quarta-feira, 6 de abril de 2011

METADE POR PAULA MARINA COSTA





Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca

Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio

Que a música que ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza

Que a mulher que eu amo
Seja para sempre amada
Mesmo que distante

Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
Nem repetidas com fervor

Apenas respeitadas
Como a única coisa
Que resta a um homem
Inundado de sentimentos

Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma
E na paz que eu mereço

E que essa tensão
Que me corroe por dentro
Seja um dia recompensada

Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável

Que o espelho reflita
Em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro de ter dado na infância

Porque metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei

Que não seja preciso
Mais do que uma simples alegria
Para me fazer aquietar o espírito

E que o teu silêncio
Me fale cada vez mais

Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba

E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade
Para fazê-la florescer

Porque metade de mim é plateia
E a outra metade é canção

E que a minha loucura seja perdoada

Porque metade de mim é amor

E a outra metade tambem



Ferreira Gullar


Prémio Camões 2010

.

terça-feira, 5 de abril de 2011

DANÇO-TE - POR LUISA AZEVEDO



sei que dançarei nos teus braços,
anjo aveludado…
com a leveza de uma pequena ave olhos esmeralda,
o vestido salpicado de pólen das açucenas do monte.
como eu, bravias!
vou dizer-te que meus lábios,
minhas mãos,
não estão humedecidos de desejo!
molharam-se, porque percorri campos de orvalho
logo pela manhã.
e vou dizer-te que meu coração,
meus olhos,
estão apressados porque o fiz numa corrida louca
ao ouvir tua melodia chamar-me

VITOR MARQUES

A fase final do meu percurso em que "brinquei" "insultando" as telas, os óleos, os pincéis e muitos outros produtos imprescindiveis na pintura...Mas foi dela que vivi uma mão cheia de anos!



 

Tela de Vitor Marques
 




JOSÉ SOTTOMAYOR



                                             Foto de José Sottomayor
 

Neste fim de dia...

principia.

Correm águas...
escorrem vidas,
nas mentes povoadas
das horas lancinantes,

saudades breves de um Sol passado,
resguardos renascentes de um Sol futuro,

olhamos sem ver vendo restos de horizonte,
sabemos sem saber o vento que nos bate defronte,

Correm águas...
escorrem vidas,

por momentos,

somos a alma das madrugadas
os donos da eternidade e dos instantes

                                       

FORÇA


Por Luisa Azevedo


quantas vezes escolhi este sonho!
caminhávamos pela praia
(ainda a timidez do sol superava a nossa)
quando duas ténues sombras,
afastando-se dos passos que para trás deixáramos,
se sobrepunham nos grãos de areia alisados pelo vento.
ali ficávamos, a olhar o nosso amor sombrio,
entre braços, pernas, bocas e desejos,
mordidas ferozes e danças de chuva…
ali, onde as nossas sombras suavam,
choravam, sangravam, gemiam,
a tua espuma derretia na liquidez em que me tomaste.
e nós,
tão perto,
arfando força para a elas nos juntarmos.


      



domingo, 3 de abril de 2011

VITOR MARQUES

Vitor Marques




Amenizar A Dor??? Como???? Fácil, Fácil É Transportá-La
Até Ao Fim...
Esse Sentir, Inerente À Condição Do "Ser"...
Incontornável Companheira"
E Confidente...Isto É Ser Humano E Basta-Me!!!


Por Vitor Marques

CORPO DESFOLHADO

                                                                           Outono em Amarante

Se o Outono chegar esta tarde
Eu visto-me com toda a sua nudez
Que me importa o que ele diz
Nos cabelos dourados de árvores
Em frutos no poente dos lábios
Em canoas no sangue da chuva?
Eu não morro com as flores
Habito fora de mim mesmo
E sou tudo o quanto penso
Distância sem qualquer longe
Arado lavrando-te o corpo
Onde o amor espera a palavra
Em folhas que o chão almejam
E a minha alma que não é cadáver

Manuel Feliciano