segunda-feira, 6 de junho de 2011

A ALMA DE OUTREM É O UNIVERSO

Foto de Rui Videira

A ALMA DE OUTREM É O UNIVERSO

"É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!


Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.


Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo."


Fernando Pessoa

sábado, 4 de junho de 2011

SEGREDOS EM DEGREDO

Foto de Paul Anderson

SEGREDOS EM DEGREDO

Deixei pelo chão
ilhas de segredos,
pequenos rochedos
num trilho para o meu coração.
Ofereci-te as horas
para trepares a minha muralha
e encheres de presença
o meu tempo.
Confiei-te as chaves
para me [re]abrires em futuro
e fiz dos dias teu soalho
para ser sombra do teu corpo.
Construíste-te castelo dentro de mim,
d’amurada da tua vontade
lanças-te em cordas para te salvar,
mas deixas que correntes te prendam
em esconderijos por desvendar,
lúgubres espaços ocultos,
fragmentos de vida a que não pertenço,
destino dos sorrisos em degredo.

João Costa

sexta-feira, 3 de junho de 2011

ARTE POÉTICA

Foto de Rui Videira

ARTE POÉTICA


o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é uma palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.


José Luís Peixoto, in A Criança em Ruínas

AMOR

Foto de Rui Videira

AMOR

Fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre

sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.


eu sei exactamente o que é o amor. o amor é saber


que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.


o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte


de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.


o amor é ter medo e querer morrer.

In “A Criança Em Ruínas”, José Luís Peixoto


quinta-feira, 2 de junho de 2011

AGORA SIM


JOSÉ SOTTOMAYOR


Agora sim,
em pleno,
nos íntimos
do íntimo.


...(o piano soa longe,perdido,errante,sofrido,....out "off" the record)


Beijavas-me,
acendias-me os olhos,
incendiavas-me as mãos,
apagavas o fogo
no meu corpo.


Beijo-te,
o teu olhar,
as tuas mãos,


percorro o teu corpo,
danço o lume
de nós.


Morro,
vértice,
de ti.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

DIA DA CRIANÇA

Os meus netos

POEMA DEDICADO AOS MEUS NETOS AFONSO e MANUEL

Já fui sonho... projecto ... feto...
Hoje, sou como o raiar de um novo dia,
O brotar de uma semente,
O desabrochar de uma flor!
Sou como uma doce melodia,
Com autor e partitura,
Só preciso que me "toquem" com ternura,
Para que eu possa ser gente!
Do bem, quero ser sempre contexto,
Não nasci para ser avesso!
Sou portador de sol,
Trago luz,
Alegria e esperança,
Afinal sou criança,

Walter Pimentel 
Isabel Guerreiro



CURA


CURA


No teu corpo
abandonado,
deito o meu
magoado,
nas tuas feridas
curo minhas chagas,
no teu deserto
deposito minha sede
e em fome
és-me alimento.
Quando a solidão anoitece
na pele que despes,
são minhas
as carícias que acordas
para te vestir de prazer
a vontade que acompanho!


JOÃO COSTA