quarta-feira, 19 de setembro de 2012

PERDÃO





Acácio Costa

Perdão!...

Perdão, 
por me ter ido embora,
te ter deixado no leito,
sem sequer dizer adeus!...

Perdão,
mas não o podia fazer
sem primeiro lhe dizer
que é a ti que eu amo
e do mais fundo do meu peito
que é contigo que quero viver
até ao resto dos meus dias!....

Perdão, Julieta,
mas não tenho mais lágrimas
para tinta da minha caneta!...


 ACÁCIO COSTA






QUANDO O SOL SE PÕE NO CANTO DA JANELA


















QUANDO O SOL SE PÕE NO CANTO DA JANELA


quando o sol se põe no canto da janela, penso que fico triste
penso que acabou
e fico triste, porque penso que a tristeza vai acabar

e então pego no canto, na janela, no sol
e ponho a janela no canto do sol

passa o pássaro despassarado e desenha uma linha aguda no azul do céu
(obviamente)

e os meus olhos vão dar um mergulho nas ondas de uma mulher que acabou de os arrancar do torpor

FERNANDO DE JESUS FERREIRA

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

ESPERAR



Foto de José Manuel Fernandes

ESPERAR

esperar
o sopro na nuca
as mãos na extremidade pura do sentir
esperar
o aperto líquido e fundo
bocas de línguas oblongas extáticas
esperar
a carícia contemplativa do mar
corpos perdidos no lá bem ao fundo do dia
esperar
o amante derramado no desejo perdido no quotidiano
e abraçá-lo até de manhã
como se noite não tivesse havido
e depois
o corpo rodasse na indiferença da uma maçã

FJF





Fernando de Jesus Ferreira


sábado, 15 de setembro de 2012

OFEREÇO-TE PALAVRAS


Maria Antónia Anacleto


OFEREÇO-TE PALAVRAS

Se terminar este poema, partirás. Depois da
mordedura vã do meu silêncio e das pedras
que te atirei ao coração, a poesia é a última
coincidência que nos une. Enquanto escrevo
este poema, a mesma neblina que impede a
memória límpida dos sonhos e confunde os
navios ao retalharem um mar desconhecido



está dentro dos meus olhos – porque é difícil
olhar para ti neste preciso instante sabendo que
não estarias aqui se eu não escrevesse. E eu, que



continuo a amar-te em surdina com essa inércia
sóbria das montanhas, ofereço-te palavras, e não
beijos, porque o poema é o único refúgio onde
podemos repetir o lume dos antigos encontros.



Mas agora pedes-me que pare, que fique por aqui,
que apenas escreva até ao fim mais esta página
(que, como as outras, será somente tua – esse



beijo que já não desejas dos meus lábios). E eu, que
aprendi tudo sobre as despedidas porque a saudade
nos faz adultos para sempre, sei que te perderei



em qualquer caso: se terminar o poema, partirás;
e, no entanto, se o interromper, desvanecer-se-á
a última coincidência que nos une.



Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

SÚPLICA








SÚPLICA


ouve-me nos movimentos das pálpebras,
onde é sonora a ausência em que habito;
onde se espraiam vozes sumidas; onde
vivem giestas, e piam aves estranhas...


olha-me nos recantos da paixão antiga,
e desnuda-me os ombros de aurora. sê
inteiro, marinheiro das minhas águas e
cálida emoção que se derrete no calor
das minhas lágrimas antigas. sê a luz
onde tudo, dantes, era ilusão de néon.

ama-me. e devora-me os olhos e a boca
e os braços com que te cerco e sinto.

sente, de mim, a lágrima de luz coberta
de seda, onde te deitas e recobres de ser
marinheiro da minha sede. ama. em mim,
encerra as noites de aves estranhas, sê
luz ansiada-procurada-antes interdita. e

ama-me

susana duarte



Susana Duarte 



ASSIM QUE TE QUERO



ASSIM QUE TE QUERO

É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.

Pablo Neruda

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

ENCONTRO








Deixe passar este periodo
de maior instabilidade
e vamos encontrar
mesmo!

Não há dúvida
que bom é ver
um rosto
uns olhos
um todo!

Porque nós não somos só palavras
somos um todo
e quando falamos
todo esse todo
fala.

Fica completo o diálogo
.
Temos de ir tomar um café juntos...
um dia... vamos gostar!

Eu não bebo café
mas vou beber as suas
palavras...

Palavras de poeta!
.
Será uma amizade possível
e a amizade é só
é o melhor
que há!
.
t.
FILIPE CHINITA