terça-feira, 5 de julho de 2011

TERROR DE TE AMAR

Foto de José Manuel Fernandes

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição


Onde tudo nos quebra e emudece


Onde tudo nos mente e nos separa


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

AOS MEUS NETOS AFONSO E MANUEL

O Manuel e o Afonso (19/03/2011)

Aos meus netos AFONSO e MANUEL

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.


Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.


Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 3 de julho de 2011

O TEU VENTO



Foto de José Manuel Fernandes

O TEU VENTO

Na tua presença,
as palavras
esgotam-se
no teu ti,


há uma auréola
de tempo
sem tempo,


e no teu coração
eu entro,
e sinto-me
por dentro.


Quando
os teus cabelos
esvoaçam,
e as nossas bocas
se perpassam,


quando
o teu corpo
se desenha
nas minhas mãos,


e o teu respirar
respira o meu,


eu sinto-me
a folha mais feliz
arrastada
pelo vento,


...o teu vento.


JOSÉ SOTTOMAYOR

ISTO É MAIS DO QUE O TEMPO PODE APAGAR

sábado, 2 de julho de 2011

O ENCONTRO


Foto de Rui Videira
O ENCONTRO

Como se um raio mordesse
meu corpo pêro rosado
e o namorado viesse
ou em vez do namorado


um novilho atravessasse
meus flancos de seda branca
e o trajecto me deixasse
uma açucena na anca


como se eu apenas fosse
o efeito de um feitiço
um astro me desse um couce
e eu não sofresse com isso


como se eu já existisse
antes do sol e da lua
e se a morte me despisse
eu não me sentisse nua


como se deus cá em baixo
fosse um cigano moreno
como se deus fosse macho
e as minhas coxas de feno


como se alguém dos espaços
me desse o nome de flor
ou me deixasse nos braços
este cordeiro de amor


Natália Correia (1923-1993)

O ESPÍRITO

  

Natália Correia
 O ESPÍRITO
Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;


E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.


Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:


Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.


In: Sonetos Românticos
NATÁLIA CORREIA

sexta-feira, 1 de julho de 2011

UM LAR

      Foto de Joaquim Pessoa 
UM LAR
Quero um lar
onde meu corpo
não corte o vazio,
nem minha voz se perca
em monólogos submersos,
nem meus pés descalços
ecoem em avenidas de solidão,
nem o cansaço se desfaça
na fadiga do silêncio,
nem as horas sejam
encontros de passagem,
nem a madrugada se revele
mentira duma noite de amor.
Quero um lar
onde o aconchego dum abraço
seja certeza dum sorriso
chamado amanhã!

JOÃO COSTA