sexta-feira, 15 de abril de 2011

O MURRO

                                                         João Negreiros
ontem disseram-me que eu era razoável e eu parti
todos os dentes a quem me disse tal coisa
é que eu não aguentei
porque não insultou minha mãezinha e seus hábitos
conjugais como eu estava à espera?
porque não insultou minha mãezinha afirmando
que todos os homens do globo poderiam ser o meu
paizinho?
porque não me disse que cheirava mal?
porque não me inventou uma corcunda?
porque não aproveitou      conjugando as duas
correntes      e descreveu minha mãezinha como
um ser desprovido de higiene e com protuberâncias
dorsais que rivalizariam com os picos da Europa?
chamar-me a mim razoável?!
eu que sou extraordinário de tão ruim
eu que estou nos pólos com os iões
eu que faço tudo para me destacar
violo meninas em plena avenida para depois salvar o
mundo
dou o antídoto aos venenos e o veneno sem antídoto
mato pessoas que idolatro e amo tudo a quem não
gosto
eu que sou magnânimo na intermitência da ruindade
eu      rei dos povos e súbditos dos mendigos
eu sou o contrário do razoável
ninguém me ama com medo de se apaixonar
todos me batem com jeito de açoitar o puro-sangue
que se habituou ao cheiro da glória que não se quer
render à vida para procriar
eu sou o Deus triste que está na lama das estrelas
o imperador de palácios vazios
o vagabundo de séquito interminável
a divindade a quem faltam promessas
o risco sem medo
a justiça sem pecador
vivo para lá da lei na origem dos decretos
chamar-me a mim razoável quando sou limpo
sem rasuras
sem razão
chamar coerente a quem inventou a loucura é dar pão
aos patos quando o mar está revolto
dá-me antes um murro em plena face
resvalando a jeito de me partir o nariz para depois
me tratares
com curativos pintados de bonecos da infância que
estava no armário dos medicamentos
ser razoável é pior que mau
é melhor que bom
e é igual a mais ou menos, que é pior que mau
e melhor que bom
e igual a mais ou menos
ser razoável é nem sequer estar
é estar sem querer
é comer sem gosto
é borrar sem cheiro
é morrer sem choro
é cantar sem alma
é estragar o que está precisamente maduro
é esquecer o que acabou de se fazer
é dar as costas à felicidade  e o virar de cara ao
infortúnio
ser razoável é ser medíocre e ser medíocre é pior que
mau
é melhor que bom
e é igual a qualquer coisa
dá-me antes outro murro para retomar os sentidos e
me lembrar que no extremo está a virtude
nos pólos está mais frio e as criaturas são mais brancas
mais pretas
com mais chifres
e mais longe de casa porque abominam o que é
doméstico
o cão de colo que me perdoe mas sou o urso polar
o esquimó fresquinho que o menino não chega  a
lamber porque está no fundo da arca para além do rio
mais gelado e do pingo do nariz
chamar-me a mim razoável é chamar ao homem
selvagem e à mulher     mulher dele
chamar-me a mim razoável é chamar a vós também
que levais os ouvidos tapados
chamar-me a mim razoável é dizer a mim e a todos
que não há hipótese de mudar isto para melhor
chamar-me a mim razoável é dizer a mim e a todos
que não há hipótese de mudar isto para pior
chamar-me a mim razoável é dizer a mim a e todos
que estamos a mudar tudo para mais ou menos
exijam o murro em plena face
gritem pelo murro
façam o abaixo-assinado pelo murro
mil milhões de assinaturas pelo murro em plena face
recebamo-lo com um sorriso com menos dentes
e sangue a escorrer livre
e o sangue que nos escoa da boca vai dar cor a isto
vai-vos sujar os casaquinhos imaculados que se
venderão a preços simbólicos nas feiras e por maquias
estratoféricas nas lojas de haute-couture
e      na impossibilidade de encontrar o equilíbrio
o conforto
o quentinho
o meio
encontramos a humanidade que é feita de defeitos
amores impossíveis
rotas ocasionais
céus carregados
searas em chama
florestas virgens
assomos de bravura
loucuras temporárias
e tranquilidades passageiras
e tu     que levas os dentes partidos só porque alguém
não te quis perfeito        sabes agora a importância de
saber
tu        que lavas a boca no chafariz na despedida do
incisivo       sabes agora ao que vens
ao que venho
ao que vimos
sabes agora que somos
somos tudo
somos completamente tudo
somos o que sobra do sorriso depois dos dentes se
afogarem pela rapidez do rio

João Negreiros, EN "a verdade dói e pode estar errada"

DIAS IMPROVÁVEIS



Da vida eu não sei nada
Mas este nada é da força das árvores ancestrais
Se as flores não choram
Em mim choraram tudo
Se não sorriem
Em mim sorriram tudo
E a terra meu amor
A terra de que todos temos medo
A terra não nos consome o sorriso
Nem os sonhos
Nem a ternura com que trocamos
Beijos na fonte
E a terra só é fonte e beijos
Um lugar cheio de lugares um não para todo o sim
A vida é o sentir das coisas
A vida dispensa todo o corpo
A vida é sempre que Deus queira
A vida não tem muros que a impeçam
E algemas que a agarrem
Ah maçãs, doces maçãs!
Que morreis para o amor da vida
Na vermelhidão das bocas
Alguém sabe alguma coisa sobre maçãs?
Quando a humidade do sumo procura a língua
E atravessamos todo o rio da eternidade
Alguém as saboreia de facto
E engole a brisa que lambe a ânsia?
Quando serpenteamos lugares com os olhos fechados
E seguimos veredas sem qualquer corpo
No êxtase sagrado dos sentidos
Há uma verdade que nos fala sem boca
E desaguamos nas coisas improváveis
Como se o amor desprenda os ferros
Como se a voz se prolongue
Ai tenho os meus olhos cheios de um grito de luz
De gente cheia de vida
Que a escuridão aborta
A atravessar o dorso da montanha como o sol
E dói
E sabe a dias incontáveis
Ai ânsia do que não morre
É urgente que mos sintas.


manuel feliciano

FREDERIC CHOPIN - Nocturne In E Flat Major, Op.9 No.2


Ouço e sonho...e o sono vem tranquilo...

SER AMADO





Amo ser amado.
Porque ser sem ser amado
não é ser,


é viver sem ser.


Amo a dor do amor.
Porque amor sem dor,
não é amor,


é sentimento sem fulgor.


Amo o teu respirar.
Porque respirar sem o teu respirar,
não é respirar,


é expiar o respirar.


Só,


amo,
sinto
e sou,


ao ser amado por ti.


   Por Vicente Ferreira da Silva in "30 Mensagens de Amor e 1 Recordação"

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O QUE VAI SER DE NÓS




Desenho no teu corpo
a minha vida,
na tua boca beijo,
a despedida,

e nos teus braços abraço
a liberdade,,
dentro de de ti me guardoeternidade.


O que vai ser de nós,amor,
quem escreve a história da alegria,
e por entre as brumas do Sol-pôr
quem fará da noite o novo dia...


De José Sottomayor

FOTO DE LOURENÇO PEREIRA

                                                                               Foto de Lourenço Pereira

AUSÊNCIA EM CORPO




E quando não te tenho também te tenho
E a tua ausência escorre-me em fetos nos olhos
E não te ter é ter-te duas vezes
E quando não te tenho é amor
Porque as coisas existem dentro e fora
Porque as coisas existem mesmo sem boca
E a brisa tem a propulsão do teu corpo
E o mar o eco do teu olhar
E as minhas mãos são duas árvores cheias de ti
E as minhas lágrimas são palavras que te chamam
E o teu silêncio tem a forma dos teus lábios
Até as águas sentem
Até as aves cantam
Que quando não te tenho também te tenho
Como a chuva a rasgar as pedras
Como o rio ao encontrar o mar.



Manuel feliciano