teus antigos braços de criança
para desamarrar em mim a eternidade, essa soma formidável
de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram.
Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor.
Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos,
para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros
pequeninos. Só essa água fará reconhecer
o mais profundo, o mais intenso amor do universo,
e eu quero que dele fiquem a saber
até as estrelas mais antigas e brilhantes.
Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais.
Uma vez que nem sei se tu existes.


JOAQUIM PESSOA in ANO COMUM
(Introd. de Robert Simon; Posf. de Teresa Sá Couto)
Litexa Editora, 2012




 Joaquim Pessoa

DEIXEM-ME GRITAR AO VENTO





Deixem-me gritar ao vento..

Deixem-me derrubar muros...gritar ao vento a minha vontade
Ser mulher e ser amante...vestida de cetim...ser luar de desejo
Deixem-me escrever um poema sem regras...amar sem idade
Adormecer nos meus lábios o teu corpo...inventar a eternidade

Deixem-me soltar este amor que me prende...que doi e magoa
Hoje quero gritar...extravasar o fogo que meu corpo consome
Deixem-me soltar ao vento este anseio...esta sede...esta fome
Ser mulher sem amarras...saciar o desejo que em mim ecoa

Deixem-me dizer que quero...que desejo...que sou urgência
Que quero o beijo que me queima...o corpo que me chama
Deixem-me gritar bem alto...soltar os diques desta demência
Despir-me desta pele...envolver-te nesta boca que reclama

Deixem-me soltar os sonhos que calei os desejos que amordacei
O amor que não fiz...os beijos que não dei...os braços sem mim
Deixem-me ser a perdida...nas vielas escuras onde me inventei
Na noite onde me enclausurei...me chorei...na mágoa que bebi

Deixem-me ser desejo e loucura...confundir o dia com a noite
Dizer que estou aqui sem hora marcada...ser mulher sem tempo
Deixem-me ...inventar-me e perder-me...caminhar sem norte
Ser anjo e demónio...morrer e renascer...no meu corpo sedento

Deixem-me desprender das minhas mãos os sonhos no céu voar
Escrever desejos no teu corpo...despir-me dos meus cansaços
Deixem-me falar da solidão onde anoiteço...do amor por amar
Dos meus medos...dos segredos...da ternura dos meus braços

Escrito por: ROSA MARIA



Rosa Maria