quarta-feira, 11 de maio de 2011

Dustin O'Halloran — We Move Lightly

                      




Alexandre Azevedo Pinto



NOTURNAMENTE

NOTURNAMENTE, por Rogério Edgardo Xavier

Isadora, guacho s/papel, 2011

Noturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo


Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
me denuncio


Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces


Mia Couto
in "Raiz de Orvalho
e outros poemas"



terça-feira, 10 de maio de 2011

OS AMIGOS

Por Maria Clara PT




Um dia a maioria de nós irá separar-se.
Sentiremos saudades de todas as conversas
jogadas fora,
das descobertas que fizemos, dos sonhos
que tivemos, dos tantos risos e
momentos que partilhamos.
Saudades até dos momentos de lágrimas, da
angústia, das vésperas dos finais de semana, dos finais de ano, enfim…
do companheirismo vivido.
Sempre pensei que as amizades
continuassem para sempre.
Hoje não tenho mais tanta certeza disso.
Em breve cada um vai para seu lado, seja
pelo destino ou por algum
desentendimento, segue a sua vida.
Talvez continuemos a nos encontrar, quem
sabe…nas cartas que trocaremos.
Podemos falar ao telefone e dizer algumas
tolices…
Aí, os dias vão passar, meses…anos… até
este contacto se tornar
cada vez mais raro.
Vamo-nos perder no tempo….
Um dia os nossos filhos verão as nossas
fotografias e perguntarão:
“Quem são aquelas pessoas?”
Diremos…que eram nossos amigos e……
isso vai doer tanto!
“Foram meus amigos, foi com eles que vivi
tantos bons anos da minha vida!”
A saudade vai apertar bem dentro do peito.
Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes
novamente……
Quando o nosso grupo estiver incompleto…
reunir-nos-emos para um último
adeus de um amigo.
E, entre lágrima abraçar-nos-emos.
Então faremos promessas de nos encontrar
mais vezes daquele dia em diante.
Por fim, cada um vai para o seu lado para
continuar a viver a sua vida,
isolada do passado.
E perder-nos-emos no tempo…..
Por isso, fica aqui um pedido deste humilde
amigo: não deixes que a vida
passe em branco, e que pequenas
adversidades sejam a causa de grandes
tempestades….
Eu poderia suportar, embora não sem dor,
que tivessem morrido todos os
meus amores, mas enlouqueceria se
morressem todos os meus amigos!


Fernando Pessoa

ALVORADA

ATRAVÉS DO MURAL DE JAIME MAIA


Foto de Jaime Maia
 Apetece demorar o olhar...

GOSTO QUE TE CALES





... GOSTO QUE TE CALES


... Gosto que te cales
... no silêncio de meu peito.

... A casa grande
... habitados gritos
... nocturna casa
... luminosos olhos.
... Percorridos rios
... silencioso o corpo
... no desaguar.


... Gosto quando te calas
... no silêncio me falas
... com dedos de ternura.


... Gosto quando te calas
... boca selada
... por beijos ... meus.
... Gosto quando te calas
... e por gemidos soletras
... o amor que te dou.


Por Joaquim Monteiro


Dia 1 de Março de 2011




TURVO



Foto de Rui Videira

TURVO


o teu olhar, até aqui azul,
escureceu quando falaste.
devia ter notado a embriaguez do mar,
a rebelião das ondas na menina dos teus olhos
mas fechei os meus, recordas…
enquanto os teus beijos me voavam dentro da boca
e me sentia pássaro a pairar sobre as rosas.


Luisa Azevedo
 
o mar deixou lençóis de céu
num olhar
rasgou um bando de beijos
numa boca
e em asas azuis semeou um poemário
...na memória que se embarga
com o voo da saudade


João Costa


se a saudade voasse,
se ela tivesse asas,
pedia-lhe para subir no seu dorso,
partiria com o bando em busca da quente aurora dos trópicos,
rasgaria o horizonte onde te escondes
para resgatar o azul do teu olhar.


Luisa Azevedo

OLHAR-TE

Pintura de Montserrat Gudiol


OLHAR-TE


Olhar-te,olhar a boca do labirinto,os atalhos que levam aos teus húmidos recantos,encanta-me.Olhar-te toda,das coxas para o rosto e do rosto para as coxas,a vida inteira—e depois o rumor,o cheiro,o sabor a mar,um mar pequenino que gostaria de trazer comigo,que talvez me transporte consigo.Excitam-me os perfumes felizes da tua carne,o teu cheiro animal.Mais depressa morreria se não regressasse ao pequeno charco.

Casimiro de Brito

Csimiro de Brito